Shakespeare ganha sotaque do Nordeste em peça que entoa rock


Shakespeare ganha sotaque do Nordeste em peça que entoa rockCom ele não tem vacilo. Partidário do olho por olho, as “mortes matadas que coleciona fazem com que seja temido desde os salões da alta nobreza inglesa até os confins do sertão nordestino. O perfil desenhado é de um certo duque de Gloucester, o aniquilador sedento de poder que logo se fará rei e personagem-título de “Ricardo 3º”, de Shakespeare.

Na leitura do diretor Gabriel Villela e da companhia Clowns de Shakespeare, ele reencarna cercado por seus antagonistas originais (irmãos, sobrinhos e cunhadas que constituem obstáculos a seus planos de conquista da coroa), mas também de comparsas que trajam o cangaço no corpo e na prosódia. “Sua Incelença, Ricardo 3º” teve prévias em Natal/RN, no fim do ano passado, e estreia oficialmente em março como atração de abertura do Festival de Curitiba.

Como sugere o título, o sotaque nordestino também se insinua por cortesia das “incelenças, cantos fúnebres típicos da região que, entoados em coro, pontuam os assassinatos perpetrados pelo “javali sanguinário” que centraliza as atenções.

A montagem se equilibra entre a tradução erudita de Ana Amélia Queiroz Carneiro e uma linguagem cênica de picadeiro, comunicação direta, de “circo pobre de beira de estrada, do travestismo escrachado”, como diz o cofundador do grupo Fernando Yamamoto, adaptador da dramaturgia (2/3 do texto original foram subtraídos) e assistente de direção.

 

Rock e coronelismo

“Identificamos em Ricardo 3º práticas políticas nordestinas. Além do coronelismo, o comportamento cruel do personagem lembra a forma como muitas vezes se lida com o artista por aqui, corrompendo-o e enrolando-o”, diz Yamamoto, acrescentando se tratar da primeira vez em 17 anos de carreira que o grupo olha para além da obra cômica do dramaturgo.

Outra novidade foi a inclusão do rock britânico na pesquisa musical, que começou com Beatles e desaguou em Queen. Não falta nem o bigodinho de Freddie Mercury… “Em termos musicais, o processo começou com uma negação do regional. Só três atores da companhia são do interior. Crescemos sob influências urbanas. A estética do chão rachado, do chapéu de couro nunca nos interessou”, conta Yamamoto.

A Gabriel Villela tampouco. Quase 20 anos depois do “Romeu e Julieta” que projetou o Grupo Galpão, ele assina uma montagem em que faz desfilar por um picadeiro de carruagens rústicas e galhos retorcidos figurinos de veludo e renda em tons lúgubres que, aqui e ali, encobrem enchimentos coloridos.

“Foi como renovar os votos com a arte popular, recuperar uma relação mais telúrica, menos cinza com a criação. Eu os encontrei [Clowns] e os trouxe para um mundo em que disciplina e rigor dão as cartas. E eles me mergulharam nesse rebatismo”, descreve o diretor. Contribuiu para esse ajuste fino a semana que o grupo passou em Acari, no sertão potiguar, apresentando ensaios abertos do espetáculo a uma plateia quase neófita.

“Estávamos com medo porque a linguagem era de difícil digestão. Mas o Gabriel dizia que o público iria fazer sua própria edição. Nós [o grupo] estávamos bitolados com a necessidade de inserir explicações lógicas para cada elemento da cena. Acari trouxe a confirmação de que a fábula se bastava”, conclui Yamamoto.

 

Fonte: Folha Online.

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