Seja independente


Velhas VirgensIndependência ou morte! Esse é o mais novo trabalho do Cavalo. Um livro que é um guia pra quem quiser montar sua estrutura independente. O que temos aqui é o prefácio da publicação que logo estará disponível na íntegra na loja da Gabaju Records. Será um livro rápido e prático contando a experiência das Velhas Virgens na independência. Lançamento previsto para o segundo semestre de 2008.

Prefácio para o guia

Não tenho a pretensão de resumir é a vida artística independente. E sei que não vou conseguir fazer isso na sua totalidade durante o livro inteiro, mesmo por que as coisas mudam – e a minha cabeça também.

O mercado fonográfico finalmente se deu conta das mudanças que estão ocorrendo no mundo e está tentando acompanhar com um atraso que pode ser fatal. Demoraram muito pra acordar e vão ter que correr pra alcançar os avanços de artistas mais criativos. E acredito que o fato de as gravadoras e os selos independentes abocanharem mais da metade das vendas dos CDs comercializados legalmente é um dos responsáveis por essa mudança de mentalidade.

Fazer parcerias, músicas com qualidade (qualitativo e não o quantitativo), trabalhar em conjunto com os criadores buscando melhorar suas carreiras são apenas algumas das qualidades que os independentes resgataram e que estavam se tornando “obsoletas” num mercado que visa, cada vez mais, o lucro como fim e não como conseqüência de um bom trabalho. Está na hora de reverter esse quadro. Empresas não são apenas para dar lucro. Têm que colocar para o público produtos de qualidade (não estou questionando estilo e nem gostos pessoais).

As grandes gravadoras já perceberam isso e estão realizando uma mudança forçada e um tanto tardia, nessa direção. Estão sentindo na pele que somente a venda de cds não segura mais a onda, que precisam cuidar das carreiras e não somente de um produto, e, principalmente, que música não é para ser vendida que nem sabão em pó. Claro que eles não vão dar o braço a torcer. Vão continuar lançando porcarias. Isso é uma crise mundial. Sempre foi assim. Mas dá pra farejar as mudanças no ar!

A música é para ser, tanto rebelde e revolucionária quanto bonita e talentosa. Para se fazer isso não existe manual. O que existe é uma busca constante por quebra de limites, criação e aprimoramento. A criatividade pode vencer barreiras inimagináveis. Então vamos botar nossas cabeças pra funcionar. Temos que ser músicos, sim! Temos que pensar em como levar nossa música ao público também. Sair da garagem é preciso. Mudar o mundo é preciso! Vou falar sobre isso e outras coisas no decorrer deste livro e espero que, de alguma forma, essas reflexões sobre a viabilização do trabalho musical sejam proveitosas.

Vocês vão ler sobre a experiência que tive e continuo tendo ao lado das Velhas Virgens em nossos mais de vinte anos de estrada e da Gabaju com mais de dez anos como gravadora independente. São mais de 150 mil CDs vendidos entre todos que lançamos, 25 mil DVDs, inúmeras camisetas, canecas, abridores de garrafa, calcinhas, roupas femininas e revistas vendidas em bancas, em lojas normais, na loja virtual e na loja dos shows com a marca Velhas Virgens. Vou contar todo o trabalho que estamos fazendo com a marca da banda, transformando um sonho numa forma de ganhar a vida de maneira sustentável.

Desejo coragem pra encarar os desafios que virão, persistência, coerência e sorte pra todos nós!

Independência

O que é ser independente? “A independência é a condição de uma pessoa ou coletividade que não se submete a outra autoridade e se governa por suas próprias leis.”

Lendo daqui imagino que deva ser fácil fazer. Minha experiência e a experiência de muitas pessoas que convivi durante esse tempo todo mostra que não é tão simples assim.Vamos rapidamente colocar a noção de independência dentro do contexto da produção musical.

Hoje parece bonito bater no peito e gritar que é um “independente”, que não precisa dos apoios de gravadoras, empresários ou mídia. Mas a coisa não é bem assim. Para o artista que já foi do “mainstream”, isto é, o cara que já conheceu o sucesso, a independência parece um caminho natural para se obter maiores ganhos, fixar um público cativo e manter a coerência do trabalho. Não é para esse cidadão que quero falar. Esse conhece os caminhos e meandros do estrelato e sabe o que pode fazer. Isso não o isenta de cometer erros fantásticos. Porém, leva a vida. Quero falar com as pessoas que estão começando e querem se jogar no mundo da música. Pessoas que querem começar uma carreira, trabalhar e ter seu lugar ao sol como artista.

