A história do contrabaixo – Parte XI


A história do contrabaixo - Parte 11O baixo que parecia um violino

Fundada no final do século XIX por Karl Hofner, a lendária fábrica Hofner iniciou suas atividades produzindo instrumentos derivados da família dos violinos. Sobreviventes de dois conflitos mundiais os fundadores, com sua força de vontade, ainda presentearam o mundo dos graves com um novo instrumento.

O primeiro baixista dos Beatles não foi Paul McCartney, mas sim um cara chamado Stu Sutcliffe. O próprio Paul – na época o segundo guitarrista do grupo – nos relembra uma história curiosa: “Ele e John estudavam na mesma escola de arte. Em um desses concursos promovidos na instituição, Stu ganhou 120 dólares por uma pintura de sua autoria. Daí dissemos a ele que este era o preço exato de um baixo Hofner. Relutante, ele acabou comprando um. Confesso, que a princípio, estranhamos um pouco aquele visual, mas como Stan era baixinho, o instrumento conferia a ele um certo estilo, como um Bass Hero”.

Quando no final de 1961 Stu deixou a banda para se dedicar à pintura, todos no grupo se perguntaram quem iria tocar aquilo. Como Paul havia confessado que gostava do som do instrumento e vivia ouvindo todo aquele pessoal da Motown, todos olharam para ele. Apesar de tentar argumentar dizendo que tinha acabado de comprar uma guitarra Rickenbaker, não teve jeito: Paul acabou assumindo o Hofner modelo 5001/1, fabricado na Alemanha e que se parecia com o modelo da Gibson.

Ele queria comprar um Fender, mas não o fez por dois motivos: preço (um Precision custava cerca de 200 dólares, enquanto que um Hofner era quase 60% mais barato) e aparência (como Paul era canhoto, aquele modelo imitando um violino não pareceria tão estranho caso fosse invertido) – mais tarde, Paul descobriu que, além disso, o Hofner era um instrumento leve, levando-o a gostar ainda mais do estranho baixo.

A história do contrabaixo - Parte 11Esta singela história do responsável pelos graves da banda mais famosa do planeta ilustra o quanto a decisão de escolher tal modelo de instrumento contribuiu para um impressionante aumento de vendas do lendário 500/1. Mas onde tudo isto começou?

A empresa foi fundada pelo luthier Karl Hofner em 1887, na cidade de Schonbach, na Alemanha. A princípio, eram fabricados instrumentos pertencentes à família dos violinos, como violas e contrabaixos. Decorridos alguns anos, a fábrica começou a enfrentar dificuldades financeiras, principalmente com a eminência da Primeira Guerra Mundial.

Em 1919, seus dois filhos, Josef e Walter, se uniram ao pai para tentar salvar a empresa. Os tempos que seguiram foram duros, principalmente depois da guerra. Diz a lenda que um dos motivos que mantinha a fábrica em atividades era a notável força de vontade da família. Mesmo depois da eclosão da Segunda Grande Guerra, a empresa continuou sobrevivendo a duras penas. Com o término do conflito, a família reconstruiu a fábrica, agora na Bavária.

Em 1950, uma subsidiária foi erguida em Bubenreuth, onde os negócios começaram a melhorar para os Hofner. Desde a sua fundação, mais de dois milhões de instrumento já tinham sido construídos. Modelos destinados a estudantes, trabalhos em estúdios e profissionais de música eram exportados para diversas localidades do mundo.

Em 55, Walter Hofner, um dos filhos de Karl, era, além de notável luthier, um talentoso homem de negócios. Ele tomou conhecimento de um tal Precision Bass, construído na América, que estava se tornando uma verdadeira mania entre os baixistas de todo mundo.

Com um raro censo de oportunidade visando o mercado futuro, a fábrica criou seu primeiro modelo eletrificado. “Tratava-se de um baixo semi-acústico, feito em hollow, braço em maple, escala em rosewood com marcadores em madrepérola, 22 trastes, escala de 30”, tarraxas em cromo, ponte em ébano, dois captadores humbucker da NovaSonic, possuindo ainda dois controles de volume para cada um dos captadores, com dois controles tipo chave seletora, sendo uma destinada a ligar/desligar cada captador e outra para graves e agudos. Foi lançado em 1956 na feira de Frankfurt (Alemanha) com o nome técnico de Hofner 500/1 – logo depois alterado para Violin Bass, em virtude da sua semelhança com o secular instrumento.

Com a ascensão dos Beatles, o novo modelo se tornou um enorme sucesso de vendas. Grande parte das pessoas acostumadas ao design de outros instrumentos da época estranhava o exótico formato daquele corpo. “Um baixo? Mas parece um violino”, diziam. No início da sua produção, os modelos construídos entre 61 e 62 possuíam dois captadores humbuckers, um deles localizado no final da escala e outro muito próximo à ponte.

A partir de 1967 houve uma mudança na localização dos captadores, deslocados para a parte central do corpo – esse novo modelo foi chamado de “Beatle Bass”. Com o grande sucesso de vendas, a empresa iniciou a fabricação de novos modelos oriundos da mesma concepção. Em 94, a Hofner se juntou ao conglomerado Boosey & Hawkese Group, visando dotar a fabrica de novas tecnologias de ponta, período em que a empresa se mudou para a cidade de Hagenau. Desde fevereiro de 2003, a Hofner se tornou parte da Music Group, companhia fundada a partir da segmentação da Boosey & Hawkese em diversas subsidiárias.

A história do contrabaixo - Parte 11Você, jovem leitor, acostumado a tocar em modernos instrumentos manufaturados em fábricas dotadas de máquinas de última geração, não faz, é claro, a mínima idéia do que era tocar em um Hofner. Por felicidade, tive a oportunidade de experimentar algumas destas preciosidades históricas.

Esqueça a ergonomia! O velho 500/1 foi criado, na visão dos seus construtores, mais como um produto para chamar a atenção por meio do seu “revolucionário design” do que por suas qualidades ergonômicas. Paul se referia a ele como um instrumento leve. Tal falta de peso propiciava ao baixo um excesso de graves, características amada por muitos, mas que ocasionava muitas dores de cabeça aos engenheiros de estúdio na época.

Seu braço, com um ângulo de curvatura demasiadamente acentuado, dificultava a digitação em algumas regiões da escala. O conjunto de afinação (tarraxas e mecanismos de torque) era impreciso e difícil de ser manuseado, em virtude do seu pequeno tamanho.

Hoje os poucos modelos originais pertencem a colecionadores. A saga e a persistência da família Hofner e a escolha daquele baixo no distante ano de 1961 por aquele cara que não queria ser baixista nos fazem perceber que grandes momentos da história muitas vezes surgem do acaso, de pequenos fatos. O tempo e os eventos que se sucederam se encarregaram de transformá-los em grandes realizações. Paul McCartney, com seu Hofner 500/1, seguramente, foi um deles.

 

Fonte: Escrito por Nilton Wood, da redação TDM. Nilton Wood, professor de baixo elétrico da EM&T, conta a história do instrumento musical desde os seus primórdios.

Anúncios

Uma resposta to “A história do contrabaixo – Parte XI”

  1. A pessoa essencialmente assistir para fazer criticamente
    mensagens eu poderia estado. Esta é o primeiro vez que eu freqüentava o seu page web
    e até agora? I surprised com o análises que você fez para criar este
    real pós incrível. Magnificent actividade!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: