Fellini em um ato. Genialidade de um grande mentiroso


Frederico FelliniMagnificância e genialidade são preceitos que dizem respeito à poucos, bem poucos! Aliás, considerar alguém como gênio ou como um ser a frente de seu tempo sempre pode parecer uma grande presunção, mas no entender dos conceitos significa apenas considerar um ofício ou apenas uma obra como sendo de vital importância ou um grande trabalho que exprime a todos os gostos, uma qualidade certeira que envolve o entendimento e o aprecio pela arte, como gritarmos “bravo” ao final de uma peça de teatro ou como aplaudir o final da execução de uma sinfonia ou até de um filme. Em se tratando de filmes podemos dizer que quem mais exprime este detalhamento pelo conceito é o cineasta italiano Frederico Fellini, grande construtor de obras de grande significância para o cinema, para a narração e também grande influenciador de vários conceitos e movimentos cinematográficos.

Frederico FelliniSua obra exemplar de tão extensa se faz necessária para a admiração, em uma vida atuante e árdua em cima do preceito de fazer filmes, transformando de vez a Itália como um pequeno país de vários artistas, tendo Fellini alimentado esta forma por transmitir à frente de sua obra, o conceito da originalidade e criação propagante, fazendo de si mesmo um ícone do universo artístico.

Começando em colaboração com outros cineastas no começo da carreira, como escritor dos filmes de Rossellini, e de outros, ajudou a criar o que seria o neo-realismo italiano, tanto na forma de se fazer filmes como na concepção de novas artimanhas em narração e roteirização,Frederico Fellini além de promulgar o contexto de visualização intensa, fazendo da imagem de seus futuros filmes, imensas telas de arte como em quadros, construindo assim, um panorama artificial de ideologia sentimental e criativa. Sua capacidade em fazer de imagens sentimentos, levou sua fama para os mais variados países, lhe dando prestígio universal pelo seu cinema, sendo ele também um grande revelador de atores e atrizes que entraram para o gosto popular do cinema graças a sua graça como diretor e pelo seu empenho em desenvolver belas cenas.

Frederico FelliniTemas como o amor, a humanidade e a perversidade são temas sempre presentes em seus filmes, tudo tratado com certa ponderância e humor, característica típica de cineastas italianos, junto ao empenho da direção firme e consistente que fazem de sua figura uma enigmática construção de um ser icônico e desbravador do mundo pela tela. Entre seus maiores clássicos já feitos, podemos proclamar “A Doce Vida” como sendo seu grande filme, botando o ator Marcello Mastroianni no papel de um jornalista em dúvida de seus conceitos em confronto com a vida elevada de ricos e enfadonhos burgueses, juntando a presença da atriz sueca Anita Ekberg, em cenas memoráveis como a da fonte de água em Roma, e outras que apontam as ruas da capital italiana, fazendo da cidade um grande protagonista em potencial, filme clássico da história universal e da filmografia de Fellini, inventor do conceito do “paparazzo”, que no filme é apresentado como um fotógrafo xereta, que conceituou então a classificação do fotógrafo de celebridades como sendo o “Paparazzi”. O filme possui uma narrativa concisa e diversificada, Fellini junta vários temas em uma trama só, saindo do habitual e indo para o original, e sem muito esforço de artimanhas cinematográficas, o foco é no enredo e na dramatização dos atores e do roteiro afiado composto em seus longas.

Frederico Fellini - Cenas do filme La Dolce Vita de 1960“A Doce Vida” foi um grande sucesso com cenas contagiantes e memoráveis, ficou para história do cinema e sempre será lembrada, assim como muitos outros filmes de Fellini, tendo em “Fellini 8½” a grande elevação do conceito de seu cinema. Filme definitivo em sua capacidade criativa, demonstrando toda a força que o cineasta pode tem sendo através de um bloqueio criativo onde quase desistiu da realização de um filme, vendo perante o bloqueio uma saída de transformar aquilo em um filme, esta foi a base de criação do enredo de “Fellini 8½”, misturando surrealismo com todos os dilemas da criação de um obra. No filme Marcello Mastroinanni é um estimado diretor de filmes, que reúne elenco e equipe técnica em uma clínica de repouso para trabalharem em um próximo projeto, o porém é que não roteiro e nem filme, todos vão sendo enrolados durante todo o filme, incluindo visitas de sua esposa, namorada e amante em um mesmo local. Belíssimas atuações de Arouk Aimé, Claudia Cardinale e a completa desvirtuação de que Mastroianni é e sempre será um dos melhores atores filmográficos de todos os tempos.

Frederico Fellini - Cenas do filme 8 1/2Antes destas contemplações, Fellini atuou dentro da política fascista e se escapou do alistamento por pura esperteza, trabalhou como desenhista e colunista fazendo desde já um trabalho criativo, muitos de seus desenhos ficaram conhecidos Europa a fora, e logo depois começou a desenvolver roteiros, onde conheceu Rossellini. Seus primeiros filmes já vogam seu lado pela dramaticidade original, fazendo certas críticas políticas sem nunca perder a ordem da magia do cinema, “Mulheres e Luzes” é seu primeiro filme, demonstrando grande domínio e qualidade, mas a grande agraciação viria com seus filmes seguintes como “Os boas vidas”, “Estrada da Vida, “A Trapaça” e “Noites de Cabíria”, todos estes grandes sucessos da concepção do cinema de Fellini que atingiu grande prestígio após “A Doce Vida” e em seguida “Fellini 8½”, nome que se dá por até o momento Fellini ter feito 8 longas e um curta metragem. Seus filmes em sequência constituem uma forma pelo surreal e o fantasioso, explorado em “Julieta dos Espíritos” e em “Satyricon”.

