Rogério Skylab: “Não existe eternidade na arte”


O polêmico Rogério Skylab passou por São Paulo no mês de junho para uma curta temporada de shows no Centro Cultural São Paulo. Com a divulgação do seu último CD, “Skylab X”, aproveitamos para fazer uma rápida entrevista após o último show. Foi uma conversa divertida, rica, onde desmistificamos um pouco do homem por trás do projeto Skylab. Falamos sobre shows, TV, internet, música e literatura.

A entrevista contou com a colaboração de Fábio Vanzo. Confira.

“Skylab X” foi anunciado como seu último disco. Como será a partir dai? Você pretende investir em outros projetos?

Rogério Skylab: Eu continuo com meus trabalhos paralelos, mas essa série do Skylab termina aqui, nesse disco. A característica do “Skylab X”, a música do estilo Skylab foi finalizada nesse “Skylab X”. Paralelo a isso, tenho também o projeto Skygirls, que não saiu num disco físico, foi disponibilizado na internet. Tenho também o Rogério Skylab & Orquestra Zé Felipe, dentre outros.

Vai ter algum show final? Ou vai continuar a turnê completa normal?

Rogério Skylab: Não… vai ser uma turnê normal, como em todos os outros CDs, pelo Brasil inteiro.

Já tem outro projeto em mente? Pensa em alguma coisa?

Rogério Skylab: Penso sim, quero fazer um projeto do tipo cafajeste romântico brasileiro, na linha de músicos como Agnaldo Timóteo, Fagner, Reginaldo Rossi, porque adoro essa linha. Penso em muitos outros projetos também.

Você toca alguma coisa?

Rogério Skylab: Toco, toco muitos instrumentos como guitarra, violão, teclado, muita coisa.

E você não tem vontade de tocar nos seus projetos?

Rogério Skylab: Não, porque não me considero um grande instrumentista. E também porque na minha banda só tem craque. É uma característica da banda Skylab, só tem fera, todos são excelentes músicos. Sempre faço questão de quem quer que esteja na banda, seja um puta músico.

E como é o processo de composição das músicas do Skylab?

Rogério Skylab: É definitivamente um processo de composição solitário. Eu componho tudo sozinho, fechado, isolado. Depois de feita a música, a gente entra num segundo tempo, que é o dos arranjos, detalhes, e ai é fundamental ser solitário. São momentos raros. A música pra mim é uma coisa orgânica. Às vezes eu sento e escrevo uma música enorme em alguns minutos, é uma questão corporal. Não passa muito pela razão, pela reflexão. Música pra mim não funciona como pensar “Agora eu vou escrever uma música”, não acontece assim. Escrevo músicas embaixo do chuveiro, dentro do ônibus, andando na rua, como um susto.

E você consegue ganhar dinheiro com o projeto Skylab?

Rogério Skylab: O processo do Skylab se paga só pelo investimento. Não ganho nada além disso. O que eu invisto, eu tenho e volta, mas não posso viver disso. E eu nunca tive esperança de que viesse. Sabia que meu trabalho não iria me sustentar.

E o que o Rogério Skylab ouve?

Rogério Skylab: Música popular. O meu blog é um canal de coisas que ouço, leio, etc. Sou muito ligado em outras formas, nacionalidades. Pra poder sacar o que tá acontecendo e não ficar preso só à língua nacional. Gosto muito de Leonard Cohen, Nick Cave, por exemplo. Mas não gosto muito da música atual. Eu até entendo, mas não faço parte dessa nova safra da música brasileira. Também gosto muito da Vanguarda Paulistana. Acho bem mais válida até do que a tropicália. Posso citar tranquilamente o Luiz Tatit, o trabalho dele é fundamental pra mim. Também adoro o Itamar Assumpção. Ouço muito. Para mim, existe uma grande diferença entre o músico e o cancionista. O Luiz Tatit é um, eu também sou um cancionista, que é fazer aquela mistura mágica de letra e melodia. Letra de música é a combinação de melodia, isso é muito específico. É diferente de só escrever a música. Tom Jobim que era um maestro, demorou anos pra fazer uma canção, que foi “Águas de março”, justamente porque ele não era um cancionista, era um músico. Fazer canção é justamente fazer essa mistura de letra e melodia. Tom Jobim e Vinícius de Moraes são músicos, não são cancionistas. Caetano é cancionista, Chico, Djavan também são. Um outro fato é que os grandes artistas, abriram mão de um rigor de qualidade. As coisas têm prazo de validade, tais como Titãs, Caetano, Vinícius. Não existe eternidade na arte. E isso é uma coisa maravilhosa. O tempo muda, se eu ouvir o disco hoje, não é a mesma coisa que ouvir na época. Com certeza, houve um determinado momento na história em que o Beethoven foi mais valorizado do que hoje em dia. O tempo não é eterno. Está ligado ao momento. Em algum momento, algum artista vai ser trazido à luz e ser revalorizado, porque o tempo também resgata artistas.

