A História do Contrabaixo – Parte XIX


Fender Bass VI 1961. Headstock lembra guitarras Jaguar e Jazzmaster (reprodução)

Fender Bass VI 1961. Headstock lembra guitarras Jaguar e Jazzmaster (reprodução)

Em 1963, a Fender criou o Bass VI em resposta a criação do Danelectro Long Horn Bass 6, o primeiro baixo elétrico de seis cordas fabricado pela Empresa. Uma idéia genial no tempo errado.

Ao contrário do que todos vocês possam imaginar, o baixo de seis cordas surgiu antes do instrumento de cinco cordas. Uma das primeiras aparições ocorreu no filme “Let It Be”, dos Beatles, rodado durante as gravações do álbum com o mesmo nome, em 1969. A novidade estava na música produzida pelo grupo em algumas canções que pareciam ter a sonoridade harmônica mais encorpada com sons mais graves.

Alguns observadores atentos notaram que George Harrison parecia tocar uma guitarra, mas com uma diferença que chamou a atenção: as notas eram executadas uma de cada vez, ao contrário da guitarra elétrica. O mistério estava resolvido: George estava executando um instrumento de seis cordas denominado Fender Bass VI, que surgiu logo após a triunfal estréia do Jazz Bass.

Mas assim, de repente? Claro que não! Os historiadores descobriram algo digno de suspenses e intrigas até surgir o primeiro modelo da Fender.

Danelectro X Fender

Nos anos 50, as primeiras guitarras elétricas da Fender, de alguma forma, foram “copiadas”. Um detalhe no corpo, um formato no braço, enfim, sempre existia algo que algum concorrente já tinha inserido em sua arquitetura.

A Danelectro (já mencionada em nossa coluna) sempre foi pioneira em inovar em seus modelos, transformando-se em um dos maiores desafios da Fender naquela época. Numa das feiras musicais realizadas no ano de 1950, algo inusitado aconteceu: no estande da Danelectro foram posicionadas uma guitarra com sua marca e uma Fender Stratocaster (uma ao lado da outra).

Ambas plugadas, respectivamente, em amplificadores distintos com o volume perto do limite. Tudo isto serviria para constatar algo já conhecido pelos músicos e fabricantes, principalmente da Fender que foi a vítima: o ruído gerado pela Stratocaster era insuportável perto do silêncio sepulcral do instrumento da Danelectro. Isto ocorria porque este modelo era totalmente blindado com uma folha de alumínio, que não permitia a emissão de ruídos.

A resposta técnica da Fender

Segunda versão do Fender VI. Sem protetores de captador e 4 chaves seletoras (reprodução)Dizem os historiadores que Leo Fender já tinha sido avisado muitas vezes sobre este problema técnico com as primeiras Stratocaster, mas como todos nós sabemos, o lendário inventor era conhecido por transferir alguns problemas oriundos das próprias falhas de fabricação de algumas linhas de instrumento a “intrigas de concorrentes”, “inveja” ou desculpas semelhantes.

Mesmo assim, ao saber do ocorrido da Danelectro, o inventor ficou muito irritado. Foi a partir disso que resolveu inserir o alumínio na fabricação dos pick guards em algumas Stratos. O resultado não foi o esperado, pois este tipo de material deixava as mãos dos guitarristas doloridas por causa da dificuldade de deslizamento (o material anodizado segurava o movimento durante a execução).

Após estudos, uma outra alternativa surgiu com a colocação de uma chapa feita do mesmo material embaixo do pick guard (que voltou a ser fabricado em plástico). A idéia resolveu grande parte do grau de tocabilidade do instrumento, mas o ruído, embora menos intenso, continuava lá.

Sabemos que, tanto nas guitarras como nos baixos elétricos, este ruído era provocado pela estática que fazia o instrumento ao interagir com o ambiente. Sendo assim, sua supressão quase absoluta seria possível somente numa ambiência controlada, como nos estúdios de gravação.

