Morre Mario Reis, o inventor do jeito brasileiro de cantar


Musica perde Mario Reis

Fui louco

Resolvi tomar juízo

A idade vem chegando

e é preciso

Se eu choro

Meu sentimento é profundo

Ter perdido a mocidade na orgia

Maior desgosto do mundo!

 

Neste mundo ingrato e cruel, eu já desempenhei o meu papel

E da orgia então, consegui minha demissão…

Mário Reis

Mário Reis, 73 anos, morreu as 6h45 da manhã, na Clínica Bambina, Rio de Janeiro, de insuficiência renal aguda. O cantor estava internado desde o dia 9 de setembro, quando foi diagnosticado um aneurisma da aorta abdominal. Submetido a duas intervenções, não conseguiu reestabelecer-se. O corpo foi velado na capela 1 do Cemitério São João Batista na presença de poucos parentes e amigos mais próximos da família.

Ao se apresentar pela última vez em público – numa noite beneficente no Copacabana Palace, em 1973 – Mário Reis fez questão de dar a tudo um caráter de despedida. Cantou Fui Louco, acenou para o público com o lenço branco, tomou nas mãos uma das centenas de rosas que lhe atiravam numa emocionante homenagem e, em seguida, em silêncio, saiu de cena para sempre.

Depois dessa noite, quem quiser me ouvir cantando terá de tirar os velhos discos do baú

E assim foi. Nos últimos anos, recusando-se a aparecer em público, a gravar novos discos, a dar entrevistas e a ser fotografado, isolou-se de tudo. Quando muito podia ser visto no Country Club, ou contactado por telefone no apartamento anexo do Copacabana Palace, seu refúgio a partir de 1957. Extremamente vaidoso, Mário Reis, segundo os amigos mais chegados, parecia querer deixar gravada na memória das pessoas a figura jovem, sorridente, elegante, dos anos em que fora, como cantor, um personagem ímpar no cenário da música popular brasileira.

Uma lição que os candidatos a cantor, até então, inspirados no modelo de Vicente Celestino, começaram a aprender com Mário Reis: “Por que gritar, se falar é muito melhor?” Todo o segredo do estilo de Mário Reis está justamente nesta sua máxima de que o importante, na interpretação de um samba ou de uma marcha, estava no falar, na maneira de dizer, a voz saindo naturalmente, as notas breves emitidas no momento certo, ritmadas, entre pausas que seriam a sua marca e um divisor de águas.

Influência, inspiração ou coincidência, João Gilberto é um músico com uma atitude artística muito próxima da performance evolutiva de Mário.”Sentia que aquele prolongamento de som que os cantores davam prejudicava o balanço natural da música. Encurtando o som das frases, a letra cabia dentro dos compassos e ficava flutuando. Eu podia mexer com toda a estrutura da música sem precisar alterar nada… Acho que as palavras devem ser pronunciadas da forma mais natural possível, como se estivesse conversando. Qualquer mudança acaba alterando o que o letrista quis dizer com seu verso“. Essas básicas noções do canto joãogilbertiano poderiam ter sido assinadas por Mário Reis, embora este duvidasse ter influenciado o inventor da Bossa Nova.

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