O cinema francês perde Simone Signoret


Simone Signoret Reprodução

O segredo da felicidade no amor não é ser cego, mas saber fechar os olhos quando necessário

Simone Signoret

O cinema francês perdeu Simone Signoret, 64 anos, que viveu seus últimos dias com ar de leoa cansada, doente, até ser derrotada por um câncer contra o qual lutou até o fim. Em seu último trabalho para o cinema, L´Etoile du Nord, rodado em 1981, já tinha perdido 15 quilos, mas sua força e vitalidade continuavam intocadas.

Falar de Simone Signoret é falar de Yves Montand, com quem vivieu uma paixão de 36 anos. É falar de uma mulher que participou ativamente da vida política de seu país e do mundo. É falar de uma grande atriz que nunca quis ser estrela, mantendo ferozmente a individualidade, a vida à margem da ficção das telas. É, ainda, lembrar a escritora que, nascida tardia no livro de memórias La Nostalgie N´est Pas Ce Qu´elle Étail, terminaria por cristalizar-se em seu único romance: Adeus Volodia, escrito já no outono de uma vida bela e plena.

Nascida Simmone Henriette Charlotte Kaminker a 25 de março de 1921, em Wiesbaden, na Renânia alemã, então ocupada pelos franceses, era filha de um judeu que servia no Exército da ocupação. Ainda menina, já sonhava com o teatro e o cinema, mas tem os sonhos truncados pela guerra. Com a invasão alemã em 1940, perde a companhia do pai, que foge para Londres e, meio judia, passa a viver sozinha em Paris. Nessa época, ingressa na carreira artística e faz amizades com diversos intelectuais, entre eles, Jacques Prevet ePablo Picasso, tempos que chamaria mais tarde de anos de aprendizado.

Depois da guerra e de um breve casamento, vem o amor. Em 1949, encontra Yves Montand em Saint-Paul-de-Vence. A paixão é definitiva. Desde o começo, é uma relação única. Ela o acompanha em seu engajamento ideológico de esquerda e nas lutas pelos direitos do homem. Cada um faz sua carreira, Yves como cantor e ator de primeira grandeza e Simone como atriz completa, uma atriz que desabrocharia definitivamente bela – atrozmente bela – como uma mulher da Paris de 1900.

Seguem-se papéis memoráveis em Theresa Raquim, de Marcel Carne, As Diabólicas, de Clusot, As Feiticeiras de Salem, com a qual estréia no teatro ao lado de Montand. Depois de filmar Les Chemins de la Haute Ville, de Jack Clayton, na Inglaterra, ganha o prêmio de melhor atriz em Cannes em 59 e o Oscar de melhor interpretação feminina no ano seguinte em Almas em Leilão.

Mas, mesmo no auge da carreira, não perde a perspectiva política que deu à sua vida. Comunista militante, junto com Montand até 1956, quando os russos esmagam a insurreição húngara, visita o Kremlin e diz na cara de Krutchev o que pensa. Abandona o partido, mas não a causa política. Com mais 12 intelectuais assina um manifesto de apoio aos argelinos revoltados contra o domínio colonial francês. Direito à Insubmissão, intitula-se o panfleto, e por dois anos ela não volta a Paris. Com Sarte e Foucault, protesta contra a Guerra do Vietnam e depois em favor dos boat people refugiados daquele país. Denuncia as ditaduras e as torturas no Chile e na Argentina e apóia a Solidariedade na Polônia. Endossa o SOS Racismo, movimento para protestar contra o chauvinismo de alguns franceses de direita face a africanos e árabes que vivem na França.

Sua carreira abrange mais de 50 filmes, desde superproduções até filmes políticos. Os anos e a doença pesam., mas sua natureza radiante não faz disso uma tragédia: “A velhice é algo a que nos acostumamos. Quando fiz 40 anos, achei que estava doente. Depois, se há felicidade, leva-se na brincadeira“.

Corajosa, lúcida, foi grande até o final. Até as 7h30 da manhã do início de um outono francês, quando seus olhos se apagaram. Mas sua luz, a luz de alguém que olhou a vida corajosamente de frente em todos os momentos, a luz dessa mulher de todos os combates, que amou e foi amada por seu público, brilhará para sempre.

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