A história do contrabaixo – Parte XV


A História do Contrabaixo - Parte 15“Mas isto é um baixo?”, Eu, você e milhões de baixistas do planeta devem ter feito estas mesmas pergunta ao ouvir, pela primeira vez, o baixista Chris e sua poderosa sonoridade do Rickenbacker 4001S em “Roundabout”, do álbum Fragile, do Yes. A segunda revolução tinha seu início.

Sempre fui um apaixonado por ficção científica, principalmente por viagens no tempo. Máquinas que podem nos levar ao passado não precisam ser necessariamente construídas com o uso de tecnologias avançadas. Basta, por exemplo, abrirmos um livro ou assistirmos a algum documentário na televisão ou cinema para nos transportamos para qualquer lugar ou época no tempo. Apertem os cintos! Vamos viajar para Londres, precisamente no ano de 1967.

 

Conhecendo o jovem Chris

Estamos caminhando pelas alamedas do bairro de Wembley/Kingsbury, ao norte de Londres. Queríamos saber o endereço de alguém que viemos visitar. Como não tínhamos o número da casa, o jeito foi ficar com os ouvidos “ligados” no som da vizinhança em algo que soasse como os graves de um contrabaixo elétrico.

Alguns momentos depois, começamos a ouvir algo parecido que parecia vir de um baixo… Mas era com um timbre diferente, mais agudo, porém sem perder as características do som grave. Quem poderia estar tocando? Após localizarmos a casa, tocamos a campanha e um cara alto e magro atendeu a porta para nos receber. Dizemos então: “Olá Chris, somos viajantes do tempo, mais precisamente do futuro, e voltamos ao passado para poder conhecê-lo”! Com um leve sorriso, o jovem baixista se apresenta e diz: “Viagem no tempo? Que legal! Muito prazer! Meu nome é Christopher Russel Edward Squire, mas podem me chamar de Chris. Não querem entrar”?

 

Para um futuro próximo

Dissemos que também éramos baixistas. Ouvindo isto, o jovem Chris nos convida para ir até o seu quarto para mostrar o seu novo instrumento: um Rickenbacker 4001 que ele tinha acabado de ganhar dos seus pais. “Estou estudando este instrumento há quase um ano, mas só agora consegui obter a sonoridade que eu queria”. Perguntamos ao lendário baixista o que ele estava ouvindo no momento: “Adoro o som do Paul McCartney e John Entwistle sabe? Mas eu acho que a sonoridade do instrumento é muito igual. Foi quando eu li em algumas propagandas que o baixista do Who estava estudando um novo tipo de cordas de uma nova empresa chamada Rotosound. Foi quando resolvi experimentar no meu Backer! Vocês acharam o som legal”? Respondemos apenas que não apenas nós, mas, que em um futuro não muito distante, todos os baixistas do planeta iriam amar aquele novo timbre! Claro que ele não entendeu muito o que estávamos dizendo… Assim, depois desta cordial e esclarecedora visita, nos despedimos e voltamos ao nosso tempo!

O que Chris disse sobre as cordas faz parte de uma entrevista concedida ao editor sênior da revista Bass Player Chris Jisi, realizada alguns anos atrás. A história do seu primeiro baixo, o experimento com as cordas, tudo isto ele contou ao editor da BP. Isto demonstra que, mais uma vez, os grandes acontecimentos da história começam assim. Muitas vezes em uma garagem ou em um quarto de algum garoto genial. Steve Jobs e Bill Gates que ao digam.

 

Descobrindo os novos timbres

Mas vamos entender melhor tudo isto. Claro que um instrumento de qualidade é fundamental para definir o que seria uma boa sonoridade. Mas convenhamos: sem a invenção das cordas, não existiriam sons em muitos instrumentos. Em um determinado ponto de sua entrevista, Chris Squire menciona que ele achava que a sonoridades dos instrumentos era muito parecida. Daí seu trabalho de pesquisa em arquitetar novos timbres. O tempo que o baixista levava para equalizar o som dos Rickenbacker nos estúdios era lendário. Em “Close to the Edge”, por exemplo, foram gastos cinco dias!