E o que você costuma ler?

Rogério Skylab: Já dizia Harold Bloom, que Deus para ele se chamava Shakespeare. Meu deus se chama Machado de Assis. Eu leio e releio sempre e parece que sempre há algo novo a se aprender.

O “Skylab X” nos passa a impressão de ser um álbum triste. Por que isso?

Sim, são canções mais tristes, com certeza. Fiquei pensando que as pessoas gostam muito dos meus primeiros discos. O “Skylab II”, acho um disco adolescente. O “Skylab VII”, por exemplo, é muito rock. Mas o disco X é o que eu estou pensando mais atualmente. É um disco mais maduro.

As pessoas esperam toda essa estética da escatologia nas suas músicas sempre…

Essa questão de escatologia traz algumas abordagens interessantes. Recentemente fui no “Apê 80”, o lugar é pequeno e tinha muita gente, de forma que eu não podia me locomover. Então eu criei um tipo de comunicação, de interação com as pessoas, onde, por exemplo, eu olhava para uma menina e falava “eu excreto pus e sangue pelo cu”. Foi uma experiência nova, pela falta de distanciamento com o público. Até para cantar palavras mais básicas, eu olhava para as pessoas e causava um choque.

E suas participações no programa do Jô Soares? Rende muita visibilidade?

Eu costumo dizer que o Jô faz parte do Skylab, graças a ele sou conhecido nacionalmente. Conheço grandes bandas que são fenômenos locais. Cada um tem seu histórico, o meu é esse: Devo muito ao programa do Jô. Ele me deu essa divulgação.

Alguma vez você já teve alguma restrição ou recomendação para não tocar alguma música?

Sim, até recentemente no programa do Jô. Toquei uma música que ele tirou, a melhor parte do show ele tirou. A melhor parte do show não foi a cenoura (Nota: Ele se refere à música “O corvo” , onde ele come uma cenoura e a cospe no palco). Toquei “Tudo me faz bem”, mas pela letra que diz “Pus e sangue pelo cu”, foi vetada. Ele me ligou pedindo desculpas, eu compreendi, claro.

E como funciona sua interação com a tecnologia, com as mídias da TV, etc.?

Eu sou fã da televisão, porque ela faz parte da minha geração. A diferença entre uma pessoa que já nasceu com a internet, é que ela nunca vai valorizar a televisão. Sou fã do controle remoto. Pra mim a TV é uma obra de arte e vejo coisas excelentes na TV. O controle remoto é importantíssimo. Posso citar o Canal Brasil, que é excelente, tem uns filmes ótimos, boas entrevistas (como Zé do Caixão). A MTV é uma bosta, mas tem uns programas excelentes. Por exemplo, o “Na brasa”, é ótimo, só música brasileira. O bom da TV é que você faz a sua programação na televisão. O garoto que nasceu no computador, não sabe o que é isso. Mas eu me rendi à tecnologia também. Tenho twitter, blog e acho isso importantíssimo. O que eu escrevo ali, tenho certeza de que renderia uns 3 livros. A idéia de que na internet só tem merda é mentira. Os jornalistas ficam com uma rixa, por causa daquela coisa instantânea. Eu tenho também uma comunidade no Orkut, com mais de 20 mil pessoas. Quanta merda eles escrevem! Mas são eles, é um espelho, você tem que ler.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: