Bem lembrado


Revista da Cultura, dezembro de 2010 #41Mal chega dezembro e todos ficam se perguntando o que fizeram de relevante durante os 11 meses que passaram voando. É época de balanço, de projeções e de expectativas, entre compras e preparativos para as festas. O que falta, o que pretendemos adquirir, em uma urgência que fica restrita aos últimos 30 dias do ano. Porém, se pararmos e pensarmos no que nos surpreendeu em 2010, veremos que não foram poucas coisas. A Revista da Cultura buscou entrar no terreno movediço do gosto particular para dar uma visão geral do que mais se destacou neste ano. E de que forma algum livro, CD, filme ou show mexeu com artistas e colaboradores. O que fica como dica de lembrança para exibir na árvore e aplacar coletivamente a saudade do que vivenciamos. A viagem fantástica da retrospectiva começa agora.

Um ano inesquecível para o cenário musical, assim pode ser classificado 2010 quando o assunto é show. E um homem é responsável por todo esse furor: Paul McCartney. O ex-Beatle incendiou Porto Alegre e São Paulo e conseguiu emocionar milhares de fãs brasileiros no mês de novembro. Com sua turnê Up and Coming, levou às lágrimas gerações distintas e se consagrou, sem exageros, como o melhor espetáculo no país em 2010.

Revista da Cultura, dezembro de 2010 #41A vocalista do Pato Fu, Fernanda Takai, que o diga. “Acabei de voltar dessa experiência mágica que é ver Sir Paul em plena forma, tocando e cantando como nunca, com a maior simpatia. Já tinha visto o primeiro show dele aqui, há 20 anos, mas este foi especial”, derreteu-se, um dia após fazer uma escala no Estádio Beira-Rio.

Aliás, os gaúchos são os responsáveis pelo maior consumo de Beatles do país. Segundo João Paulo Silveira Bueno, gestor de compras de CDs da rede Cultura, a unidade de Porto Alegre é a que mais comercializa os discos do quarteto de Liverpool, e Good Evening New York City, de Paul McCartney, se tornou um dos destaques do ano.

Na contramão do tarimbado Paul, um garoto canadense de 16 anos lidera o boom na área fonográfica. Trata-se de Justin Bieber, que com My Worlds, no qual está incluída a música Baby, lançado em janeiro deste ano, se mantém no topo dos mais vendidos entre todas as lojas da Cultura, sem contar que sua biografia não autorizada (Justin Bieber – uma biografia não autorizada) também figura entre as mais requisitadas nas estantes. Porém, os brasileiros não podem reclamar. “Maria Gadu é a artista mais importante da nova geração”, sentencia João Paulo. As duas edições disponíveis (CD e LP homônimos) encontram-se entre os 10 CDs mais vendidos do ano. Outra cantora, Karina Buhr, é destaque principalmente em Recife e São Paulo. Quem também tem um apelo em Pernambuco é Roberta Sá. “As principais apostas para 2011, dentro da renovação ano a ano de cantoras de MPB e pop brasileiras, as mais cotadas são Monique Kessous, Luisa Maita, Tulipa e Nina Becker”, pontua João Paulo. Mas não dá para deixar de fora o meteórico Luan Santana nem a banda Restart. “O público da unidade Pompeia é responsável pelos principais números de artistas jovens”, complementa.

Já quando o assunto é música internacional, os dados estão lançados para os discos de Amy Winehouse (que tem confirmados shows em quatro capitais brasileiras no verão de 2011), Radiohead e The Strokes.

O som do ano para Fernanda Takai é o de Tracey Thorn, Love and Its Opposite, novo álbum solo da vocalista do Everything But The Girl. “É uma de minhas bandas preferidas, o EBTG. Com seu timbre de veludo, Tracey retorna com ótimas composições e tocando piano e violão básico”, descreve Fernanda, que não tem do que reclamar sobre 2010. O CD Música de brinquedo, do Pato Fu, voltado ao público infantojuvenil, é o mais comercializado na rede neste ano.

Colecionáveis

Revista da Cultura, dezembro de 2010 #41Para Fabio Outsuka, do Departamento de Compras da Livraria Cultura, o que marcou muito 2010 foram alguns trabalhos da própria Cultura, ao resgatar e até mesmo criar um catálogo tanto de CDs quanto de DVDs. “Os títulos da Coleção Cultura, principalmente os de instrumental brasileiro (Os Ipanemas, À vontade mesmo, Edison Machado é samba novo, Embalo Trio), estão entre o que mais ouvi em 2010. O centenário do grande ícone do samba paulista, Adoniran Barbosa, também esteve muito presente em minhas caixas acústicas e fones de ouvido, de diversas formas, assim como foi marcante a presença de cantoras de jazz no Brasil em tempos recentes, Diana Krall, Stacey Kent, Melody Gardot, Madeleine Peyroux e, agora, Norah Jones”, considera Outsuka.

