O eleitor tá querendo ver o mundo colorido


Altair HoppeO escritor e especialista no programa Photoshop revela os segredos das montagens de fotos, o abuso do recurso nas campanhas políticas e os casos escabrosos que resolveu no Fantástico.

O escritor e especialista no programa Photoshop, Altair Hoppe, 36 anos, se parece com tudo, menos com uma celebridade. Com a visibilidade que seu trabalho adquiriu nos últimos anos por causa da consultoria que presta ao programa ‘Fantástico’, da TV Globo, pro quadro “Detetive virtual”, era de se esperar que o sucesso subisse à cabeça deste leonino que luta contra a vaidade, própria de seu signo. Ele só se revela um ‘astro’ quando sobe no palco e dá suas palestras sobre Photoshop por todo o país. Segundo ele, fica ‘possuído’, como se recebesse uma entidade espírita.
Seria este o segredo do sucesso deste jovem, que desde cedo foi empreendedor, abrindo um jornal combativo em Ilhota, aos 21 anos, antes mesmo de entrar pra faculdade de jornalismo? Ele conta que nada foi planejado. As coisas, simplesmente, aconteceram, resultado também de seu trabalho pioneiro e de formiguinha, de levar a informação para os recantos mais longínquos do país, trabalho que ainda não tem concorrentes.

Pra isso, contou também com a sorte, e a empatia com a platéia, que levou o garoto de Presidente Getúlio a patamares nunca dantes imaginados, e com uma carreira em plena ascensão, depois de quatro livros publicados.

Na entrevista que deu às jornalistas Renata Rosa e Marina Fiamoncini, com fotos de Deivid Couto, Altair conta sua trajetória desde a experiência em Ilhota, a faculdade de Jornalismo, a passagem pela revista Photos e a abertura da nova empresa, a iPhotos, na Maravilha do Atlântico (Balneário Camboriú). Também revela os segredos das montagens de fotos, o abuso do recurso nas campanhas políticas, e casos escabrosos que resolveu no programa global.

Diarinho: Na época em que cursava a faculdade na Univali, o senhor tinha um jornal em Ilhota que denunciava irregularidades. Você sofria represálias?

Altair Hoppe: Todo dia. [risos]. Eu comecei com o jornal em 1993 e fiquei com ele até 2004, foram 11 anos. Era um jornal independente. Apesar de ser uma cidade pequena, não tinha dependência nenhuma, como habitualmente acontece, de prefeitura, essas coisas. [E você é de lá?] Eu não nasci lá. Nasci numa cidade de Santa Catarina chamada Presidente Getúlio. Morei no Rio Grande do Sul por alguns anos e depois voltei a morar em Ilhota quando eu tinha 12, 13 anos. A cidade não tinha jornal e eu montei o jornal sempre com esse cunho – de ser independente, um jornal bem crítico e de muita opinião. Nunca foi um jornal informativo. Eu não curto muito o jornalismo informativo. Eu gosto do jornalismo opinativo, investigativo, e isso numa cidade pequena, de uma cultura muito de domínio, com coronelismo, era bem complicado. Recebia desde ameaça de morte, o prefeito me bateu, deu soco em mim. Deu BO e tudo porque eu não quis deixar passar em branco. Aconteceu esse tipo de situação, mas isso nunca me desmotivou, ao contrário, eu sempre me motivei ainda mais. O jornalismo, acho que tem essa função: quando o jornalismo tá agradando todo mundo é porque ele não tá cumprindo o papel dele.

Diarinho: E por que acabou ‘A Folha de Ilhota’?

Altair Hoppe: Eu terminei com um sentimento de missão cumprida, entendeu? Eu fiquei 10 anos com o jornal. Levei pancada de tudo quanto é lado e suportei isso, consegui passar por todas essas fases. Quando a cidade criou uma estrutura, um pouco de cultura e senso crítico, que era isso que buscava despertar nas pessoas através do jornal, aí, eu acho que a minha missão foi cumprida. E aí, eu optei por um caminho diferente, de buscar outra coisa dentro da minha profissão. Não que Ilhota seja pequeno. Lugar nenhum do mundo é pequeno pra qualquer pessoa. Pra mim, aquilo era o meu universo, o meu mundo, eu era a pessoa mais feliz do mundo fazendo aquilo. Mas eu também queria ter oportunidade de fazer coisas diferentes. Durante 10 anos eu fiz com o maior prazer do mundo e tenho só pontos positivos dessa história toda, aí eu comecei a fortalecer essa área na qual trabalho hoje. Eu comecei a trabalhar na editora Photos, de Itajaí, como um humilde arte-finalista, um diagramador.

