Toy Story 3 fecha com louvor uma das melhores trilogias do cinema


Toy Story 3Quem assistiu aos dois primeiros “Toy Story” sabe exatamente como funciona a vida de um brinquedo: eles tem de se manter inanimados na presença dos humanos, mas são capazes de andar, falar e raciocionar como qualquer pessoa sempre que as crianças deixam o quarto. Porém, a única coisa que pode fazer um brinquedo se sentir realizado é o carinho de quem brinca com eles. A afeição de um brinquedo por seu dono é tão ou mais forte que a do dono por ele. A principal diferença é que enquanto as crianças vão crescendo e os deixando para trás, eles continuam fieis, sentindo falta do contato, e esperando ser retirados do baú, armário ou porão em que foram guardados.

Em “Toy Story 3″, que se passa 11 anos após o capítulo anterior (o tempo exato que separa a estreia dos dois filmes nos cinemas), Andy, o dono de Woody, Buzz e companhia, tonou-se um rapaz crescido e prestes a ir para a faculdade. Já não brinca mais com nenhum dos bonecos que adorava na infância, mas também não consegue se desligar totalmente deles. Às vésperas de sair de casa, tem de decidir o que fazer: armazená-los numa caixa no sótão, doá-los para uma creche ou jogá-los no lixo. Opta pela primeira opção, com exceção de Woody, com quem tem um vínculo emocional maior, e que decide levar consigo para a faculdade. Só que, por um engano, acabam todos indo parar na tal creche – um ambiente aparentemente idílico, onde um brinquedo nunca vai ser deixado de lado. Afinal, sempre haverá uma nova turma de crianças para lhes dar atenção.

Toy Story 3Não demora para que descubramos, no entanto, que o local tem um lado sombrio, tanto pela turma de crianças bem pequenas, que jogam os brinquedos para tudo que é lado, quanto pelos brinquedos que já se encontram ali, que vivem sob a ditadura de um amargurado urso violeta (a dona lhe esquecera durante um piquenique, e quando ele conseguiu encontrá-la, os pais já tinham comprado outro urso, novo e idêntico, para substituí-lo). Os brinquedos terão de vencer todas essas adversidades para retornar ao Andy – a responsabilidade deles, diz Woody, será sempre com o dono, quer ele esteja lá para lhes dar carinho ou não.

O mais bacana é que o roteiro de Michael Arndt, premiado por “Pequena Miss Sunshine” (2006), não cai no erro de transformar Andy numa espécie de vilão. O garoto não é indiferente ou desprovido de emoções, e os animadores da Pixar sabem ilustrar como ninguém o quão dolorosa está sendo para ele a separação dos brinquedos. Essa separação seria o reconhecimento de que ele cresceu, e de que está deixando para trás uma das fases mais felizes da sua vida, para a qual jamais poderá retornar. Uma experiência agridoce pela qual todos passamos, e com a qual o público consegue facilmente se relacionar.

Toy Story 3Aliás, é sintomático que quem deve lotar as salas de cinema não são as crianças de hoje acompanhadas dos pais. Quem deve conferir em peso são os jovens adultos, que acompanharam o surgimento de “Toy Story” quando eram pequenos e que reencontrarão os personagens numa faixa etária bem próxima à do Andy. Ainda que os brinquedos não tenham se modificado em nada, Andy é um moço feito, e me pergunto quantos dos fãs da trilogia não estejam passando por situação parecida no presente momento.

Do mesmo modo que o filme é capaz de dar um nó na garganta e de arrancar lágrimas sem esforço e apelação, também consegue se firmar como uma comédia afiada, inteligente e bem executada. O humor é geralmente extraído de situações supostamente banais, que soam como formidáveis aventuras para bonecos de alguns poucos centímetros de altura. Seus hábitos e comportamentos, similares aos dos humanos, divertem pela maneira com que são contextualizados, assim como o desafio de passar despercebidos pelas pessoas ao redor, que dão margem a uma correria desenfreada.

Toy Story 3As melhores gags se concentram no casal Senhor e Senhora Cabeça de Batata (ele tem os membros “amputados” da batata de plástico que lhe serve de base, e ela perde um olho que pode enxergar tudo à distância), em Buzz sendo reiniciado em espanhol e no boneco metrossexual Ken, o par romântico da Barbie.