A escritora Martha Medeiros lançou o romance Fora de mim neste ano e já figura entre os mais vendidos do país. Aliado a isso, comemora o sucesso de dois de seus livros adaptados para o teatro (Doidas e santas e Tudo que eu queria te dizer). Martha também destaca o espetáculo Quidam, do Cirque du Soleil, In On It e Fuerza Bruta, “espetacular, que assisti em Nova York”, complementa a escritora. Na área literária, Martha se volta para Surdo mundo, de David Lodge, Invisível, de Paul Auster, Eles foram para Petrópolis (de Ivan Lessa e Mario Sergio Conti, encerrando sua lista de favoritos com Os íntimos, de Inês Pedrosa).

Para o escritor baiano Ruy Espinheira Filho, 2010 foi um ano mais para recordar. “Reli meus grandes poetas. Gente como Flaubert (Correspondência), Pierre Van Paassen (Estes dias tumultuosos e Somente nesse dia), O livro de San Michele, de Axel Munthe, Lewis Carroll (para me limpar da abominável Alice que jogaram no cinema), Plutarco, Machado de Assis (contos e romances), entre outros”, destaca Ruy.

Revista da Cultura, dezembro de 2010 #41De livros novos brasileiros, o escritor aponta Beira de rio, correnteza, de Carlos Barbosa, e O albatroz azul, de João Ubaldo Ribeiro. Outros livros deste ano: 2666, de Roberto Bolaño, Sou dona da minha alma – O segredo de Virginia Woolf, de Nadia Fusini, Akropolis, de Valerio Massimo Manfredi. “Uma alegria particular foi receber a notícia do Prêmio Nobel dado a Mario Vargas Llosa, que o merecia há muito tempo”, ressalta Ruy.

As adaptações para o cinema foram responsáveis pelas maiores vendas de biografias na filial de Brasília, segundo Felipe Romero, do Departamento de Compras. Comer, Rezar, Amar e Comprometida, de Elizabeth Gilbert, ocupam o topo. Também Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, e O menino do pijama listrado, de John Boyne, se mantiveram entre os mais procurados.”©

Mas Felipe destaca um fato curioso nas duas lojas da Livraria Cultura na Capital Federal. Por conta do aniversário de 50 anos de Brasília, neste ano houve muitas publicações resgatando o passado da cidade e sua construção. “Havia carência de obras sobre o assunto e os lançamentos de 2010 preencheram essa lacuna”, avalia. A história do Brasil também faz história quando o assunto é o interesse do leitor. A dupla assinada por Laurentino Gomes, 1822 e 1808, bem como Guia politicamente incorreto da história do Brasil, de Leandro Narloch, são os mais comercializados em Brasília na área de ciências humanas.

Autor consagrado no Brasil e no exterior, membro da Academia Brasileira de Letras, Moacyr Scliar teme esquecer alguém e prefere destacar o livro que está em sua cabeceira. “2010 foi um ano de excelentes lançamentos literários, tantos que eu teria dificuldade de lembrá-los. O exemplo é o livro que estou lendo no momento, Anne Frank – A história do diário que comoveu o mundo, da respeitada crítica literária norte-americana Francine Prose. Fala-nos da trajetória do famoso diário da menina cuja família se escondeu dos nazistas na Holanda e que acabou morrendo num campo de concentração. O diário mexeu com a vida de muita gente e nem sempre da melhor maneira. É uma incursão às vezes sombria, mas sempre esclarecedora, no mundo da cultura contemporânea”, avalia Scliar.

E por falar em literatura estrangeira, um dos responsáveis pelo setor de importações da Livraria Cultura, Mario Motta, diz que ainda é cedo para fazer apostas para o próximo ano, ao contrário de 2009. “Antes de 2010 começar, eu já sabia da informação do livro do Ken Follett, Fall of Giants. Os principais livros em que apostamos para 2010 foram o do Follet e The Lost Symbol, do Dan Brown. Os dois já têm tradução para o português, e o último teve lançamento mundial em diversas línguas simultaneamente. Acabou de ser lançado também em novembro The Confession, livro de John Grisham, que é sucesso na certa”, diz Motta.