Diarinho: Quais os motivos que fizeram você trancar a faculdade de jornalismo? Você continua tendo contato com o jornalismo?

Altair Hoppe: Na verdade, pra me formar, eu levei oito anos. Eu comecei a fazer jornal antes de pensar em fazer uma faculdade, que foi em 98. Eu já tinha levado porrada de tudo quanto é lado e o jornalismo surgiu, sei lá, por pura intuição, né? Era uma época muito diferente da de hoje porque a gente não tinha internet. Na época que a gente fazia o jornal em Ilhota, os jornais que a gente tinha eram só os regionais, regionais entre aspas, era só um jornal de Gaspar e o Jornal de Santa Catarina. Não tinha Diário Catarinense, o próprio Diarinho, a gente não tinha acesso, apesar da proximidade com Itajaí, isso é incrível, né? E isso aconteceu no ano 2000. Eu parei por um ano e meio, dois anos porque a faculdade foi meio frustrante pra mim. Chegou um ponto em que a faculdade não fazia muito sentido porque não era exatamente aquilo que eu tava buscando. Tinha alguns professores que me alimentavam na esperança do jornalismo que eu fazia lá (em Ilhota), um jornalismo mais crítico, mas, no geral, a universidade tenta te preparar pro mercado e eu não tenho um espírito de mercado ou pra entrar num determinado padrão. Eu achava terrível e me sentia muito frustrado. Eu gostava da faculdade quando sentava no corredor e ficava conversando com os professores. Ficava apático quando entrava na sala de aula porque, daí, eles tentavam me enquadrar dentro do sistema. Falavam no tal do lide que, pra mim, é um modelo que foi criado numa situação de guerra porque a história conta, a tecnologia não permitia transmitir as informações muito longas, entendeu? Mas hoje, nós estamos numa época diferente e as pessoas precisam pensar e o jornalismo, de maneira geral, não faz as pessoas pensarem. Virou um produto o jornal, a revista. Daí, eu optei em priorizar a minha carreira. Eu fiquei dois anos e meio, três anos parado e me dediquei a me desenvolver e escrevi o meu primeiro livro. Eu trabalhava durante o dia, e durante a noite me dedicava ao livro. Isso foi em 2004. E eu acho que fiz a aposta certa, de não priorizar a faculdade. Depois, é claro, eu voltei, porque, afinal, já havia feito um investimento financeiro. A razão pela qual voltei foi fazer valer o que já tinha investido. E, também, é claro, a universidade te ensina várias coisas, mas, como eu falei, fora da sala de aula. Às vezes, a pessoa sai pior da faculdade do que quando entrou. Isso é uma coisa muito engraçada. Acho que a universidade, em alguma situação, cria uma espécie de soberba nas pessoas na forma de ver o mundo. Você sabe pouco e você sai da universidade com a sensação de que você sabe muito. Quando você entra, você sabe que você sabe pouco. E se infla com uma sensação de conhecimento. A gente nunca deve ter a sensação de que a gente sabe muito. Eu, a cada dia que passa, tenho a sensação de que menos eu sei. E mais tenho a aprender. E isso nas relações pessoais, na própria profissão. Porque quando a gente pensa que sabe muito, aí, de fato, a gente tá no caminho da limitação, da pouca evolução.

Diarinho: A guinada na sua carreira profissional começou a partir da revista Photos? Como surgiu a ideia de escrever livros sobre o Photoshop e dar cursos sobre o programa?