Não importa o estilo ou caminho, a verdade é que, ou se tem muita sorte e grana ou terá que se trabalhar e ralar muito. Então vamos aos que realmente querem cair na estrada, comer poeira por esse mundo tocando e cantando suas canções.

Ser independente é criar, de alguma forma, uma maneira de sobreviver da sua música de forma coerente com seu trabalho artístico sem abrir concessões que desvirtuem as características da sua obra e sem precisar de investimentos absurdos de gravadoras de grande porte no início.

O próprio artista estabelece suas “leis”. Essas normas vão se forjando de acordo com o caminho que pretende percorrer. Isso passa pelo amadurecimento da banda, lapidação do estilo, aprimoramento técnico e artístico, formação de um público fiel que também influenciará e de forma direta na criação musical. Dentro dessas variáveis, existe seu código de conduta estético e ético. Não ceder a certas pressões faz parte do ser independente. Mas também pensar e analisar friamente críticas e propostas também faz.

Ser independente não quer dizer que você não possa aceitar ajuda de ninguém. Isso é burrice. Desde que não venha com imposições absurdas, as ajudas externas serão sempre bem-vindas. Infelizmente, elas são cada vez mais raras no nosso atual mercado.

Ter ou não ter parcerias não é relevante para a independência. Tem um monte de bandas que se associam com gravadoras e distribuidoras de diversos portes para viabilizar seus projetos.

A independência requer essas parcerias. Parece contraditório, mas, se bem analisado, veremos que o caminho fica mais curto para qualquer artista quando arruma parceiros.

A independência exige que você tome as rédeas de sua vida e do seu trabalho. As decisões ficam todas nas suas mãos, isso aumenta muito a responsabilidade e o deveres como também aumenta muito a sensação de conquista e a paz de espírito.

Foi isso que aconteceu com as Velhas Virgens em meados de 1998. Nós havíamos acabado de gravar nosso terceiro CD e as perspectivas de lançá-lo não eram nada promissoras. Vínhamos de duas experiências com selos independentes completamente diversas. O primeiro saiu por um selo cujo dono era um vigarista e quase acabou com a banda. O segundo chamava-se Primal, um selo da gravadora Velas, onde fomos tratados com respeito e tudo saiu melhor.

Enfim, vínhamos de dois CDs e muita turbulência. O mercado estava entrando numa época muito difícil para o rock. O fato é que, ou arrumávamos um jeito de lançar o disco ou iríamos ficar na maior roubada, com risco até de ter que acabar a banda.

Resolvi então criar a Gabaju Records para lançar os CDs das Velhas por falta de opção melhor e como alternativa de negócio. Não foi fácil convencer todo mundo que esse era um caminho a ser trilhado e que o tempo mostraria ser nossa tábua de salvação.

Todos ainda tinham aquela visão dos anos 80 em que uma banda entrava numa grande gravadora, recebia um cheque gordo de adiantamento e saia tocando nas rádios. O problema é que as grandes gravadoras já não estavam tão grandes e tão fortes e os cheques eram escassos e magros.

A criação da gravadora era um caminho possível, tanto que, depois daquele CD, já lançamos outros tantos, DVDs e uma linha de produtos com a marca das Velhas Virgens. Tudo isso pra dizer que a independência pode ser um caminho natural da banda ou simplesmente a única alternativa.

Como ter certeza de que vai dar certo? Não há garantias. Vai depender do talento, da capacidade de organização e persistência da banda como um todo. Uma vez fomos levar uma demo para o Pena Schmidt (produtor), na época lançando discos pelo selo Tinitus. Paulão e eu tivemos uma pequena conversa com ele e ouvimos coisas desagradáveis, mas que mudaram nossas vidas.

O Pena disse que a vida musical exigia uma vitalidade extraordinária. Que nós iríamos gastar toda nossa grana, iríamos gastar todo nosso tempo e ainda assim tudo poderia dar errado. O lance era sair tocando o máximo que puder. Tocar em todos os lugares, que as chances apareceriam por conta do trabalho.

Na época foi muito difícil pra gente ter que ouvir isso e muito mais coisas que não cabe aqui reproduzir. Foi então que nós paramos de fazer aquelas demos terríveis e nos concentramos nos shows. Foi quase que com ódio que nos jogamos na empreitada. Como alguém podia falar assim com a gente? Pensávamos, ingênuos. O pior é que ele tinha razão. Mudamos nosso foco e em pouco tempo estávamos lançando o primeiro trabalho.

Não espere ninguém fazer por você. Caia na estrada. Se sua banda realmente tiver talento e alguma coisa diferente pra mostras, as chances aparecerão. Tome as rédeas de sua vida e faça acontecer.

 

Fonte: site da banda Velhas Virgens.

 

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