O gerente regional de vendas da Random House Inc., Filipe Silva, destaca três nomes como apostas literárias em 2011. The Land of Painted Caves, de Jean M. Auel, The Emerald Atlas, de John Stephens, e Smokin’Seventeen, de Janet Evanovich.

No escurinho

Revista da Cultura, dezembro de 2010 #41Um dos críticos de cinema do jornal Zero Hora (RS), o jornalista Daniel Feix, enumera uma vasta lista de boas estreias neste ano. Entre elas, o filme italiano Vincere (de Marco Bellocchio), o alemão A fita branca (Michael Haneke), o francês O profeta (Jacques Audiard). “Considero À prova de morte, do Tarantino [Quentin], sensacional, outros franceses (Coco Chanel & Igor Stravinsky é muito interessante), dois coreanos representando o cinema oriental (Mother e Sede de sangue). Mas, se eu tivesse de ficar com um único filme, não hesitaria em escolher o brasileiro Viajo porque preciso, volto porque te amo, de Karin Aïnouz e Marcelo Gomes”, ressalta Feix.

“Quanto à expectativa para 2011, aproveitando as dezenas de títulos que vi na Mostra Internacional de São Paulo, torço muito para que estreiem aqui Tio Boonmee, do genial tailandês Apichatpong Weerasethakul (Palma de Ouro no Festival de Cannes), e dois filmes concebidos em parceria com a televisão – um com quase seis horas, outro com quatro horas e meia –, que estão passando no circuito de festivais e que são cinema da mais alta qualidade, Carlos, do francês Olivier Assayas, e Mistérios de Lisboa, do chileno radicado na Europa Raúl Ruiz”, conclui Feix.

O comprador responsável pela categoria de DVDs-Filmes da Livraria Cultura, Igor Oliveira, destaca que o ano foi mesmo de Avatar, de James Cameron. “Mesmo quem não é chegado nos blockbusters não pode negar a importância do acontecimento para a indústria do entretenimento. Há quem compare a explosão do cinema 3D, que teve Avatar como seu principal expoente, à chegada do cinema colorido em meados dos anos 30. Em ambos os momentos, as salas de cinema há muito não enchiam e voltaram a ter grandes bilheterias”, avalia Igor. Os filmes em 3D, pelo valor do ingresso, também trazem um aumento considerável no faturamento dos cinemas. Tudo isso reflete no mercado de home video também no campo das novas tecnologias. “Avatar foi um marco na venda de Blu-Rays, recorde absoluto nas vendas do formato no Brasil. Saiu no fim de abril em edições simples, em DVD e Blu-Ray, e voltou em novembro em novas edições especiais recheadas de extras e contendo a versão estendida do filme”, complementa, apontando ainda como um dos destaques do ano Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton, lançado em Blu-Ray e DVD. E aponta: “Uma novidade na área foi o lançamento de Roque Santeiro, que inaugurou no mercado brasileiro as edições de novelas em DVDs e repetiu o sucesso das séries brasileiras da Rede Globo. Entre os destaques das edições exclusivas da Livraria Cultura, encontram-se Ensina-me a viver, Reds, O vento será tua herança e Acorrentados. Também a coleção Cultura Mostra, uma parceria da Cultura com a Mostra Internacional de Cinema, teve os primeiros lançamentos, que foram Canções de amor, Shortbus, Horas de verão, Vocês, os vivos e Taurus”.

Algumas boas opções para presentear no Natal são os Blu-Rays, séries de TV e clássicos em animação. Igor faz a sua lista. Das séries: “The Pacific, Modern Family – 1ª temporada, Lost – 6ª temporada – A temporada final e 24 horas – 8ª temporada”. Entre os Blu-Rays e edições especiais: “O senhor dos anéis – A trilogia estendida (DVD), De volta para o futuro (Blu-Ray), Alien – Antologia (Blu-Ray), Noviça Rebelde – 45 anos (edição especial)(2 BDS + DVD), Two and a Half Men – 5 temporadas – Edição especial (DVD)”. Entre as animações que estão para sair, “A edição em Blu-Ray de Fantasia terá entre os extras um curta-metragem concebido por Walt Disney e Salvador Dalí. E, para agradar também os adultos fãs das animações, Akira será lançado em Blu-Ray’’, antecipa Igor. Tivemos um ano farto, com lançamentos importantes e sem prazo de validade, que poderão ser aproveitados a qualquer tempo. Que venha melhor ainda o primeiro ano de uma nova década!©

 

Fonte: escrito por Ana Nejar para Revista da Cultura, dezembro de 2010 #41.

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