Visto como aventura, o filme é tão criativo quanto os anteriores. Abre com uma sequência claramente imaginária, em que Andy encena uma perseguição de trem com os brinquedos, e vai prosseguindo com situações que colocam os heróis em perigo constante. De fato, à certo ponto a ação se torna tão aflitiva que tememos de verdade pelo destino dos personagens. E o roteiro investe sem medo na tensão, mostrando de perto a morte – ou o que significaria a morte para os brinquedos – como poucos filmes infantis fizeram.

Toy Story 3Não é nem sequer necessário focar a qualidade técnica da animação. Os gênios da Pixar são os gênios da Pixar. E como sempre se superaram, seja pelos traços impecáveis de cada personagem (notem como os brinquedos mais velhos e surrados parecem encardidos), seja pelo capricho com que ambientam a história.

A creche que serve de cenário para grande parte da trama pode se tornar convidativa ou ameaçadora, conforme os brinquedos a percebem. O efeito é obtido pela fotografia, que passa de alegre e solar para lúgubre e tétrica, e pelo excelente design de produção.

Toy Story

Mas ainda que seja um espetáculo visual, quase nada disso se deve ao 3D, cuja utilização é quase imperceptível, e que não compensa o preço inflado do ingresso (conferir numa exibição convencional teria o mesmo efeito). Não que, por ser exibido em terceira dimensão, o filme precisasse lançar objetos em direção à plateia para impressionar – mas a animação da concorrente DreamWorks “Como Treinar Seu Dragão” provou que é possível aproveitar essa tecnologia com funcionalidade, não apenas para conferir texturas mínimas nas cenas, e sem tampouco apelar para truques.

Esta é a única crítica negativa possível de ser feita ao longa, embora pequenos tropeços possam ser apontados. Um deles é o fato de a história, apesar de deixar a sensação de frescor e originalidade, repete o esquema das fitas anteriores e, a certo ponto, se torna uma crônica de fuga. No primeiro “Toy Story”, Woody e Buzz tentavam escapar da casa do macabro Sid quando paravam ali por acidente. No segundo, Woody planejava fugir do apartamento do colecionador de brinquedos que o roubara. E neste terceiro, muito tempo é destinado à fuga do grupo da creche regida como uma prisão.

Toy StoryA aparente repetição só não incomoda porque convém ao que roteiro quer dizer sobre os personagens – e todos saíram modificados de cada uma dessas experiências (embora sintamos apenas o amadurecimento dos dois principais, Woody e Buzz, da boneca cowgirl Jessie, e claro, do dono Andy, já que os demais são meros alívios cômicos). Só que é difícil reclamar quando tudo é tão bem justificado. Há de se apontar também que este terceiro capítulo é bastante fluido, menos truncado e episódico que o anterior.

Foi uma ótima escolha, aliás, terem convocado para a direção o montador dos outros dois volumes, Lee Unkrich. Ele tinha co-dirigido o segundo “Toy Story”, “Monstros S.A.” e “Procurando Nemo”, e assume as rédeas sozinho pela primeira vez. Por ter estado envolvido com as partes anteriores, Unkrich conhece a série como a palma da mão, e sabe muito bem que decisões tomar para concluir a trilogia com sucesso. Tanto que, assistidos em conjunto, os três filmes originam certamente uma das trilogias mais interessantes que já se viu no cinema.

Toy StoryA simetria deste terceiro com os dois “Toy Story” que o antecederam é simpática e até importante para a narrativa. Notem como a cena inicial é uma recriação mais “realista” da cena inicial do primeiro filme (Andy brincando de mocinho e bandido com os bonecos), ou como frases antológicas no estilo de “O garra!” e “Salvou nossas vidas, somos eternamente gratos!” ecoam neste capítulo com ótimo resultado. A dublagem original é de Tom Hanks, Tim Allen e Joan Cusack, entre outros, mas a versão brasileira não fica devendo em competência, reservando-se o direito de fazer algumas adaptações (menciona até Osasco e Barretos)! Obviamente não é para perder.

Escrito por Louis Vidovix que é estudante de Publicidade, leitor voraz, cinéfilo incorrigível e fã das séries de TV. Expõe suas opiniões no blog Letters from Louis.

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