A história do contrabaixo – Parte VI


A História do Contrabaixo - Parte 6A Concorrência

O enorme sucesso do Precision Bass (Figura 1) a partir de 1952 despertou a atenção de outros empresários em uma América ávida por novos empreendimentos e que ainda estava se reerguendo dos ecos da Segunda Guerra Mundial.

“Ora, não deve ser difícil fabricar um desses!”. De acordo com os registros históricos, essa foi das primeiras frases pronunciadas por muitos empresários que examinavam minuciosamente o modelo do primeiro baixo elétrico da história, empreendedores que estavam firmemente dispostos a entrar em um mercado até agora única e exclusivamente dominada pelo Precision Bass.

Vamos interromper um pouco a nossa narrativa. Seria conveniente, neste ponto da história, fazer uma pequena reflexão sobre alguns detalhes que aprendemos até agora, que nos ajude a entender o que se seguiu. Até agora, conhecemos onde tudo começou – a grande batalha travada por Leo Fender e seus seguidores, da sua pequena empresa de concertos de aparelhos de rádio até a presente data da história, 1953. Muita coisa aconteceu. Algumas boas e outras ruins.

A História do Contrabaixo - Parte 6Vamos começar pelas boas. Finalmente, o mundo conheceu nosso amado instrumento. Apesar da desconfiança inicial, o P Bass decolou e se tornou um sucesso absoluto de vendas durante o ano de 1952. Por outro lado – e deixando o romantismo de lado – era inegável que Leo Fender, um visionário genial e obstinado, era, antes de tudo, um técnico em rádio, obcecado pela amplitude do sinal, de onde quer que ele viesse, fosse de um violão elétrico, da primeira guitarra (a Telecaster) ou de um simples aparelho de rádio.

Ou seja, nosso inventor não era propriamente um músico ou luthier especializado que pudesse identificar os graves problemas de construção presentes no P Bass em seus primórdios. Na verdade, ninguém imaginou que a invenção do baixo elétrico se transformaria em um dos divisores da história da música. Vimos também como foram importantes os primeiros bandleaders – como Lionel Hampton -, que levaram o status do instrumento a item obrigatório em suas orquestras, apesar dos inúmeros protestos de diversos músicos apegados a suas tradições. Seriam estes indivíduos contra tudo que seria, a princípio, inovador, velhas múmias paradas no tempo?

A resposta é: não! É fácil para nós, que não vivemos aqueles tempos, examinar com absoluta frieza os primeiros Precision Bass fabricados em linha de produção. O motivo principal da criação do baixo elétrico foi proporcionar conforto ao músico e fazer com que um pequeno instrumento pudesse soar como um grande contrabaixo acústico. O primeiro grande erro de projeto de Leo e sua equipe foram acreditar que, resolvendo estes problemas, o resto seria fácil. No capítulo anterior, vimos que as coisas não eram tão simples assim. A principal crítica ao revolucionário instrumento era que as notas muitas vezes soavam de forma semitonada, ou seja, com diferenças nada sutis de altura.

O problema era específico: o primeiro sistema de pontes que Leo Fender utilizou trazia duas peças de suporte para cada grupo de duas cordas e provocava sérios problemas de entonação no braço. Muitos dos críticos que condenavam o novo instrumento insistiam neste ponto e com razão. Na equipe de Leo existiam muitos jovens empregados que resolveram verificar com maior apuro os motivos destas reclamações por parte dos músicos e dos críticos.

A História do Contrabaixo - Parte 6

Constatado que realmente existia este problema, foram trocados os sistemas de pontes a partir de 1953. O novo modelo Precision, fabricado a partir de 1954 já possuía este novo mecanismo, desta vez com um sistema de suporte para quatro cordas. O lendário instrumento ainda possuía outro grande problema, que apenas os anos de uso iriam apontar, mas isto será o tema de nosso próximo capítulo. O sucesso inesperado pode também ter contribuído para embotar um controle melhor de qualidade por parte de nossos bravos pioneiros.

Um mercado potencial estava surgindo, sedento por novidades, que tinha na Fender Radio & Television Equipment o único fabricante de uma nova idéia. Com isto surgiu o primeiro grande inimigo: a concorrência. O primeiro instrumentos que os registros apontam foi o Kay, criado na primeira metade de 1953 por um consórcio de luthiers que construíam baixos acústicos.

