A história do contrabaixo – Parte XVII


A história do contrabaixo - Parte 17Novas cordas, instrumentos melhorados e amplificadores mais modernos. Tudo parecia seguir seu curso natural de evolução quando dois inventivos baixistas e um técnico em eletrônica visionários apontaram novos caminhos, mudando mais uma vez os rumos da história. A segunda revolução ainda não havia terminado.

Alguns lugares do mundo, por uma incrível coincidência, são palcos de acontecimentos que têm o poder de mudar o rumo da história. No universo das quatro cordas, um destes lugares foi São Francisco, na Califórnia (EUA), que serviu de cenário para um dos mais notáveis experimentos da história da música.

Algo que alterou toda a concepção de sonoridade que existia até então: o surgimento da captação ativa. Mas afinal de contas, o que é captação ativa? Calma pessoal, vamos explicar como tudo começou.

 

Jack Casady – O pioneiro da pureza sonora

Nosso primeiro personagem é o baixista de uma das mais lendárias bandas da história do rock: Jack Casady, integrante do Jefferson Airplane.

Desde os oitos anos de idade ele esteve envolvido com música. Iniciou seus estudos aos 12 anos com a velha guitarra do pai. Aos 16, finalmente ganhou seu primeiro baixo: um Fender Jazz Bass 61.

“Minha carreira começou quando um baixista chamado Danny Gatton veio tocar perto da minha cidade (Washington). Ele ficou doente antes do concerto e me chamaram. Basicamente, comecei tocando R&B com diferentes bandas”, conta o músico.

Casady sempre procurou explorar novas sonoridades em seu instrumento, sendo admirador inclusive de músicas executadas no violoncelo – especialmente de Prokofiev, compositor russo, que desenvolvia linhas independentes da melodia; “Quando me juntei ao Airplane em 1965 a convite do guitarrista Jorna Kaukonen, comecei a tocar composições próprias, mantendo meu estilo, ou seja, compor linhas de baixo diferenciadas, principalmente no aperfeiçoamento de novos estilos melódicos”.

Desde cedo, o baixista desenvolveu um apurado senso de percepção com relação a novos timbres. Sua primeira inspiração foi seu pai, que eventualmente manuseava equipamentos eletro-eletrônicos como hobby: “Quando comecei a estudar guitarra, ele me construiu um amplificador com cabeçote separado, plugado num gabinete com falante Jensen de 8. Foi ele também quem me ensinou que, se você não está satisfeito, deve inventar algo melhor”.

O equipamento de Casady no Jefferson Airplane consistia em dois gabinetes Fender Showman com dois falantes de 15 e quatro cabeçotes ligados em série. Na época, isto era um avanço notável, pois poderia se manusear a sonoridade do instrumento sem fornecer instruções aos técnicos da mesa de som.

A história do contrabaixo - Parte 17Ele usou primeiramente um Fender Jazz Bass, passando depois a utilizar um Guild Starfire Bass: “Notei que o Jazz Bass tinha um som muito limpo, quase sem distorções. No Guild, entretanto, eu conseguia obter interessantes timbres, quando executava acordes com o uso de um Overdrive, além de melhores sustains”.

O resultado surpreendeu a muitos que assistiam ao Airplane: um som limpo e cristalino no baixo, com peso nos graves, médios com presença e agudos sem distorções.

As composições de Casady envolviam o uso de longas frases intercaladas com a melodia do tema envolvendo ainda o uso de acordes (coisa pouco usual para época). Confira a sonoridade de Casady em obras como “Jefferson Airplane Takes Off”, “Surrealist Pillow”, “Crown of Creation” e “Bless Its Pointed Little Head”.

 

Versatone: distorções suaves

Uma das experiências mais interessantes que Casady realizou foi em 1969, quando incluiu em seu set um amplificador Versatone, concebido originalmente para amplificar o sinal do contrabaixo acústico: “Na verdade, eu usava o Versatone como um pré-amplificador. Naquela época, nós possuíamos máquinas valvuladas para serem utilizadas em frequências graves ou agudas. No entanto, existia um limitador: este recurso só era utilizado com timbres destinados a apenas um falante”.

