A história do contrabaixo – Parte XIV


A História do Contrabaixo - Parte 15Algumas das descobertas mais significativas da humanidade ocorreram por acaso. Todos nós conhecemos diversas histórias a respeito de como, de modo inesperado, coisas importantes ocorreram, alterando de forma dramática tudo que se seguiu.

Na história do baixo elétrico não foi diferente. A princípio, em nossos trabalhos de pesquisa sobre a história de nosso amado instrumento, julguei que seria importante abordarmos de como surgiu a captação ativa, idealizada por Ron Wickersham no final dos anos 60.

A História do Contrabaixo - Parte 15

No entanto, ao mergulhar em estudos mais profundos, conclui que o fundo do poço do curso da história era mais fundo do que eu pensava. A invenção de Ron foi algo extraordinário, mas conforme você vai descobrir isto faz parte de uma seqüência de fatos que ocorreu alguns anos antes.

Algo tão importante quanto a própria invenção do baixo elétrico: a busca de novos timbres para o instrumento. Dois acontecimentos foram decisivos para que esta nova revolução tivesse início. Algo que surgiu de forma tão inesperada que, se não fosse pela importância dos músicos que a iniciaram, certamente não ocorreria tão cedo.

 

Hofner ou Rickenbaker?

O primeiro fato ocorreu entre 1963 e 1965. A rádio Broadcast, do grupo British Broadcasting Corporation desenvolveu um projeto chamado Live at the BBC, uma coletânea contendo as primeiras gravações dos Beatles naquele período, que esta disponível hoje em dia no formato CD.

Mais do que um registro histórico, tais gravações demonstraram a genialidade do grupo, com uma especial ênfase a Paul McCartney nos graves da banda. Todos podiam sentir que as linhas de baixo que faziam partes dos maiores sucessos das bandas eram executadas de forma diferente da maioria dos baixistas da época, desde um simples groove, passando pelo R&B, country e rock, cuja elaboração tinha como ênfase a criação de complexas linhas de arranjo.

Não bastasse tudo isto, Paul ainda cantava! Por estarem dispostas em uma ordem cronológica, é fácil notar a evolução do baixista como instrumentista em músicas como “Keep Your Hands Off My Baby” (janeiro de 63) na qual se denota o baixista iniciando seu trabalho com um simples linha composicional mas que, no processo de gravação, já se encontrava devidamente pronta (com a inserção de novos elementos rítmicos e harmônicos), ou seja, Paul já não utilizava em seus materiais os tradicionais intervalos de tônica e quinta que abundavam no estilo até então. O baixista passou a ser considerado como o grande condutor melódico e harmônico dos Beatles, tanto pelos críticos como também pelo público.

 

James Jamerson: A grande influência

Paul era, antes de tudo, um experimentador. “À medida que o tempo passava, eu não queria tocar apenas a fundamental do acorde. Executava também as terças e quintas. Queria também colocar alguns acordes também.

Ouvir James Jamerson (o lendário baixista da Motown) e Brian Wilson (do Beach Boys) me inspirou a procurar novas idéias para meus arranjos”, declarou certa vez o baixista. Com a propagação mundial da obra dos Beatles, iniciou-se também, uma silenciosa mudança na linguagem do instrumento que começou a adquirir contornos mais definitivos a partir de 1965, quando Paul ganhou da Rickenbaker um modelo 4001S para canhoto.

Durante as gravações de “Sgt. Pepper´s…” , em 1967, o lendário Baker se tornou, em alguns momentos, o principal instrumento de Paul. Isto aconteceu em virtude de, comparado com o bom e velho Hofner, o novo instrumento oferecia, além de um novo timbre, a possibilidade de experimentar algumas idéias ainda mais radicais.

“Pensei que nunca pudesse inserir nas notas do acordes. Tentei fazer no Hofner, mas, em virtude de sua sonoridade, estas mudanças quase não eram percebidas. No Baker, isto não acontecia. Eu podia ouvir cada nota, cada intervalo, sentir os segmentos na qual eu poderia ousar rearranjar ou simplesmente deixar inalterados, para não afetar os fundamentos da textura do som do grupo”.