Tratava-se de um projeto-conceito, baseado em um obscuro instrumento (que infelizmente se perdeu na história) usado pelo baixista da banda de Woody Herman, Chubby Jackson, no final dos anos 40. Ele se parecia com os modernos baixos acústicos usados até hoje, mas a vantagem era o preço. Enquanto que um P Bass custava US$ 199,00, o Kay tinha seu preço fixado em US$ 140. O projeto não se desenvolveu devido à dificuldade de tocabilidade e por falhas na construção dos sistemas de captadores, que provocaria ruídos estáticos junto aos sistemas de amplificação, segundo relato a historiadores do instrumento.

A Gibson, então apenas uma construtora de violões e outros instrumentos de corda, apresentou ao mundo dos graves seu primeiro modelo: o EB-1 (Figura 2), com um revolucionário corpo em mogno (e não oco, como muitos pensavam) que lembrava o violino. Nos instrumentos acústicos, existem duas aberturas no tampo frontal chamado F holes com a finalidade de expandir as ondas sonoras.

O EB-1 possuía os mesmos orifícios só que simulados. A novidade atraiu um nível relativo de vendas, apesar de críticos e músicos afirmarem que a empresa levou em consideração apenas o aspecto visual, ignorando totalmente a ergonomia. Em resposta a estas criticas, a empresa lançou em 58 o modelo EB-2, cujo corpo se assimilava à guitarra ES-335.

Por sua vez, a Hofner, outra tradicional empresa de instrumentos acústicos, estabelecida na Alemanha a partir de 1880, entrou no mercado com um novo instrumento, que se assemelhava muito com o modelo fabricado pela Gibson. Tratava-se do Hofner 500/1 (Figura 3), criado em 1956 e chamado de violin bass.

Todos estes modelos, a princípio, não representavam ainda uma ameaça direta ao poderoso P Bass. No entanto, algo inesperado surgiu no horizonte e que realmente chamou a atenção de todos: a Rickenbacker.

A História do Contrabaixo - Parte 6Roger Rossmeisl, um luthier alemão aceitou a oferta da empresa para trabalhar no sul da Califórnia, com a responsabilidade de desenvolver o primeiro contrabaixo elétrico da companhia. O corpo foi inspirado nos guitarristas de jazz alemães, a escala do baixo era alguns milímetros maiores que o Precision e trazia uma característica que contribuiu para a uma confortabilidade no quesito execução de notas na região mais aguda da escala: a escala se iniciava no final do braço, fazendo com que as notas localizadas a partir do décimo segundo traste pudessem ser facilmente executadas.

Com base nestas pesquisas, finalmente em 1957 surgiu o lendário modelo 4000. Seu design revolucionário rendeu muitas vendas e começou realmente a preocupar os executivos da Fender, mas por pouco tempo. O novo modelo da Rickenbacker tinha um sério problema de entonação nas cordas que viria a ser solucionados anos depois, além de problemas de ajustes no braço. (o sistema de colagem ainda era imperfeito).

No final daquele ano, outra novidade surgiu: o Danelectro UB2, construído pelas mãos do luthier Nathan Daniel, cujo projeto havia sido iniciado dois anos antes. Era um instrumento que já possuía uma boa ergonomia, em virtude do seu design, e a principal novidade: seis cordas! Possuía uma afinação semelhante à guitarra, só que uma oitava abaixo. O instrumento foi um relativo sucesso de vendas, sendo usado para gravações nas primeiras bandas de rock n’ roll. O Danelectro tinha como característica sonora um som abafado e percussivo, que originou seu apelido de “Tic-Tac”.

A entrada da lendária Rickenbacker serviu para demonstrar que outras empresas poderiam competir com a Fender. O 4001 (Figura 4), lançado um ano depois, iniciou uma nova escalada de boas vendas, o que fez que, pela primeira vez, os executivos da Fender se reunissem para questionar o que poderia ser melhorado no velho e bom Precision Bass.

A resposta veio no ano de 1958, com algo que iria revolucionar o mundo dos graves, considerado por muitos historiadores como mais uma estratégia de marketing do que propriamente uma nova revolução. Mas isto você saberá no próximo capítulo.

 

Fonte: Escrito por Nilton Wood, da redação TDM. Nilton Wood, professor de baixo elétrico da EM&T, conta a história do instrumento musical desde os seus primórdios.

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