Altair Hoppe: Não foi uma guinada. De fato, comecei como arte-finalista, que dentro de um jornal, uma editora, é a menor escala, é um estagiário um pouquinho melhorado. É o cara que só faz o alinhamento de colunas, se todas as fontes estão dentro do padrão, eu comecei assim. E eu busquei ser o melhor arte-finalista que pudesse existir no mundo. Com esta dedicação, fazendo uma tarefa simples. Fui pra diagramador e dentro da diagramação, fui pra área de linguagem e comecei a ter mais contato com o Photoshop. A gente tava dentro de uma revista de fotografia, e neste período de transição do analógico pro digital, eu percebi que muitas pessoas tinham dúvidas com relação ao Photoshop. Eu ofereci pra minha chefe, na época, escrever uma coluna sobre Photoshop. Eu fazia tratamento de imagem e isso pode ser uma coisa interessante pros leitores aprenderem algumas dicas de como usar o Photoshop. Aí, depois de umas seis, sete edições, eu passei a receber muitos e-mails com mais e mais dúvidas. E se eu continuasse só a publicar os artigos, não ia atender às expectativas das pessoas, até pela necessidade de mercado. Eu fiz uma pesquisa de mercado no Brasil e vi quais livros havia sobre Photoshop e descobri que não havia livros sobre Photoshop em português, voltado para fotógrafos. Aí, eu conversei com minha chefe perguntando se podia escrever um livro, ela disse que eu poderia escrever, mas também não ia garantir que ele fosse publicado. Eu tinha que escrever e ver o resultado. Isso porque a editora nunca tinha publicado um livro; só tínhamos uma única revista. Demorei seis meses pra escrever o livro. Ela disse: “Tu podes escrever o livro, mas tu não podes escrever durante o teu trabalho. Tu podes usar a estrutura da editora, mas escreve à noite, nos finais de semana”. E foi este motivo que me fez largar temporariamente a universidade. Então, eu priorizei isso. Quando eu terminei, imprimi tudo em papel sulfite, só num lado pra dar um volume gigantesco, cheguei lá, joguei em cima da mesa da chefe. Eu disse: “Ó, taí o livro. Terminei de escrever”. Um calhamaço. Ela disse: “Tá, vou dar uma olhada”. Eu acho que ela nunca leu o livro, porque era muita coisa e era coisa mais técnica, mas ela aprovou e a gente lançou o livro. A ideia nossa inicial, como a gente não tinha experiência nesse mercado, era vender 300 livros porque com 300 livros se pagava o custo de impressão do material, do investimento. Aí, a gente fez o lançamento e em 50 dias, vendemos os livros. Em 50 dias esgotou a primeira edição. E hoje, o livro já tá na sétima edição e a gente já vendeu 30 mil livros. A gente conseguiu um diferencial que foi traduzir para uma linguagem simples um programa que é muito técnico. Nisso o jornalismo me ajudou bastante porque se eu fosse só um cara técnico, não teria a mesma facilidade, mas como sou da área da comunicação, eu consigo interpretar melhor as informações. Agora, eu estou lançando o quarto livro dessa série.

Diarinho: A partir do primeiro livro, você já começou a dar cursos?

Altair Hoppe: Essa história de curso, eu também não tinha muita intenção de dar. Quando eu escrevi o volume 1, eu achava que tinha reunido conteúdo suficiente pras pessoas aprenderem Photoshop tranquilamente. Eu nunca sonhei escrever o volume 2. Não só escrevi esses livros como houve pedidos, as pessoas queriam também o curso ao vivo. E aí eu comecei a fazer os workshops. O primeiro workshop foi em Balneário Camboriú como cobaia, um teste, deu certo, apesar de que eu não tinha experiência nesse negócio de palestra, né? [Teve que abandonar a timidez?] No meu dia-a-dia eu sou uma pessoa muito comedida, mas quando eu viro palestrante, eu sou uma pessoa muito diferente. Bem diferente do que você tá vendo aqui. As pessoas ficam assombradas, inclusive. Eu sou meio Chico Xavier, dá uma incorporada, eu viro um outro ser. Fico possuído. É meio um transe. Daí começou esse negócio de workshop e no primeiro ano, a gente foi a 21 cidades do país, e sempre priorizou as capitais. Fomos a São Paulo, Rio e já estou há seis anos fazendo o circuito nacional com esta média de 15, 16 capitais por ano. Eu não consigo fazer workshop em cidades que a gente chama de interior, não dá porque a demanda é muito grande. A gente prioriza as capitais para que o pessoal do interior possa se deslocar às capitais e fazer os cursos. É, e se eu só desse workshop não teria capacidade de fazer outras coisas. Só que eu não privilegio São Paulo. Nunca. Nós somos pessoas do interior, eu sou uma pessoa do interior, e eu acho que devo fazer um trabalho nacional e dar oportunidade para todo mundo. Em São Paulo, eu dou um único curso por ano. No Rio de Janeiro – um único curso por ano. Por ser uma cidade gigantesca, eu poderia dar 10 cursos em São Paulo, mas como as pessoas lá de Fortaleza vão assistir à palestra? O acesso à informação em São Paulo é melhor. Um amigo meu disse que eu criei um tipo de “caravana Holiday”. [Do filme ‘Bye bye Brasil’ de Cacá Diegues?] Exatamente.

