Curitiba tem cult que o Brasil desconhece


Curitiba tem cult que o Brasil desconhece

Há alguns meses, a Ancine (Agência Nacional do Cinema) realizou auditoria numa pequena distribuidora paranaense, que insistia em registrar números, aparentemente, exagerados em relação a um único filme exibido numa única sala de uma única cidade.

O filme era “Morgue Story – Sangue, Baiacu e Quadrinhos”, do cineasta estreante Paulo Biscaia Filho. A auditoria da Ancine apenas comprovou o que os frequentadores do Cineplex Batel, em um bairro nobre de Curitiba, presenciaram por dois meses: as poucas sessões da produção de Biscaia enchiam continuamente a sala onde era exibida – primeiro, a cada dois dias; depois, com duas sessões diariamente. No período, “Morgue Story” teve 1.205 espectadores pagantes e renda de R$ 6.908.

Curitiba tem cult que o Brasil desconhece“Logo na estreia, o filme teve a maior abertura daquela sala nesse ano, e a média de público seguiu como a maior entre todos os filmes. Foi a contramão de qualquer previsão”, exalta o diretor.

O segredo – e sucesso – de “Morgue Story”, exibido também no Festival de Cinema do Rio de 2009, começa bem antes do filme. Remonta a abril de 2004, quando Biscaia, fundador do grupo teatral Vigor Mortis, colocou em cartaz na capital do Paraná o espetáculo de mesmo nome, do qual ele foi autor do texto e diretor da encenação, entre outras atividades.

Curitiba tem cult que o Brasil desconheceNos palcos, a história da roteirista de quadrinhos Ana Argento, mesclando terror e comédia, emplacou por três anos, sempre bem-sucedida. O enredo acompanha as peripécias da protagonista em um necrotério, onde ela é levada por um médico pervertido, após ser envenenada pela toxina do peixe baiacu, ingerida em um drinque Manhattan. Para ajudá-la a se salvar, Ana terá que contar com a ajuda de um vendedor de seguros que sofre de catalepsia.

Numa salada de referências a cinema, quadrinhos, literatura e cultura pop,Biscaia trabalhou teatralmente o que ele chama de “linha crepuscular”, dialogando fortemente com o audiovisual, tanto na linguagem cênica quanto no uso de projeções em vídeo.

Curitiba tem cult que o Brasil desconhecePor conta dessa mistura, o dramaturgo nunca cogitara fazer um filme a partir de “Morgue Story”, por mais que escutasse comentários de espectadores a respeito.

Não teve jeito: por insistência, inscreveu o projeto de longa-metragem em um edital da Fundação Cultural de Curitiba, em 2007. Foi aprovado e usou verba de R$ 126 mil para fazer adaptar para o cinema o maior sucesso de sua carreira teatral, iniciada nos anos 90.

Filmado em apenas 11 dias, “Morgue Story”, o longa, teve o mesmo elenco da peça – Mariana Zanette, Anderson Faganello e Leandro Daniel Colombo. Na transição de um formato a outro, Biscaia tentou “sair da zona de conforto”.

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“Eu quis criar um bicho novo, mantendo coisas que a gente tinha descoberto fazendo a peça, mas criando novidades especificamente para o filme”.

O que mais animou o diretor foi a possibilidade de “colocar uma quarta parede onde antes não existia”. Isso o ajudou a trabalhar com maior liberdade a movimentação dos atores. “Pude circular mais livremente as marcações de todos eles, sem ter a frontalidade com o espectador, típica do teatro. Minha câmera estava onde eu quisesse”.

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Ironicamente, Biscaia sofreu tantas “cobranças” no filme como na peça. “Quando o Morgue Story estava em cartaz, muita gente me dizia que era cinema demais para ser teatro. Agora, me dizem que o filme é teatralizado demais para ser o cinema”, conta, aos risos.

A triste ironia é que, apesar do grande sucesso local de “Morgue Story – Sangue, Baiacu e Quadrinhos”, o diretor não tem conseguido armar uma distribuição nacional para o filme.

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“É difícil quebrar a arrebentação do nosso circuito exibidor. Ninguém de fora daqui acredita, de fato, que o filme possa funcionar em outros Estados. Os donos de salas acham que o sucesso em Curitiba é pontual e não abrem espaço”, lamenta Biscaia. “Para eles, é só um filme de terror, brasileiro, de baixo orçamento e realizado no Paraná”.

Por conta dessa barreira, Biscaia e a distribuidora Moro Filmes já estão quase desistindo de colocar “Morgue Story” nos cinemas. Eles preparam o DVD do longa para o começo do ano que vem, além de outros projetos. Depois da peça e do filme, o diretor está desenvolvendo quadrinhos baseados na trama.

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Com desenhos da dupla DW e José Aguiar, já parceiros em outros projetos do grupo teatral de Biscaia, a série “Vigor Mortis Comics”, a ser publicada pela editora Zarabatana, não será exatamente uma adaptação do texto original. “As histórias vão funcionar como desdobramentos de personagens contados de forma independente e mantendo o universo trash-terror”, adianta o cineasta.

Biscaia se viu realmente assustado com a nova empreitada. “Foi a transição mais difícil de todas”, conta. “Eu travei. É uma outra linguagem [a dos quadrinhos], é preciso pensar a formatação, a previsão de quadros em cada página… É completamente diferente de tudo. E descobri que eu podia fazer o que quisesse! [risos]“.

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Consumidor voraz de histórias de horror, Paulo Biscaia tem no escritor norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1849) o seu grande mestre. “Ele era um monstro, um autor em pleno domínio da linguagem e capaz de transcendê-la”, comenta.

Não à toa, Biscaia, que tem o nome do escritor tatuado no corpo, já adaptou Poe para o teatro – em uma única peça, em início de carreira, misturou os contos “William Wilson” e “O Gato Preto” – e prepara uma série de curtas-metragens a partir de narrativas do autor. São quatro curtas que serão reunidos na antologia “Nevermore – Três Pesadelos e um Delírio de Edgar Allan Poe”, com previsão de lançamento direto em DVD.

Curitiba tem cult que o Brasil desconheceAnimado, o jovem cineasta já está em pré-produção de um segundo longa-metragem. Novamente, ele quer levar ao cinema uma peça de sucesso. No caso, a também terrorífica “Nervo Craniano Zero”, encenada desde 2009. O diretor já aprovou R$ 180 mil num edital curitibano e pretende filmar em julho do ano que vem.

Material para outros filmes do gênero não faltam. Os nomes entregam o tom das encenações da Vigor Mortis desde a sua fundação, em 1997: “Hitchcock Blonde”, “Pincéis e Facas”, “Garotas Vampiras Nunca Bebem Vinho” e “Santa e Domenica” são algumas das várias peças criadas pela companhia de Paulo Biscaia.

Curitiba tem cult que o Brasil desconheceEstudioso do Grand Guignol, teatro francês que, entre 1897 a 1962, se celebrizou por espetáculos de horror, Biscaia usa a violência como propulsora da criatividade. “Todo mundo se fascina com a desgraça em forma de sangue. Na arte, isso é um pesadelo controlado: você passa pela morte sem necessariamente se encontrar factualmente com ela”, diz ele. “Eu gosto desse interesse natural da humanidade pela violência e o uso para me expressar artisticamente”.

 

Morgue Story – Sangue, Baiacu e Quadrinhos

 

Fonte: Escrito por Marcelo Miranda. Marcelo é crítico de cinema do jornal O Tempo, de Belo Horizonte, e colaborador da revista eletrônica Filmes Polvo. Você pode acompanhar suas matérias também no blog do Polvo.

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