 

Tripas de carneiro

Mas as cordas são tão importantes assim? Afinal, como elas apareceram? Não existem muitas informações precisas que possam nos ajudar a entender como as primeiras cordas surgiram. Possivelmente foram fabricadas a partir de algum material orgânico como crina de cavalo ou seda, por exemplo.

De acordo com os historiadores, a produção destes artefatos começou a sofrer mudanças na idade média, onde possivelmente algumas pessoas, com um sentido de observação fora do comum, devem ter percebido que, por exemplo, tripas de carneiro, quando esticadas, produziam interessantes sons.

Por estas características, esta matéria prima foi utilizada em violinos, violas, violoncelos e contrabaixos naquela época. O grande problema era que o emprego de muita força física para ser obter uma boa sonoridade, pois as cordas precisavam ficar muito esticadas, além de terem o diâmetro muito grosso, transformando assim o estudo e a execução de peças musicais em um verdadeiro calvário para os músicos daquela época.

Para alívio dos carneiros, por volta de 1650, foram desenvolvidas as primeiras experiências envolvendo o uso de metal na fabricação das cordas. O primeiro modelo foi com o revestimento achatado, conhecido como Flatwound (figura 2). Basicamente era uma liga de metal (que chamamos alma) recoberta por um fio que envolvia a liga de metal de forma espiral. Nunca é demais lembrar que as primeiras cordas que equiparam os primeiros Precision Bass eram originadas do contrabaixo acústico.A História do Contrabaixo - Parte 15

 

A lendária Rotosound Roundwound

Mas nada se compara a invenção de um inglês chamado James How, atento à comunidade de graves em seu tempo que reclamavam que, além da dificuldade de execução, as cordas possuíam timbres muito iguais. Com esta idéia na cabeça e muita determinação, o jovem inventor criou um novo tipo de corda, porém com o revestimento de forma arredondada, que passou a se chamar Roundwound (figura 2).

Esta corda, por suas características de construção, resultava em uma sonoridade muito mais aguda, sem perda de graves e com uma acentuação bem aceitável nos médios o que encantou muitos músicos, transformando-se em um verdadeiro sucesso de vendas em todo o mundo. Por suas características arredondadas, James How denominou as suas novas cordas de Rotosound Roundwound.

 

John Entwistle

Bem, claro que começar uma empresa naquela época era igualmente muito dificultoso, assim como nos dias atuais. Por pouco, esta genial idéia não foi parar no limbo da história por uma curiosa razão: O Who, em meteórica ascensão, já era considerado um dos supergrupos do planeta e seu baixista, John Entwistle também era de opinião que os timbres dos baixos eram muito iguais. Foi quando ele resolveu encomendar algumas dezenas de jogos para James How por ocasião do lançamento de Tommy.

 

O legado de Chris Squire

Com a ascensão do Yes também alavancado a categoria de super grupo no início dos anos 70, pelos magistrais trabalhos em “Yes Album” e “Fragile”, todo músico e apreciador de música, críticos e fãs começaram a prestar atenção na sonoridade da banda. Claro que todos os membros do grupo tocavam muito bem. Mas existia algo de novo que diferenciava o som dos caras: era o baixo! Cortante como navalha. Com graves e agudos tão devastadores e com linhas composicionais tão complexas que em determinados momentos – heresia das heresias! – a música desafiava ao reino das guitarras e da supremacia vocal.

Claro que por trás da máquina estava o homem. Além de ser considerado o maior baixista do rock progressivo, Chris Squire redefiniu o som do contrabaixo elétrico nos anos que se seguiriam. Nada mal para um garoto, que, quando jovem, ficava trancado em seu quarto pesquisando timbres…

Fonte: Escrito por Nilton Wood, da redação TDM. Nilton Wood, professor de baixo elétrico da EM&T, conta a história do instrumento musical desde os seus primórdios.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: