Rogério Sganzerla


Rogério SganzerlaNa preparação do livro “Por um Cinema sem Limite”, que Rogério Sganzerla publicou em 2001 pela editora Azougue, sua filha caçula, Djin, teve participação fundamental. “Tive uma função de secretária, revisando e formatando os textos dele”, relembra a atriz, aos risos.

Essa mistura de âmbito pessoal com produção artística e intelectual é o mote central da “Ocupação Rogério Sganzerla”, exposição em cartaz gratuitamente no Instituto Itaú Cultural, em São Paulo, até o dia 18 de julho – e na qual a reportagem esteve na última quarta-feira. Trata-se da primeira reunião pública de parte do vasto acervo que o catarinense Sganzerla – morto em 2004, aos 57 anos – deixou guardado em dois armários. São anotações, fotografias, objetos, roteiros, cartas, textos críticos, que perpassam não apenas a carreira, mas a vida inteira de um criador genial, responsável por “O Bandido da Luz Vermelha” (1968) e “A Mulher de Todos” (1969), entre tantos mais.

Rogério Sganzerla“Um espaço dedicado às artes contemporâneas é ideal para reverberar a poética do Rogério através de seu caráter fragmentário”, define o cineasta Joel Pizzini, curador da exposição.

Ao longo dos últimos 12 meses, Pizzini e equipe se dedicaram a vasculhar o material deixado por Sganzerla e guardado por sua esposa por 37 anos, a mítica atriz Helena Ignez, e por suas filhas, Djin e Sinai. O que foi selecionado para o Itaú Cultural transmite a noção “polifônica do multiartista”, segundo Pizzini, através de três eixos relacionados à obra do diretor: luz, abismo e caos.

Rogério Sganzerla Cena do filme o Bandido da Luz VermelhaA exposição consiste numa mistura interativa de imagens, músicas e letras. Inclui roteiros de Sganzerla (“uma grande descoberta, que pouca gente conhecia”, diz o curador), trechos de filmes inacabados ou perdidos (como “Carnaval na Lama”, o qual ninguém sabe onde está) e um segmento dedicado ao cinéfilo e pai Sganzerla, com credenciais de jornalista, máquina de escrever, câmeras e dois escritos incríveis – um cartão-postal para o “incorrigível Julio Bressane” e para a “Helena linda”, enviado na época em que Bressane e Ignez eram namorados, e uma carta à filha Sinai, então com 9 anos, na qual ele se mostra um pai afetuoso e, nas entrelinhas, celebra a presença de Orson Welles – seu maior ídolo – num determinado festival de cinema.

Rogério Sganzerla Cena do filme o Bandido da Luz VermelhaSeis anos depois da morte de Rogério Sganzerla, 2010 parece ser especial à sua memória. Ainda que o diretor nunca tenha saído da reflexão sobre os caminhos do cinema brasileiros – não apenas pelos seus vários longas e curtas desde 1967, mas também pelo trabalho final da carreira, o impressionante “O Signo do Caos” (2003), a exposição no Itaú Cultural se soma a uma série de ações que vão garantir presença contínua de Sganzerla na mídia cultural.

Em julho, dois livros reunirão os textos críticos escritos por Sganzerla em duas fases: a primeira, quando, antes dos 20 anos de idade, ele se tornou colunista do jornal “O Estado de S. Paulo”; a outra, já nos anos 80, do alto de uma experiência precoce reforçada pela produção continuada de filmes provocativos e ousados.

No final do ano, chegará aos cinemas “Luz nas Trevas – A Volta de Luz Vermelha”, filme dirigido por Helena Ignez e Ícaro Martins a partir de roteiro deixado pelo próprio Sganzerla. No elenco, o cantor Ney Matogrosso encarna o personagem vivido intensamente por Paulo Vilaça em 1968. “Luz nas Trevas” era um dos projetos mais sonhados por Sganzerla: uma continuação de “O Bandido da Luz Vermelha” de teor “menos intelectualizado, mais pop, mais gibi”, como disse em 1998.

Rogério SganzerlaFora isso, há dois longas de Sganzerla disponíveis em DVD (“O Bandido da Luz Vermelha” e “Sem Essa, Aranha”) e outros devem surgir em breve. “Os filmes ainda soam como um escândalo, com toda aquela inteligência e humor. Ao mesmo tempo, é tudo absolutamente pessoal”, exalta a filha, a atriz Djin Sganzerla. “Queremos restaurar essa obra e trazê-la ao público como foi feita: em sua máxima potência e visceralidade”.

Para o carioca Julio Bressane, ex-sócio da produtora Belair com Sganzerla e Helena Ignez em meados dos anos 60 (juntos, fizeram seis longas-metragens em dois meses), ter o acervo pessoal do diretor colocado diante do público é “um tipo de milagre”. “É uma obra que serve como instrumento de autotransformação. Não pedem explicação, e nem são feitas a isso, como todo tipo de imagem moderna. Eles pedem e exigem uma interpretação. Isso não se concilia com a tirania do aspecto comercial que está aí hoje, nessa política genocida que se pratica no atual cenário do cinema brasileiro”, dispara Bressane.

O gerente do núcleo de audiovisual do Itaú Cultural, Roberto Cruz, conta que a escolha de Rogério Sganzerla para o projeto Ocupação foi coerente aos artistas anteriormente definidos – dentre eles, o dramaturgo Zé Celso Martinez Corrêa e o poeta Paulo Leminski. “São todos iconoclastas”, resume Cruz. “A grande originalidade da atual exposição foi não trabalharmos especificamente com os filmes de Sganzerla, mas com o processo de sua criação e pensamento”.

Escrito por Marcelo Miranda. Originalmente publicado em O Tempo no dia 12/06/2010.

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