A história do contrabaixo – Parte XVIII


A história do contrabaixo - Parte 18“E se alterarmos o sistema de captação”? Com esta idéia, Ron Wickersham, um dos fundadores da Alembic Project, entrou para a história como o inventor da captação ativa. Nossa equação temporal sobre a história da segunda revolução estava resolvida.

Como vimos anteriormente, a banda Grateful Dead possuía, além de muitos fãs, um restrito grupo de amigos que os ajudavam em várias atividades no grupo. Entre eles, se destacava a figura de August Stanley Owsley – o “Bear” – que era um dos associados que realizava a produção do Dead. Ele conhecia um jovem engenheiro de som chamado Ron Wickersham, que igualmente vinha atuando com outros grupos em Los Angeles para gravações e mixagens.

Entusiasmado com idéia de mudar o sinal do contrabaixo para um novo patamar, Ron chamou o luthier Rick Turner e o engenheiro de gravação Bob Mattews para auxiliá-lo. Estava criada a Alembic Project.

 

Alembic – pureza sonora

A primeira providência, visando uma substancial melhoria na textura musical do Dead, foi melhorar as condições técnicas de palco com novos cabos, conexões, microfones, sistemas de PA e amplificadores, além de um novo tratamento acústico. Nas gravações de estúdio, foram providenciadas modernas estruturas acústicas e uma novíssima mesa Ampex MM-100 de 16 canais (um equipamento “state of the art” na época). Este equipamento era um dos projetos sob a responsabilidade de Ron que fazia parte dos engenheiros da Pacific Studio (desenvolvedores de novos equipamentos para gravações).

Os resultados surpreenderam não somente o público como também outros grupos, como o Jefferson Airplane e Crosby, Stills, Nash & Young, que igualmente contrataram a Alembic para assessorá-los em busca de melhor qualidade sonora. No entanto, apesar das evidentes melhorias, o inquieto Wickersham ainda não estava satisfeito.

 

A primeira captação ativa

O problema era o sinal gerado pelo sistema de captação passiva que existia em todos os instrumentos na época. Basicamente um sistema passivo compreende uma peça composta por um ímã (que contém propriedades magnéticas) revestido por alnico (abreviaturas para alumínio, níquel e cobre). A peça “capta” a vibração das cordas por meio de um sistema elétrico e envia o sinal para o amplificador.

A história do contrabaixo - Parte 18No baixo elétrico, apesar dos muitos avanços conquistados, a resultante sonora de um sistema passivo era um som encorpado, com peso nos graves, médios acentuados e ainda uma pouca definição para os agudos. Além destas falhas, o que mais irritava o jovem engenheiro era um pequeno ruído, constante e infernal (segundo suas palavras em diversas entrevistas) proveniente do próprio sistema passivo, que atuava como um fio terra, captando todas as correntes elétricas provenientes do ambiente.

Naquele tempo, este ruído era totalmente eliminado sob condições controladas, como nos estúdios. Ao vivo, no entanto, tudo que se restava a fazer era tapar os ouvidos e se acalmar.

 

As primeiras experiências

Mas tudo isto iria mudar em uma noite do ano de 1969, em uma das reuniões semanais do pessoal da Alembic. Em uma entrevista concedida a Tony Bacon (um dos autores do livro The Bass Book), o próprio engenheiro conta: “O tema central das discussões entre eu, Rick, Bob, Bear e os músicos do Dead era como melhorar ainda mais a qualidade do som da banda. Entre muitas idéias me ocorreu algo. Mandei todos ficarem quietos para eu ter a total atenção de todos e sugeri, entusiasmado, que poderíamos alterar o sistema de captação dos instrumentos. O sistema passivo gerava muitos ruídos. E se criarmos um novo captador que, além de silencioso, possa gerar um som mais puro? Todos ficaram me olhando, pensativos, quando Rick Tuner disse que poderia ser uma boa idéia. Talvez precisássemos fazer algumas alterações nos instrumentos, mas poderia dar certo!”