“Quem sabe uma linha de melodia independente? Foi quando resolvi colocar mais alguns projetos de arranjo em prática. Por exemplo, em “Lucy in the Sky with Diamond’s”. Se você ouvir a música, irá perceber uma linha de baixo contendo as notas fundamentais do acompanhamento, mas também poderá ouvir uma outra linha independente, na qual procurei explorar outras possibilidades, como o uso das escalas, por exemplo. Foi muito emocionante ouvir tudo isto depois e concluir que muito dos meus projetos de arranjo poderiam dar certo”, relembra o baixista.

 

A consagração do 4001s

O engenheiro George Geoff Emerick, um dos responsáveis pelas gravações de “Sgt. Peppers…”, contou ao historiador Howard Massey um singular experimento que ele realizou durante as mixagens deste álbum. “Isolei todos os arranjos que Paul compôs em um track único. Cada faixa foi gravada com um baixo plugado em um amplificador usando um direct input para a mesa. Durante as gravações, Paul experimentou tocar com o Hofner e com o Rickenbacker”.

Continua o engenheiro: “Com a finalização dos trabalhos de gravação, iniciei meu trabalho de mixagem. Ouvindo as faixas, eu não conseguia distinguir, a princípio, quais eram as músicas na qual Paul usou o Hofner ou o Baker. Foi então que algo inesperado aconteceu. Durante um intervalo das gravações, com o estúdio sem ninguém, eu podia ouvir a ressonância da nota emitida pelo baixo. Eu pensei que isto iria causar problemas no processo final de mixagem. Quando fui verificar quais músicas que tinham esta ressonância, constatei que todos os temas gravados com o velho Hofner estavam com este sobra de ruído. Para tirar a cisma, procurei ouvir todos os temas na qual Paul usou o Rickenbaker. Claro que algumas ressonâncias também existiam, mas eram infinitamente menores do que as emitidas pelo Hofner. No caso do Baker, consegui fazer alguns ajustes para que o som do instrumento pudesse soar de uma forma mais clara. É claro que consegui! Mas eu não consegui fazer isto de forma satisfatória com as músicas gravadas com o Hofner”.

 

Tommy, Can You Hear Me?

Vamos saltar no tempo. Estamos em 1969 durante a histórica performance do grupo The Who no festival de Woodstock. Neste evento, muitas das músicas executadas pela lendária banda faziam parte do álbum Tommy, um dos primeiros conceitos envolvendo a criação da ópera-rock, cujo responsável pelo graves, era, claro, John Entwisle.

O extraordinário baixista era dono de uma técnica revolucionária, repleta de contra melodias, solos devastadores e o mais notável: linhas independentes do baixo que fluíam mesmo durante as melodias cantadas por Roger Daltrey.

Talvez pelo fato de Peter Townshend ser um guitarrista que tinha como característica criar mais riffs do que acordes, coube ao baixista a possibilidade de criar, em muitos momentos da banda, alguns solos que pudessem suprir o trabalho da guitarra. Em entrevista ao jornalista Chris Jisi, Entwistle contou como obtinha novas sonoridades naquele período: “É natural que, conforme você vai evoluindo, você queira experimentar novas coisas. Algo que me incomodava muitos naqueles primeiros modelos de baixo era o timbre, muito igual dentre os modelos disponíveis naquela época. Por isto, fiz questão de usar um baixo da Danelectro (idealizado pelo luthier americano Nathan Daniel) quando gravei o solo de “My Generation”, porque a calibragem das cordas era menor, resultando em uma sonoridade mais aguda. Como estas cordas não eram vendidas na Inglaterra, comprei mais dois instrumentos similares para o caso de eventuais trocas de cordas”.

 

Uma nova geração de instrumentos

A genialidade de McCartney, a visão do engenheiro Geoff Emerick, as improvisadas soluções acústicas encontradas em uma época na qual a tecnologia das gravações ainda engatinhava e a ousadia de John Entwistle em experimentar novas sonoridades usando novos instrumentos chamaram a atenção de músicos, produtores e construtores, provocando intensas discussões sobre a necessidade de aprimoramentos na próxima geração de instrumentos. Mas o impulso final aconteceu com o surgimento de outro grande e extraordinário baixista que, finalmente, provocou e sensibilizou de forma definitiva a necessidade de criação de novos caminhos com relação a concepção de novos instrumentos. Quem foi ele? Descubra no próximo capítulo!

 

Fonte: Escrito por Nilton Wood, da redação TDM. Nilton Wood, professor de baixo elétrico da EM&T, conta a história do instrumento musical desde os seus primórdios.

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