A história do contrabaixo – Parte VII


A História do Contrabaixo - Parte 7A terceira geração dos baixos Fender Precision Bass (57) era um grande sucesso de vendas. No entanto, uma concorrência cada vez mais acirrada obrigou o pessoal da Fender Company a criar um novo modelo de baixo elétrico. Uma nova revolução ou uma brilhante estratégia de marketing? Você decide!

Início de 1960, algum lugar no meio oeste americano. A banda de Rick Nelson se preparava para um tour pela Austrália. O baixista/guitarrista Joe Osborn estava muito ansioso. O motivo era que, poucos dias atrás, o próprio Clarence Leo Fender tinha entrado em contato com ele, interessado que o músico testasse um novo produto da empresa. “Os caras me ligaram e me disseram que tinham algo novo. Apesar de ser guitarrista, eu usava o Precision Bass para tocar algumas músicas. Então pedi para eles trazerem, se possível, um instrumento melhorado e um amplificador maior”, relembra Osborn.

Na véspera da partida, o próprio Leo se encontrou com Joe e lhe entregou o que prometera. Além de um Bass Man novo, o genial inventor lhe trouxe um novo baixo, o último experimento da empresa. “Quando eu o tirei do estojo parecia um Precision, mas era diferente. O corpo era um pouco maior, com mais curvas e o sistema de captação também era diferente. Foi quando resolvi olhar uma inscrição denominando o novo instrumento no headstock do instrumento. ‘FENDER JAZZ O QUÊ?’ perguntei, um pouco confuso. Leo então me disse que depois conversaria comigo. Que eu apenas o levasse, tocasse com ele e depois lhe contasse minha opinião”. Mal sabiam nossos protagonistas que, com este simples diálogo, eles estavam, mais uma vez, alterando o curso da história.

A História do Contrabaixo - Parte 7Mas um momento! Foi tudo simples assim? Claro que não! Alguns fatos ocorreram para que a empresa e seu fundador concordassem que já era hora de inovar. Os primeiros ventos da mudança sopraram em direção da própria companhia. Don Randall, diretor industrial e presidente da Fender, em um histórico depoimento contido no livro “The Bass Book” relata: “O Precision Bass, em sua segunda versão (1954) era realmente um notável avanço com relação aos modelos anteriores. No entanto, alguns problemas alinda persistiam, e o principal – relacionado ao acondicionamento da quarta corda, Mi – só foi resolvido na terceira geração do projeto (modelo 1957). Por um problema de engenharia, o design do head stock que compunha o conjunto braço/corpo possuía um sério problema de sustentação desta nota, o que fazia que o sétimo traste desta região apresentasse problemas de ruídos e falta de entonação. O próprio Leo já tinha notado este problema e alguns funcionários mais antigos também. Grande parte dos músicos que usavam o instrumento na época nunca reclamaram mas alguns baixistas que trabalhavam em estúdios (e portanto com uma realidade sonora diferenciada da grande maioria pois eles estavam constantemente ouvindo o que gravavam em seus trabalhos) já tinham notado este problema”.

“Por mais que fizéssemos de tudo para solucionar o defeito no local afetado da escala, não tínhamos sucesso! Após muito pesquisar, encontramos a resposta, só que em outro lugar: o head stock, por uma falha nossa, não tinha as dimensões e massa suficientes para sustentar a pressão das cordas. A solução então foi alterar o design. Decidimos então que este problema estaria definitivamente resolvido no modelo 57. A partir daí, soubemos que os mesmos concorrentes tinham efetuado as mesmas mudanças. Foi ai que percebi que precisamos de um produto novo”, afirma Don Randall.

Outro fator foi a ambiência industrial entre os anos de 1958 e 59. Apesar de aceitação gradativa do baixo elétrico – não apenas do Precision, como também de outros modelos – todas as fábricas, com exceção da Fender, encaravam o baixo elétrico ainda com desconfiança, principalmente por existir muitos modelos de guitarra que tinham um maior apelo comercial. A própria Fender já possuía naquela época seis modelos de guitarra diferentes, bem como 13 modelos de amplificadores. A grande dúvida era: haveria no mercado espaço suficiente para uma quarta geração de baixo Fender?

