A História do Contrabaixo – Parte XXIII


A História do Contrabaixo parte XXIIIGrafite: das estrelas para o mundo dos graves

Com a evolução dos modelos de cinco e seis cordas, além da inserção de sistemas ativos, o baixo elétrico teve seu peso consideravelmente aumentado, prejudicando o desempenho dos músicos daquela época. A solução, por incrível que pareça, foi encontrada em um dos componentes utilizados na fabricação da nave espacial Voyager…

Ah, bons tempos aqueles em que você, usando somente seu Fender Jazz Bass ou Precision, precisava apenas de um cabo e um amplificador para fazer seu som acontecer. Com a evolução dos baixos elétricos e a procura de uma qualidade de som superior, o instrumento teve um considerável acréscimo de peso.

Desta forma, com o advento dos contrabaixos de cinco e seis cordas, foi necessário instalar novos hardwares, como tarraxas e pontes com encaixes adicionais, por exemplo. Modelos com mais de quatro cordas precisavam, naquele estágio tecnológico, de sistemas ativos para uma resposta de som diferenciada (uma vez que a captação passiva produzia muito ruído, principalmente com apresentações ao vivo). Por falta de critérios técnicos, as medidas de calibragem da corda Si eram assustadoras! 014. e 015. Atualmente são utilizadas cordas com bitolas entre 010 e 012.

Assim, era normal que um Alembic de cinco cordas, por exemplo, chegasse a pesar mais de 15 kg (um peso considerado ergonômico varia de 7 a 9 kg). Em virtude disto, os baixistas daquela época começaram a reclamar que, apesar da melhoria sonora apresentada, seus instrumentos eram muito pesados, ocasionando, muitas vezes, sérios problemas de coluna em muitos músicos.

Um dos músicos que mais amolava o pessoal da Alembic é um extraordinário contrabaixista. Se alguém pensou em Stanley Clarke, acertou! Clarke foi um dos primeiros endorsers da lendária marca. “Estava feliz com meu Alembic. Senti que minha sonoridade evoluiu de forma espantosa, mas eles eram muito pesados. Não sei como não acabei em um hospital depois dos concertos…”, declarou Clarke em uma memorável entrevista concedida para a revista Cover Baixo.

Voyager

Se você, assim como eu, adora tudo relacionado ao gênero ficção científica e viagens espaciais, certamente gostará da história a seguir. Tudo começa com um cara chamado Geoff Gould, baixista amador cuja felicidade, afora o mundo dos graves, era trabalhar na Ford Aerospace, conglomerado pertencente a N.A.S.A no final dos anos 1970.

Num concerto do Grateful Dead em outubro de 1974, Gould notou que o baixista Phil Lesh estava incomodado com o instrumento, procurando, a todo instante, entre outras medidas paliativas, ajustar o nível da correia ou procurando algum lugar para apoiar o corpo. Em determinados momentos, o músico chegava a tirar o baixo do corpo e o segurava com as mãos. Gould diria mais tarde que “observando aqueles movimentos de Phil eu cheguei à conclusão que havia alguma coisa errada com o Alembic dele. Foi quando ele me disse, depois do show, que seu baixo era muito pesado”.

Naquele ano Gould trabalhava no projeto da nave espacial Voyager (um extraordinário veículo espacial destinado a explorar outros planetas do sistema solar). Por conta da distância a ser percorrida, várias matérias primas na fabricação da nave tiveram simplesmente que ser inventadas. Estes novos elementos ou artefatos eram muito avançados para a época. Muitos deles, inclusive, seriam usados apenas no futuro.

Grafite

Com esta idéia na cabeça, Gould procurou a Alembic Projects, expondo seus novos conceitos a Rick Turner e Ron Armstrong, proprietários da marca. O engenheiro espacial levou uma mostra de um material derivado do carbono que era utilizado na estrutura externa da Voyager. “Chamamos este composto de grafite. Basicamente trata-se de um plástico reforçado, composto, entre outros ingredientes, por fibra e resina. O que vocês acham dele para projetar um novo instrumento?”.

Após uma longa reunião com intermináveis discussões técnicas, decidiram, por fim, construir um protótipo usando, na construção do braço, o novo material. O ponto técnico acordava que, se fosse possível diminuir o peso do braço, grande parte do problema estaria resolvido. Ao final do ano de 1976, depois de inúmeras tentativas e erros, o novo protótipo estava pronto.

Stanley Clarke: o primeiro

O primeiro baixista a testar o novo instrumento, foi, claro, Stanley Clarke. O histórico momento deu-se no final do mesmo ano, antes de um concerto do Return to Forever. Turner se lembra bem daquele momento: “Era uma situação ideal para nós, pois Stanley sempre chamava nossa atenção para o peso de nossos instrumentos e eu não queria que ele fosse endorsado por outras empresas”. Para felicidade geral de todos, o lendário baixista adorou a novidade. Com a aprovação de Clarke, a Alembic resolveu mostrar sua nova invenção para o mundo.

Primeiramente foi construído, em escala curta, um protótipo na qual presentearam a direção da N.A.M.M (Uma das mais famosas feiras de música do mundo) em 1977. Novidades sempre assustam muitas pessoas. Foi o que aconteceu nesta mostra. O público, entre músicos e críticos, recebeu com reservas o novo instrumento. Mas, com o passar dos meses, mais e mais músicos começaram a experimentar o novo projeto e todos, ao final, foram unânimes: E não é que este tal de grafite deixou o instrumento mais leve mesmo?

John McVie, do Fleetwood Mac, estava igualmente presente neste evento e ficou encantado com o novo baixo com o braço construído em grafite. Imediatamente, o grande baixista solicitou a Alembic que fabricasse um para ele usar em suas apresentações, carinhosamente apelidado de “Show Bass”.

Modulos Graphite

Rick Turner obteve a patente da invenção com o consentimento do engenheiro espacial. Assim, nascia a Modulus Graphite Company. Como a Alembic foi a primeira a usar o material, os primeiros baixos foram construídos em parceria, até 1978. Nos anos seguintes, Gould iniciou uma parceria com a Fender Company para dotar seus modelos Jazz Bass e Precision com o revolucionário material.

Após o evento do Grafite, nada de tão revolucionário abalou, de forma tão intensa, nosso mundo dos graves. A partir dos anos 80, praticamente todas as empresas americanas começaram a adotar o novo modelo em grafite na fabricação dos seus instrumentos mais sofisticados. O resto é história…

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: