A Rede Social é o Cidadão Kane da era da informática


Cena do filme A Rede Social, do diretor David FincherNa primeira cena de “A Rede Social”, Mark Zuckerberg e sua atual namorada conversam frente a frente numa mesa de bar. O local está absolutamente lotado, vozes ecoam de todos os lados e ao fundo se escuta a deliciosa “Ball and Biscuit” do White Stripes. Nesse ambiente típico de faculdades americanas, o casal mantêm uma conversa ágil e divertida, que aos poucos vai tomando um caráter acusatório. Zuckerberg age quase como um sociopata, criticando a namorada sem conseguir medir a força de suas palavras, e ela, revoltada, vai embora. A cena é perfeitamente construída, e é nela que reside a chave para se entender os problemas que Mark teve de enfrentar, o maior deles é claramente sua própria personalidade.

Cena do filme A Rede Social, do diretor David FincherAdaptado de “Bilionários por Acaso”, livro de Ben Mezrich – que parece ter grande interesse nas figuras do mundo da informática, já que também é dele o livro que inspirou o filme “Quebrando a Banca”. E o roteiro, assinado por Aaron Sorkin (criador das séries “West Wind” e “Studio 60 on the Sunset Strip”) é sem sombra de dúvida o ponto mais forte do filme – mas, é bom deixar claro, não seria tão forte sem o auxílio de todos os outros elementos.

Partindo da cena inicial, a trajetória de Zuckerberg e seus amigos na turbulenta criação do Facebook transita por gêneros tão diferentes quanto espionagem industrial e filme de tribunal, sem nunca sair da esfera de drama sobre um nerd desajustado. Sorkin conseguiu escrever um filme verborrágico que não cansa o espectador, porque todos os seus diálogos, situações e personagens são totalmente relevantes. Todos os pormenores tem uma razão, e isso implica total atenção. Não se pode desviar da tela por um segundo.

Cena do filme A Rede Social, do diretor David FincherSomado ao brilhantismo do roteiro está a ótima edição de Kirk Baxter e Angus Wall, antigos colaboradores do diretor. Numa escolha acertada, toda a ação é construída em montagem paralela, intercalando cenas dos processos que Zuckerberg sofreu do seu sócio Eduardo Saverin e dos Irmãos Tyler e Cameron Winklevoss, com cenas da criação e ascensão do projeto. E ainda é possível citar o trabalho de Trent Reznor e Atticus Ross na composição de uma das melhores trilhas sonoras do ano, que ao não apelar para grandes e vibrantes notas, convence muito mais o espectador.

Mas é claro que todo esse esforço também se deve à criatividade do diretor David Fincher. Velho conhecido do público pelo já clássico “Clube da Luta” (1999) e por outros grandes sucessos como “Zodíaco” (2007) e “Seven – Os Sete Crimes Capitais” (1995), Fincher havia decepcionado uma parcela de seus fãs com o melodramático “O Curioso Caso de Benjamin Button” (2008). Entretanto, é perceptível que a passagem por uma produção mais emotiva modificou algo em sua visão criativa.

Cena do filme A Rede Social, do diretor David FincherAntes viciado em grandes acrobacias visuais, agora preferiu manter uma abordagem simples e direta, inclusive rodando todo o filme em digital, ao invés da câmera de 35mm. E pela abordagem escolhida, foi importante ter atores que sabiam em qual terreno estão pisando, e o elenco não decepciona em momento algum.

A atuação de Jesse Eisenberg (“Zumbilândia”) como o analítico e perturbado protagonista é impressionante. O rapaz disse ter assistido alguns vídeos do verdadeiro Mark Zuckerberg para se inspirar, mas acabou seguindo a ideia de Fincher e criou sua própria versão do personagem, mas ainda assim é quase uma cópia fiel dos trejeitos do original.

Além dele, todo o grupo de protagonistas é impecável, especialmente Andrew Garfield (o futuro Homem-Aranha), como o brasileiro Eduardo Saverin, co-fundador do Facebook e melhor amigo de Mark até o momento em que foi traído, e Justin Timberlake (“Alpha Dog”) como um sócio que é o pivô da traição de Zuckerberg.

Cena do filme A Rede Social, do diretor David FincherNão é difícil comparar “A Rede Social” com filmes como “Sangue Negro” (2007) ou “Cidadão Kane” (1941). Todos eles tratam de homens numa incessante paranóia em relação ao poder, cada qual em sua época, e as consequências sofridas de querer manter o controle sobre tudo e todos.

Se Fincher realizou em “Clube da Luta” uma análise criativa da geração perdida oriunda dos anos 90, aqui ele acerta em cheio nos dramas da geração dos anos 2000, que publicam e divulgam suas ansiedades a cada segundo via internet. É por todos esses motivos que é fácil colocar “A Rede Social” numa lista de melhores filmes do ano. Ou mesmo da década.

A Rede Social

 

Fonte: Escrito por Felipe André. Felipe é cinéfilo profissional. Usa boa parte do seu tempo em salas de cinema e gasta a outra parte escrevendo sobre o que acabou de ver. Também é cineclubista e adora exibir filmes que ninguém viu, por isso tem uma quedinha pelo cinema independente de todas as partes do mundo. Atualmente reside em Recife, mais precisamente no cinema mais próximo. Leia também no Kinemail.

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