Diarinho: Como surgiu o convite pra participar do quadro “Detetive virtual” no ‘Fantástico’? E quais os casos mais escabrosos que você já desvendou?

Altair Hoppe: Os workshops que criaram o convite pro “Detetive virtual”. Eu dei um workshop em Brasília, em 2007, no sindicato dos jornalistas e um dos jornalistas, do Correio Brasiliense, era amigo do Tadeu Schimitt, que apresenta o ‘Fantástico’. O Tadeu perguntou pra esse amigo se conhecia algum especialista em Photoshop. O Caio tinha feito o workshop e sabia que eu tinha três livros publicados e não tinha nenhum outro autor com tantos livros e fazendo esse trabalho nacional. É impressionante como o Brasil é um país que carece de desenvolvimento. De melhoria na informação. E aí, ele recomendou o meu nome. O Tadeu entrou em contato comigo e conversamos a respeito. Eu nem acreditei porque, na verdade, essas coisas a gente não planeja, simplesmente acontecem. [E até quando vai o contrato?] A gente não possui um contrato. Nós temos um acordo verbal de parceria. Eles precisam de consultoria, eles precisam da informação, eles precisam de um especialista pra aguentar o rojão, entre aspas, né? Pra se responsabilizar pela avaliação das imagens. E pra mim também é bom porque me dá credibilidade. Se fosse uma situação normal de trabalho, a gente trabalharia com imagens melhores, mas são todas imagens de internet, e imagens de internet são complicadas porque a resolução é muito baixa. Então, às vezes, você não tem uma condição técnica boa de imagem pra descobrir se é uma montagem ou não. Daí, eu não posso deduzir que houve um recorte, uma fusão de imagem. A foto, às vezes, não te dá essa condição, é horrível. E aí eu parto para outros elementos pra identificar se é uma montagem. Por exemplo: perspectiva. Eu analiso a perspectiva dos objetos, a sombra dos objetos, a textura, a luz, a proporção, eu analiso vários elementos pra conseguir identificar a montagem. Teve casos bem difíceis já. O fantasma de Wem town, que é uma cidade na Inglaterra. Aconteceu um incêndio, o fotógrafo fez uma foto e apareceu uma menina no fogaréu. Complicado, né? Como é que você vai explicar? Numa lógica simples eu poderia dizer que a foto é uma montagem porque fantasma não existe. Eu não posso fazer isso, entendeu? Eu tenho que dar uma explicação técnica. Então, depois de uns dois dias que eu consegui encontrar um elemento, que provasse que aquilo era uma montagem. E era uma montagem, mas demorou. Têm tantos casos cabeludos… Tem um que não foi ao ar que eu não consegui resolver porque demandaria mais pesquisa. Teve um lançamento de um carro no interior de São Paulo, numa pista de testes, com vários fotógrafos de várias revistas fazendo a cobertura. Um fotógrafo fez uma foto de um carro em primeiro plano e no fundo tava o céu. Era 17h30, no entardecer, e aí, no céu, apareceram alguns objetos estranhos. Como se fosse ovni, né? Eu consegui a foto em alta resolução do fotógrafo, com todos os metadados, tava tudo correto, a foto era real, não havia montagem, e a gente não conseguiu identificar os objetos. Podia ser um mosquito, um meteriorito, três, na verdade, porque eram três objetos, poderiam ser jatos, e eu tentei investigar tudo isso. Tentei com o Inpe [instituto Nacional de Pesquisas Espaciais], tentei investigar na internet se havia algum tipo de exibição, show aéreo naquele período em Indaiatuba, onde era essa foto, e eu não consegui uma resposta até hoje. Isso, é claro, nunca me foge à mente, eu sempre fico pensando em outras possibilidades. São coisas complicadas e eu quero descobrir. Tem casos que caem também. Eu dou um parecer que a foto é verdadeira e a matéria acaba não saindo porque não eles não conseguem encontrar o personagem que prove que, aquilo, de fato, é uma situação real. Teve o caso do ‘viajante do tempo’. É uma foto antiga de uma reabertura de uma ponte em 1940. E aparece, no meio das pessoas, que estavam todas de terno, de chapéu, um sujeito estranho com óculos escuros e uma câmera fotográfica com uma teleobjetiva moderna. Eles queriam saber se era montagem. E eu dei um parecer de que era uma montagem porque havia alguns elementos apontando pra isso. Essa foto tá num museu no Canadá e a matéria acabou não entrando até hoje. Um fator muito forte que pra mim evidencia que é uma imagem falsa é a luz da orelha do tal ‘viajante do tempo’. O que eu analisei? Na foto, a sombra tá projetada mais na lateral do rosto, ou seja, a fonte de luz do sol estaria mais nessa posição. Mas no ‘viajante do tempo’, o que acontece? A projeção do sol na orelha dele é muito intensa no rosto. Como se existisse uma fonte de luz vinda de trás. Teoricamente, isso não seria possível. Esse foi um dos elementos, eu elenquei, pelo menos, cinco.

Diarinho: Se o senhor fosse coordenador de campanha política, o que jamais faria usando o Photoshop?

Altair Hoppe: Eu não usaria o Photoshop porque a classe política já tem esse conceito de mentira, né? E aí você pega a foto do candidato e começa mentindo na foto? O candidato nem abriu a boca e ele já tá mentindo. Se você usa o Photoshop pra dar um retoque no candidato, muda a pele, as marcas de expressão… No meu modo de entender, um dos predicados para que a gente vote em alguém, normalmente, é a experiência, a pessoa tem que mostrar que tem experiência de vida. E não tem coisa melhor pra mostrar que a pessoa tem experiência do que as marcas da vida, as marcas de expressão. Então, eu acho que é desnecessário o uso do Photoshop. Você pode, por exemplo, maquiar a pessoa, põe uma basezinha, dá uma retocadinha, pronto. Suaviza a olheira do candidato com a maquiagem tradicional, não é necessário mentir. Já começa com descrédito.

Diarinho: Qual o pior produto com o uso de Photoshop na campanha dos candidatos de Santa Catarina?

Altair: De todas as imagens que eu vi, a pior foi da Ideli [Salvatti – PT]. Inclusive, nacional. É uma coisa absurda! É muito feio! Não se reconhece. Quem a vê ao vivo num comício, não vai reconhecer, vai procurar. “Vai ver que aquela que tá no palanque é uma assessora” porque a diferença é brutal. Continuo achando que isso é um fator negativo porque não se tá vendendo a beleza do candidato. Em política, não se vende a beleza do candidato, você vende a capacidade dele de viver em sociedade, de poder encontrar soluções, e a política tá virando muito publicidade, tá virando produto de marketing. Por isso que a gente tem esses deputados que a gente tem. Parece que quem tem mais dinheiro é mais capaz, e o eleitor, pela massificação, fica seduzido por isso, infelizmente, por essa estética. O eleitor tá querendo ver o mundo colorido. Na verdade, as pessoas, nessa cultura moderna, querem se ver bonitas, e se elas não se enxergam bonitas, compram coisas que as projetam dentro desta questão da beleza. Então, infelizmente, os políticos também tão caindo nessa. Tem muita gente que vai votar por uma questão estética porque o cara é bem apessoado. Como se ele se cuida bem, ele é bonito, automaticamente, ele vai fazer coisas bonitas também na política. Isso é mentira. Então, é um conceito perigoso.

Diarinho: Há um critério profissional que defina o limite entre o bom senso estético e o exagero?