Danelectro Long Horn 6 e a criação do Fender Jazz VI

Danelectro Longhorn Bass6. O original dos anos 60 e cópia recente (reprodução)

Durante o ano de 1962, a Danelectro lançou seu baixo de seis cordas, considerado o primeiro baixo elétrico de seis cordas da história, o Long Horn, que era muito usado pelos músicos de country music, principalmente em Nashville.

Ao tomar conhecimento deste novo fato realizado pela concorrente, imediatamente o velho inventor lembrou-se do ocorrido durante a feira em 1950 com sua Stratocaster. Assim, em 1963 foi criado o Fender Bass VI. A afinação obedecia ao mesmo referencial usado na guitarra elétrica – E B G D A E – porém uma oitava abaixo. A escala tinha 30’ – menor que os 34’ usados nos contrabaixos elétricos tradicionais.

A primeira versão do Bass VI possuía o braço em rosewood, com 21 trastes e 10 marcadores de posição (dot position markers). O corpo era feito em Alder, baseado no molde utilizado na concepção da guitarra Fender Jaguar (recém-introduzida pela Fender), três picks single coils, um sistema de abafador (uma volta ao passado?), três switches (chaves seletoras) para ligar e desligar cada sistema de captação e uma alavanca de trêmulo. Era muito inusitado e maravilhoso para a história dos graves! Este notável mecanismo permitia que o baixista executasse acordes, a exemplo de uma guitarra com alavanca.

Esta primeira versão foi fabricada apenas durante um ano. Em 1964, a Fender lançou a segunda versão do modelo, com uma quarta chave seletora, que era um atenuador de graves. Algumas versões possuíam o braço em maple. Em 1969 as tarraxas Kluson foram substituídas pelos modelos fabricados pela própria Fender.

Outro mecanismo inovador acompanhou a segunda versão do Bass VI. Trata-se do “Treem Lock System”, que permitia que as cordas permanecessem afinadas. Este mecanismo também tinha sido lançado na mesma época para equipar as novas guitarras Jaguar. Um dos mais notáveis músicos a utilizar o instrumento foi Jack Bruce, durante a época do Cream. A produção foi interrompida em 1975 pelas poucas vendas realizadas devido ao seu alto custo.

Uma inovação muito cara

Os registros históricos apontam que o Bass VI foi, sem sombra de dúvida, uma revolução silenciosa no mundo dos graves. Muitos guitarristas de estúdio, inclusive George Harrison, utilizaram o lendário instrumento parar fornecer mais peso nos graves para algumas músicas compostas naquela época.

Então, porque este instrumento não teve sua produção continuada? Apesar dos avanços tecnológicos trazidos pelo Bass VI, um dos fatores para a falta de sucesso foi o preço. Enquanto que um Danelectro de seis cordas era vendido por US$ 120,00, o Fender VI custava US$ 330,00, ou seja, quase o triplo do concorrente. Naquele tempo, nos primórdios da evolução dos graves, era um preço demasiado alto a pagar por um instrumento híbrido, de aplicações alternativas e de difícil execução (trastejamento dos trastes, ruídos e sérios problemas de entonação).

Uma idéia genial no tempo errado

Jack Bruce com o Fender Bass VI (Reprodução / Jan Persson)

Com raras exceções, como Jack Bruce, o instrumento nunca foi compreendido pelos músicos daquela época. Não se esqueçam de que estávamos em plena era Jazz Bass. O mundo dos graves estava deslumbrado com o novo modelo de baixo elétrico da Fender. Talvez o revolucionário instrumento tenha sido lançado em um momento errado na história, onde, naquele exato período, somente o Jazz Bass tinha seu espaço plenamente garantido.

E se Leo Fender tivesse lançado este modelo alguns anos depois ao invés de sucumbir ao sentimento motivado pela disputa comercial com a Danelectro? Talvez, por este motivo, muitos baixistas nunca chegaram sequer a ver um instrumento destes. Uma idéia genial que poderia ter dado certo talvez alguns anos no futuro. Um dos paradoxos da história do mundo dos graves.

Escrito por Nilton Wood, da redação TDM.

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