A resposta apareceu por várias vertentes. Primeiro, porque o segmento de guitarras elétricas já estava sofrendo uma expansão. Stratocaster, Jaguar e Jazzmaster eram modelos, que, silenciosamente, já apontavam uma direção a novos rumos. Mesmo não sendo especialistas em marketing, Leo e sua equipe acreditavam que a grife Fender estava destinada a fazer história. Randall relembra aqueles tempos: “Mesmo sem admitirmos, já éramos dirigidos pelo mercado de uma forma inconsciente desde aquela época. A partir daquele momento que finalmente decidimos que os baixos elétricos eram bons produtos e que sempre iriam existir potenciais compradores, o que tínhamos então que fazer era oferecer novos produtos, mais elaboradorados. Nossa idéia inicial era criar, a princípio, um novo instrumento, superior ao Precision Bass. Tínhamos inclusive começado a construir alguns protótipos. Na época tudo era ainda muito incerto, mas finalmente a história nos fez compreender que estávamos no caminho certo”.

Claro que, para variar, existiam algumas vozes discordantes. E adivinhe de quem uma das vozes mais exaltadas? Ele mesmo: Leo Fender!

A História do Contrabaixo - Parte 7Da mesma forma que o grande inventor combateu os que eram contra suas revolucionárias idéias, Leo, ironicamente, travava uma batalha íntima, combatendo seus próprios fantasmas, materializados em idéias pré-concebidas sobre o próprio conceito de sua criação. Finalmente, ele se rendeu à lógica e apelo do mercado e finalmente, o novo protótipo começou a sair da prancheta.

A elaboração do nome do novo modelo foi algo digno de nota: “Queríamos que o nome soasse como uma coisa totalmente nova, um instrumento State of the Art, que pudesse ser tocado por grandes músicos e, se possível, com novas técnicas de execução! Jazz Bass foi o escolhido, porque a linguagem do jazz era mais arrojada, e, por conseguinte, seus músicos também eram”, relembra Randall.

O novo instrumento foi desenvolvido a partir de 1959 e introduzido no mercado um ano depois. Neste ponto, a história na qual começamos este capítulo foi concluída. Joe Osborn recorda: “Realmente, foi quando comecei a tocar no Jazz Bass que constatei que ele era um instrumento superior. Seu corpo era muito mais anatômico que o meu velho Precision. A inclusão de um novo sistema de captação (dois single coils) melhorou muito a sonoridade, sem mencionar a tocabilidade. Mas o mais interessante era que o braço era mais fino, o que ajudou muitos de nós, que também tocavam guitarra a digitar melhor as notas, pois estávamos acostumados ao braço menor da guitarra”.

O design do novo Jazz Bass era semelhante à guitarra Jazzmaster, lançada pela Fender dois anos antes. O primeiro protótipo nunca foi manufaturado. O corpo já possuía os contornos definitivos e o novo head stock já tinha seu design consolidado. A dúvida estava nos captadores (iguais no estilo que equipavam a guitarra Jassmaster) e knobs que, a princípio, seriam em número de três: dois para controle de volume e um para tonalidade.

E o mundo dos graves? Como reagiram músicos, produtores, professores e alunos com o novo baixo da Fender? Saiba mais no próximo capítulo!

 

Legenda das fotos

Figura 1 – O primeiro protótipo do Jazz Bass construído em 1958. Esse modelo jamais entrou em linha de produção. Note os três Knobs (dois para volume e um para timbres), que não fazem parte do modelo oficial que seria lançado em 1960.

Figura 2 – Ao contrário dos modelos anteriores, na qual a espuma de abafamento das notas se encontrava localizada no lado interno da placa metálica, no novo modelo o material foi instalado sob as cordas, próximo à ponte.

Figura 3 – O protótipo possuía dois captadores com design idêntico ao que equipava a guitarra Jazzmaster.

 

Fonte: Escrito por Nilton Wood, da redação TDM. Nilton Wood, professor de baixo elétrico da EM&T, conta a história do instrumento musical desde os seus primórdios.

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