Frederico Fellini - Cenas do filme Satyricon de 1968Promovedor também de um estilo único como sendo o falso documentário, algo meio que explorado por Orson Welles já, só que Fellini dá intensa profusão ao termo em “Roma de Fellini”, apresentando certo humor e difusão perante a própria demagogia do cinema, logo depois em seu próximo filme faria o que seria sua aclamação referenciada até os dias de hoje “Amarcord”, filme que o demonstra em grandes aspectos toda a desenvoltura do cinema italiano e da mão firme de Fellini, muitos são fanáticos por Frederico Fellini em consequência deste único filme, que marcou de vez sua carreira.

Frederico Fellini - Cenas do filme Satyricon de 1968Em todos seus filmes demonstrou grande capacidade do exercício de diretor, consagrado como artista além de tudo é atribuído a Fellini como termos a imagem do diretor como uma das peças fundamentais ao filme, conceituando também o termo de cinema autoral, pois quando vemos um filme de Fellini, sabemos logo de cara o quê presenciamos!

Foi escritor, desenhista, se casou, teve perdas lastimáveis em tragédias familiares, consagrou atores como Mastroianni, Claudia Cardinalle, Sophia Loren, Aldo Fabrizi, e muitos outros além de Anita Ekberg. Foi amigo de vários cineastas como Truffaut, Bergman, Rossellini, e grande promovedor do cinema como obra de arte, um artista completo em emio a profusão do simples ofício.

Frederico Fellini - Cenas do filme La Strada de 1954Muitos cineastas atribuem forte influência de seus filmes como Woody Allen, que fez traduções quase idênticas em muitos de seus filmes, como grande admirador que era, tendo ainda Scorsese, Coppola e tantos outros na lista, como os brasileiros Jabor e grande parte também Glauber Rocha, sendo que todos aqueles que admiram cinema, tem a obrigação de estudar Fellini, como qualquer economista estuda Adam Smith, e qualquer historiador estuda Cabral. Fellini é imprenscindível, contestador e fortemente humorístico, como artista italiano fica como se fosse o Chaplin de seu país, um Shakespeare, ou um Oscarito. Seja o que for Fellini não se deve a comparações, pois se tratando de originalidade filmográfica, ele foi um dos maiores, como figura artística foi o promovedor da façanha do diretor em conservar a obra como princípio de arte, entendia a indústria e o entretenimento, e a junção do concebível e o absurdo, para nos dar a digestão satisfatória de sua criação.

Frederico FelliniEm entrevistas Fellini nunca deixava vestígios sobre os temas de seus filmes, sempre desvirtuava as conversas ou contava mentiras. Trabalhou com o compositor “Nino Rota”, que faria a conhecida trilha de “O Poderoso Chefão” de Coppola mais tarde,  na maioria de seus filmes que consagraram muitas das cenas emocionantes que podemos ali presenciar. Depois de longos anos dedicados a vida e a carreira cinematográfica, morreu em 1993, recebendo no mesmo ano o Oscar honorário pela sua obra, além de diversos outros prêmios ao longo da vida, mas o maior foi o que ele deixou para nós, seus filmes.

Filmografia de Fellini

  • Luci del Varietà (Mulheres e Luzes) – 1950.
  • Lo Sceicco Bianco (Abismo de um sonho) – 1952.
  • I Vitelloni (Os boas-vidas) – 1953.
  • L’amore in Città (Amores na cidade) – 1953.
  • La Strada (A estrada da vida) – 1954.
  • Il Bidone (A trapaça) – 1955.
  • Le Notti di Cabiria (Noites de cabíria) – 1957.
  • La Dolce Vita (A doce vida) – 1960.
  • Boccaccio ‘70 – 1962.
  • 8½ (Fellini 8½) – 1963.
  • Giulietta Degli Spiriti (Julieta dos espíritos) – 1965.
  • Tre Passi nel Delirio (Histórias extraordinárias) – 1968.
  • Satyricon (Satyricon de Fellini) – 1969.
  • Block-notes di un Regista (Anotações de um diretor – TV) – 1969.
  • I Clows (Os palhaços) – 1971.
  • Roma (Roma de Fellini) – 1972.
  • Amarcord – 1973.
  • Il Casanova di Frederico Fellini (Casanova de Fellini) – 1976.
  • Prova d’Orchestra (Ensaio de Orquestra) – 1978.
  • La Città Delle Donne (Cidade das mulheres) – 1980.
  • E la Nave Va – 1983.
  • Ginger e Fred – 1986.
  • Intrevista (Entrevista) – 1987.
  • La Vocce Della Luna (A voz da Lua) – 1990.

Em negrito, seus grandes sucessos, e em vermelhos seus filmes obrigatórios, pura arte em concepção. Fellini eu aprovo. Bravo!

Escrito por Thiago Luis de Souza. Naga é membro Clube do Rock, onde ocupa o cargo de diretor financeiro, um dos organizadores do Ilhota Rock Festival e autor de vários artigos publicados no blog Ilhota Rock sua coluna pode ser acessada pelo link https://ilhotarockfestival.wordpress.com/category/coluna-do-naga/.

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