Charlie Brown chega aos 60


Charlie Brown chega aos 60

Em 2 de outubro de 1950, o americano Charles M. Schulz lançou Peanuts, encantando o público logo de cara com as aventuras do menino Charlie Brown, do beagle Snoopy, de Woodstock, Linus, Patty Pimentinha, Marcie e tantas outras personagens dessa aventura publicada em mais de 2.600 jornais. Numa época em que os quadrinhos eram povoados por heróis superpoderosos, como Capitão América, Flash Gordon e Superman, o Peanuts alcançou sucesso com histórias introspectivas, nas quais o protagonista é um menino frágil, com medo do fracasso e cheio de dúvidas existenciais.

Charlie Brown chega aos 60Para Sônia Luyten, tradutora das histórias no Brasil, eles são como filhos. Apaixonada pelo Snoopy, ela acredita que a turma do Charlie Brown tem o mérito de ter iniciado uma nova tendência, denominada por ela de “quadrinhos pensantes”. “Como HQ, causaram grande impacto por causa da época em que foram criadas: logo após a Segunda Guerra Mundial. Elas fazem parte de um contexto em que cada mídia protestava de uma maneira. Na literatura, os existencialistas, na música, o rock and roll, a pop art na pintura… E o Peanuts cumpriu seu papel questionador, dando recados aos adultos pela boca dessas crianças ingênuas, inseguras, verdadeiros losers que representavam a geração pós-guerra”, analisa. Para Sônia, “o cenário simples fez com que a grande carga fosse dada no texto”.

Charlie Brown chega aos 60

Henrique Magalhães, especialista em quadrinhos e professor da Universidade Federal da Paraíba, concorda que, embora o traço de Schulz tenha leveza e graça, é o texto que se destaca. “O universo infantil é apenas o suporte para suas tiradas de cunho filosófico.” Henrique tem Charlie Brown como personagem preferido. “Gosto de sua fragilidade e delicadeza. Ele encarna as fraquezas humanas, o medo de perder, de ser incompetente. Quem não se identifica com isso?”

Além disso, surgiram numa época em que os quadrinhos eram tidos como um desvio da leitura. “Eram taxados de paraliteratura. A criação de Schulz serviu para dar um tom mais sofisticado, conquistando quem lhe era avesso”, defende Henrique. “Eles trazem reflexões sobre os dilemas humanos, tratando-os de forma poética. Outros autores seguiram essa linha, compondo o que chamamos de ‘quadrinhos autorais’, como o Quino, com Mafalda, e Claire Bretécher, com Les Frustrés e Agrippine”.

Charlie Brown chega aos 60Cachalote [texto de Daniel Galera], copiava obsessivamente os Peanuts quando mais jovem. “Adorava. Gosto do tom intimista, de certa melancolia que vem junto com o humor refinado. Acredito que eles influenciaram desde Garfield, Hagar, Calvin e Haroldo até o Bob Esponja”.

Charles Schulz gostava das tirinhas do Popeye e dos desenhos da Disney. Aos 20 anos, foi lutar na Segunda Guerra Mundial como soldado e manteve lá um caderno de desenhos. Ao regressar, escreveu que o exército tinha lhe ensinado tudo o que precisava saber sobre a solidão. De lá para cá, o Museu Charles Schulz, fundado em 2002 em Santa Rosa, na Califórnia, estima que mais de 90 milhões de pessoas no mundo tenham lido suas tiras. Mais de 20 mil produtos foram licenciados com a imagem dessa turma e, entre outras honrarias, Schulz ganhou estrela na calçada da fama, em Hollywood.Charlie Brown

Depois de desenhar a turma do Charlie Brown por 50 anos, preferiu que ninguém mais o fizesse. A última historinha saiu em 13 de fevereiro de 2000, um dia depois de sua morte, e anunciava sua aposentadoria, dizendo: “Charlie Brown, Snoopy, Linus, Lucy… eu jamais poderia esquecer vocês…”©

 

Escrito por Roberta Ávila.

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