A História do Contrabaixo – Parte XXI


Music Man StingRay SR4.

Music Man StingRay SR4.

Após a invenção do Precision Bass em 1951, mais uma vez o genial Clarence Leo Fender surpreende o mundo dos graves com a criação do Musicman Stingray, uma das mais poderosas máquinas de graves do mundo.

Você teve a oportunidade de conhecer, em um dos nossos capítulos, a criação da lendária Music Man Company. Nesta matéria, vamos inverter as coisas e mostrar as máquinas como verdadeiras estrelas. Refiro-me a um dos projetos mais ousados e originais já concebidos no universo dos contrabaixos elétricos desde a invenção do Fender Precision Bass em 1951.

Em 1965, Leo Fender era um homem com sérios problemas de saúde, causados pelo frenético ritmo de trabalho imposto pela Fender Company. Sabemos também que, naquele ano, o conglomerado CBS adquiriu a empresa visando a expansão da marca. Para preservar o espírito pioneiro, o lendário inventor foi contratado como consultor de produtos. Mas algo tinha acontecido com o passar dos anos. O mecanicismo dos produtos, a linha de montagem industrial para dar conta do volume de pedidos, novas tecnologias, novos controles… Tudo isto estava acontecendo muito rápido para o entendimento do sábio inventor.

A criação da Music Man Company

Para amenizar este desenfreado crescimento, Leo Fender prestava consultoria para diversas empresas de instrumentos e amplificadores. Entre elas, uma estava destinada a mudar os rumos na história do planeta, pois contava com um novo conceito, um novo projeto chamado Musitek, de autoria de George Fullerton, um dos veteranos da antiga Fender e amigo do seu fundador.

O velho inventor não gostava deste nome – que soava um pouco estranho para fins de marketing – e, após diversas reuniões, decidiu-se que a nova empresa seria rebatizada de Music Man Company. A Cia. Iniciou suas atividades oferecendo, a princípio, apenas amplificadores. Entretanto já havia planos para o desenvolvimento de um novo instrumento que pretendia ser totalmente revolucionário. Estamos no ano de 1975, em plena era da captação ativa, e os baixistas ainda estão se “recuperando” do susto no mundo dos graves que a poderosa Alembic fez ao criar seus baixos de captação ativa.

Ativa ou passiva?

Depois do assombro inicial, começaram os experimentos com o novo modelo usando o sistema ativo. Sidemen, músicos de estúdio e baixistas virtuosos começaram a comprar o novo Alembic para conferir as inovações criadas por Ron Wickersham. Como diz o ditado, as moedas têm duas faces. Sobraram elogios, mas também não faltaram críticas. A principal delas é que o sistema ativo resultava em uma sonoridade limpa demais, etérea, sem algo mais “orgânico” – ruídos provenientes do sistema passivo que proporcionam uma característica de timbre com ênfase nos médios com poucos agudos, usados no blues e no rock. Mais tarde a história demonstraria que esta sonoridade seria muito interessante para ser usada em outras técnicas como slap ou two hand tapping.

Detalhes da ponte e sistema de captação.

“Eu já tinha uma arquitetura montada para este projeto e a primeira coisa que eu pensei foi no headstock, pois acredite, é uma das primeiras coisas que o músico observa”, disse o inventor em uma entrevista concedida quando do lançamento do novo instrumento. A configuração 3X1, que foi sugerida por White, um dos executivos da empresa, possuía três tarraxas em cima e uma embaixo, o que lhe pareceu uma ideia revolucionária. Além disto, foi desenvolvido um novo captador – de oito polos, sendo dois para cada corda, além de uma nova ponte.

Porém, a maior novidade estava reservada para os circuitos. Fender, que não era muito fã de tecnologias inovadoras, insistiu que o instrumento deveria ter um sistema passivo, a exemplo do Jazz Bass. Visando manter a tradição que o inventor tanto insistia (e muitos músicos também), a empresa – sem tirar a sua visão do futuro – concebeu um instrumento passivo em sua concepção de captação, mas com todos os seus circuitos ativos.

Surge o Music Man Stingray

Assim, em 1976, surgiu o Music Man Stingray, com a configuração do headstock em 3X1, circuito ativo, além de pontes e captadores inovadores. Após experimentarem, a grande maioria dos músicos conseguiu definir em apenas duas palavras: personalizado e agressivo. Ele era ideal para o contexto de músicas da época, como os Brothers Johnson, que teve em Louis Johnson um dos maiores entusiastas do novo modelo. O corpo foi construído em Alder, o braço e a escala em Maple e algumas em Rosewood. É claro que o Stingray foi um sucesso de vendas, sendo que os baixistas se entusiasmaram principalmente pela ergonomia do novo modelo que era ideal para a técnica de slap, por causa do espaço existente entre o final da escala e o captador.

Agressividade

Em 1984, a Music Man foi vendida para Ernie Ball, um empreendedor da Califórnia que aprendeu a tocar guitarra havaiana com seu pai, sendo pioneiro, inclusive, por montar uma das primeiras lojas de guitarras nos Estados Unidos. Esta pequena empresa, no entanto, era também especialista na fabricação de cordas feita sob encomenda para diversos artistas, entre eles, os Ventures. No começo dos anos 70, o jovem Ernie decidiu que precisava construir um contrabaixo acústico. Para isto, comprou um guitarrón mexicano, acrescentou trastes e reconfigurou o headstock. Em 1972, foi criada a Earthwood Bass. Foi o primeiro e único instrumento concebido por esta empresa. O problema era o mesmo que atormenta o velho gigante: ele era grande demais.

Nova gestão

Herdando a empresa do pai, o jovem Ernie adquiriu a Music Man para expandir seus negócios. Sob a gestão Ball, foi concebido o Sabre, com dois sistemas de captadores, mas que nunca foi um grande sucesso de vendas. No entanto, novas tecnologias foram criadas, como o corte de madeiras já com a utilização do grafite – um mineral concebido pela empresa Modulus Enterprise, a mesma que ajudou a desenvolver a tecnologia dos satélites Voyager I e II -, concedendo ao Sabre uma estabilidade ergonômica jamais vista em outros modelos de baixo elétrico, superando inclusive os poderosos Alembic.

Music Man Sterling HH 5 cordas.

A versão de cinco cordas do Stingray foi lançada em 1987 e a linha Sterling (nome de um dos filhos de Ernie) foi criada a partir de 1993. Uma versão otimizada do Bass VI foi reintroduzida no mercado com o Silhouette six strings, afinada uma oitava abaixo da guitarra elétrica. Os novos modelos incluíam o S.U.B (Sport Utility Bass) – com o pickguard fabricado do mesmo material utilizado no piso do metro de Nova York – e o Bongo, um das últimas inovações da Music Man.
O curioso é que, em plena época das mudanças tecnológicas, o Stingray surgiu para resgatar o “glamour” do passado, com o acréscimo de inovações futurísticas em seu hardware. Uma doce ironia que transformou o notável instrumento em uma mais poderosas máquinas de grave do mundo!
Escrito por Nilton Wood, da redação TDM.

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