Os baixos Guild Starfire de Phill Lesh e Jack Casady foram os alvos dos primeiros experimentos técnicos. Os músicos orientavam o pessoal da Alembic quais características sonoras o novo captador deveria possuir. Após pesquisar os sistemas passivos tradicionais, Ron decidiu que a idéia básica seria melhorar ou “ativar” alguns circuitos já existentes.

O primeiro resultado aconteceu no baixo de Casady. Um novo captador foi instalado, além de uma placa de circuito para controle do sinal que continha 10 knobs. Este baixo foi rebatizado com o nome de “Mission Control” pelo elevado número de knobs e chaves que precisou ser instalado. Ron se lembra de quando Jack viu o instrumento pronto, ele perguntou se precisava de todos aqueles controles. Eu disse que, por enquanto, sim! Basicamente, Ron instalou novos circuitos que controlavam o nível de saída e timbragem do Guild, além de um redutor de ruídos no sistema passivo.

 

Um novo instrumento

É claro que o próximo passo seria construir um instrumento novo, no qual esta nova tecnologia pudesse ser usada. As pesquisas de Turner e Mattews concluíram que as cordas deveriam ser isoladas do corpo do baixo, por produzirem uma vibração que acabavam refletindo no som.

Assim, na ponte foram colocadas massas isolantes visando separar as vibrações das cordas. O material do capotraste foi substituído por uma liga de metal para melhor acomodação das cordas. Os captadores de imã foram substituídos por placas de cerâmica ligadas por um sistema de baterias, que, ao invés de captar, “ativava” o sinal em direção as cordas. Na concepção de Turner, o braço deveria ser integral (uma peça única na qual o corpo seria colado em cada parte da madeira), tentando assim, obter uma melhor qualidade de sustain e timbragem.

 

Alembic #001

Em 1971 nasceu, para a alegria do mundo dos graves, o Alembic #001, uma revolucionária máquina de graves que foi dada de presente para Jack Casady, do Jefferson Airplane. Sem sombra de dúvidas, uma obra de arte que, na opinião de músicos e historiadores, teve tanta importância quanto a criação do primeiro baixo elétrico da história, o Precision Bass em 1951.

A história do contrabaixo - Parte 18O uso de sofisticados circuitos ativos, madeiras exóticas construídas em forma de lâmina, o braço integral e o acabamento perfeito, faziam do lendário #001 uma peça única. Infelizmente, durante uma das apresentações do Airplane, Casady, acidentalmente, o deixou cair no chão. Apesar dos esforços, seu sistema de captação ativa ficou arruinado.

A influência de Casady e Lesh no cenário musical americano foi imediata. Todos literalmente ficavam boquiabertos com a sonoridade do novo instrumento.

Em 1972, entre os fãs da Alembic, estava um jovem baixista em início de carreira, que fazia parte de uma ainda desconhecida banda chamava Return to Forever. Ele mesmo: Stanley Clarke. Ao saber do interesse do jovem músico pelo instrumento, a Alembic o presenteou com um novo modelo de baixo. A partir de 1976, a Alembic se transformou em uma pequena, mas poderosa empresa, difundindo seus poderosos instrumentos por todo o planeta.

 

O fim da segunda revolução

Ao final da segunda revolução, fico pensando nas três vertentes que a fizeram acontecer. A primeira foi a invenção das cordas Rotosound por James How. A segunda, a concepção dos poderosos Ampeg’s, Hiwatt e outras máquinas que mudaram o rumo da sonoridade dos graves. A terceira culminou com Casady, Lesh e a equipe capitaneada por Ron Wickersham. A partir do sistema ativo, foi possível conceber baixos com cinco, seis, sete e até instrumentos com 12 ou 14 cordas, expandindo, de forma avassaladora o mundo dos graves. Um triunvirato que, definitivamente, redesenhou a história do baixo elétrico no planeta Terra.

 

Fonte: Escrito por Nilton Wood, da redação TDM. Nilton Wood, professor de baixo elétrico da EM&T, conta a história do instrumento musical desde os seus primórdios.

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