Altair Hoppe: O critério que eu uso pra fazer qualquer retoque é a realidade. Eu não faço retoque com conceito surreal. A gente trabalha com a realidade, seja no segmento moda, publicidade, na fotografia social mesmo. A gente tem que partir do conceito de realidade, não pode criar um mundo abstrato, um conceito abstrato a partir dos recursos que o Photoshop permite a gente usar. Todo retoque que a gente faz influencia as pessoas de uma maneira direta ou indireta, cria uma influência na vida das pessoas. Então nós temos uma responsabilidade. Por exemplo: quando a gente faz um tratamento e alisa uma mulher completamente, como acontece, por exemplo, no caso da Playboy, a gente tá criando um conceito de sociedade. Para o cara que faz a manipulação de imagem é um simples trabalho, ele não tem a dimensão do quanto isso vai afetar a vida das pessoas. Quantas meninas e jovens vão adotar aquele padrão como sendo o belo, como sendo o bonito e vão se matar com creme, com academia pra chegar naquele padrão. Isso é uma atrocidade com o ser humano. Por isso que eu falo, o limite é a realidade. Eu tenho que fazer correções que levem em consideração a característica natural das pessoas. É possível que aquela pessoa a qual eu estou tratando a imagem, tenha aquela pele, aquela textura, na vida real? Eu mostro no meu trabalho possibilidades surreais, mas com opção de linguagem artística, mas toda vez que a gente entender que as pessoas vão se influenciar, que elas não vão ter um entendimento que é uma coisa abstrata, que você tá querendo dar um conceito mais artístico, você tem que puxar pra esse limite. E existem dois campos nesse mundo do Photoshop. Existe o campo da manipulação e o campo do tratamento. Toda imagem sofre um tratamento. Até antes da era digital. Seja no laboratório, no minilab digital ou através do Photoshop. Sempre houve a correção de cor. O próprio ajuste de exposição, a escolha de um balanço de branco, isso aí faz parte da fotografia analógica e digital. Mas a manipulação já é um pouco diferente. O Photoshop ampliou essas possibilidades. A manipulação também sempre existiu na fotografia. Têm casos de 1915 com manipulação de Lênin; de 1936, de Hitler; através daquele processo em chapa, em vidro, eles faziam retoque nas imagens pra excluir pessoas das imagens. Isso é muito antigo e o Photoshop facilitou isso. Então, a gente tem que evitar as manipulações, principalmente quando afetam a moral das pessoas. Tem um caso que eu sempre lembro e cito: eu recebi um caso bem dramático de uma menina do Rio Grande do Sul, ela mandou um e-mail, dizendo que ela tinha sido vítima de uma manipulação. Ela postou algumas fotos no Orkut, e alguém que não gostava dela pegou o rosto dela, pegou fotos pornográficas, colou de uma maneira absolutamente tosca, de uma maneira ridícula, mal feita, sem proporção, nada, simplesmente recortou e jogou para toda a rede de uma universidade onde ela estudava e onde o marido era professor universitário. A menina ficou mais de um mês sem ir pra universidade tamanho o constrangimento.

Diarinho: Aconteceu um caso recente com a Cláudia Leite, fotos dela foram colocadas em sites pornôs…

Altair Hoppe: E cada vez mais isso acontece. A culpa não é do Photoshop. As pessoas buscam atribuir a culpa das manipulações, dos retoques, no Photoshop, mas isso é um grande erro. É desconhecimento do processo. Tudo que a gente faz na vida parte de uma intenção nossa. Quem tem a ferramenta na mão é que decide. A ferramenta por si só não decide nada. Um policial usa um revólver pra defender a sociedade, o bandido pode usar o mesmo revólver pra fazer atrocidades, para matar uma pessoa. Um fotógrafo pode usar uma câmera fotográfica pra registrar uma coisa bela, uma coisa bonita, como também pode usar o instrumento fotográfico pra invadir a privacidade das pessoas. Tudo parte daquilo que a gente quer fazer. Essa história de que o Photoshop é culpado é senso-comum.

Diarinho: Qual ensaio fotográfico da Playboy o uso do Photoshop ficou mais evidente? Dá pra acreditar que as mulheres que aparecem nuas nas revistas são elas mesmas?