As freqüências podiam ser controladas por um recurso chamado pan-o-flex knob. Isto permitia que, quando o volume era aumentado, ocorresse uma suave distorção, resultante do excesso do sinal de saída. Este interessante recurso foi muito usado pelo baixista no Airplane.

 

Grateful Dead

Enquanto Casady conduzia suas pesquisas, outro grupo de São Francisco também iniciou um trabalho visando alterar a sonoridade de sua textura. Formado no ano de 1965, o Grateful Dead imediatamente tornou-se um celeiro para novos experimentos sonoros. Sua música possuía elementos que abrangiam desde o folk até o rock psicodélico típico dos anos 60, ou seja, intermináveis jams eram executadas pelos integrantes da banda, inspirados, entre outros compositores, no free jazz de John Coltrane e Ornette Coleman.

E agora, entra em cena o nosso segundo personagem: Phil Lesh, um trompetista que já tinha estudado composição para atuar em peças de música de concerto. No entanto, os sons graves o fizeram mudar de instrumento. Seria óbvio pressupor que, um músico com este nível de conhecimento, desenvolveria um estilo próprio.

Suas linhas de baixo caracterizavam-se por longas conduções, com introdução de contra melodias, acordes e até o uso de harmônicos, tornando o som do Grateful Dead uma interessante mistura de elementos, resultante, em parte, da forma estrutural e composicional de Lesh.

O baixista também era obcecado pela pesquisa sonora. “Queria procurar novos timbres para meu baixo”, diria, mais tarde, em uma entrevista abrangendo a sua biografia para o editor sênior Chris Jisi, da Bass Player. “Queria obter um espectro maior de opções entre o grave e o agudo”.

 

Alembic Project

Vamos agora para outro local em São Francisco conhecer um cara chamado Augustus Stanley Owsley, o “Bear”. Além de consultor em eletrônica no Dead, Stan era conhecido como o melhor fabricante de LSD (a droga só passou a ser ilegal nos EUA em outubro de 1968) da cidade.

A história do contrabaixo - Parte 17Entre os muitos consumidores da droga na cidade, estava o pessoal da banda. Com o sucesso crescente do grupo, grande parte dos amigos, roadies e freaks tornaram-se fãs do Dead. A exemplo de Owsley, outras pessoas que frequentavam aquele círculo de amizades também possuíam conhecimentos de eletrônica e sistemas de P.A. (plano de amplificação). Desta forma, além de admiradores, todo este séquito de pessoas, não só curtia os shows, mas ajudava o grupo em suas gigs e gravações.

Ouvindo as idéias de Lesh e outros músicos, algumas destas pessoas resolveram formar a Alembic Project – nome derivado de um aparato usado por destiladores de bebida para refinar e separar alguns elementos que fazem parte da fabricação do produto.

As primeiras idéias giravam em torno de obterem uma sonoridade mais limpa e definida para o som da banda, não apenas para apresentações, como também para sessões de gravações. Nosso terceiro – e mais importante personagem fazia parte daquela turma toda que seguiu o Grateful Dead. Seu nome: Ron Wickersham. Mas isto eu conto no próximo capítulo…

 

Legendas das figuras

Figura 1 – Em 1967, a Guild Company lançou o Starfire Bass I, que Casady tornou conhecido no Grateful Dead.

Figura 2 – O Airplane em 1966: Da esquerda para a direita: Jack Casady, Marty Balin, Signe Anderson, Paul Kantner, Jorma Kaukonen e Spencer Dryden.

Figura 3 – O Versatone (atrás de Jack no palco, marcado com um círculo). Desde 1969 ao lado do baixista ajudando a definir o som do Dead.

 

Fonte: Escrito por Nilton Wood, da redação TDM. Nilton Wood, professor de baixo elétrico da EM&T, conta a história do instrumento musical desde os seus primórdios.

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