Altair Hoppe: Tem tratamento em toda edição. Teve um caso engraçado agora em junho. A Playboy lançou uma edição com uma menina do Big Brother, eles colocaram que não foi usado Photoshop. É uma coisa tão inédita que eles anunciaram que naquela edição não foi usado Photoshop. Mas, em julho, eles deram um azar gigantesco porque fizeram uma aberração no Photoshop. Parece até que foi pra um contraponto. Saiu uma menina, uma apresentadora de TV, sem o mamilo. Eles removeram o mamilo da menina. Não é a primeira vez que a Playboy faz isso. Tinha o seio, a forma toda e aí excluíram o mamilo. Mas por que eles fizeram isso? Nesse caso, foi por uma questão da legislação. Não é permitido colocar na capa de uma revista que circula em banca um seio exposto. [Mas aparece…] Elas sempre dão um jeitinho. O seio aparece, mas o mamilo não. Tem um fotógrafo amigo meu, o Luiz Garrido, que é um dos gênios do retrato no Brasil, talvez do mundo, ele contou um episódio que no regime militar não poderia aparecer a foto com os seios expostos, mas tinha uma restrição: só era proibido se fossem dois seios. Então, uma das fotos que ele fez, fez a mulher só com um único seio. Fez um corte e a mulher ficou meio aleijada, mas ele conseguiu fazer [risos].

Diarinho: É possível modificar uma imagem sem deixar pistas?

Altair Hoppe: É possível. Os recursos que a gente tem no Photoshop, pra quem tem conhecimento, é possível fazer uma foto idêntica à realidade, sem praticamente deixar rastro de que é uma montagem. Claro que tem que haver um planejamento na captura das fotos. Você não vai pegar qualquer foto e juntar com outra. Isso é uma diferença entre um trabalho profissional e um amador. O amador junta uma relação de fotos que não tem relação, que não foram planejadas, e tenta fazer a montagem. É isso que acontece na internet e no detetive virtual. Não são profissionais da área, são pessoas comuns que fazem e sempre deixam um pequeno errinho e a gente consegue descobrir. Mas profissionais mesmo, se eles fizeram as montagens com capricho, não tem como descobrir. Na publicidade, por exemplo, se cria todo um cenário e todo um conceito.

Diarinho: Que dicas você dá pra identificar quando uma foto é montagem?

Altair Hoppe: As sombras em posições diferentes são o erro mais comum de uma montagem. Você tentar identificar na cena a fonte de luz, de onde ela tá partindo, e tentar identificar a direção da sombra. O recorte das fusões é mais simples. E alguns erros de perspectiva também podem acontecer. Eu tive uma convicção muito grande com esse viajante do tempo nessa questão da luz. O fato de criar uma sombra da orelha não é uma coisa possível. Quando a gente salva em jpg, a foto perde bastante informação, aí a textura da imagem, a diferença de granulação, praticamente desaparece. Esse é um elemento que poucas vezes eu consigo considerar, só se a imagem é em alta resolução, tem bastante definição, mas a maioria das vezes eu trabalho na questão da perspectiva, da sombra.

Diarinho: Hoje em dia é possível trabalhar para grandes empresas sem abandonar sua cidade? O que ainda é preciso fazer in loco? Você nunca pensou em ir morar no eixo Rio – SP pra impulsionar a carreira?

Altair Hoppe: Quando eu comecei a trabalhar, a gente era uma editora de Itajaí que editava uma revista de circulação nacional. Os caras não acreditavam como que alguém de Itajaí ia fazer uma coisa boa numa era que só tinha revista em São Paulo. A gente conseguiu quebrar isso mostrando qualidade. Eu acho que é o grande mérito de quem vem do interior. Quem vem do interior sabe que precisa mostrar que tem capacidade. É um desafio. Com a chegada da internet isso só foi potencializado. Hoje, eu consigo fazer o meu trabalho aqui em Balneário ou em qualquer parte do Brasil com a mesma qualidade que as pessoas fazem em São Paulo. Na verdade, hoje todo mundo imagina que eu sou de São Paulo. As pessoas se espantam quando eu digo que sou de Santa Catarina, de Balneário Camboriú, principalmente as pessoas aqui da região. Hoje, quando eu digo que moro aqui no Vale do Itajaí as pessoas dizem “nossa, tu mora no paraíso”. Aqui a gente tem tudo que a gente precisa, consegue fazer um trabalho extremamente bom num outro ritmo. Eu tô aqui na empresa, não pego trânsito, não me preocupo tanto com a questão da violência, então isso dá tranquilidade pra gente trabalhar. Na verdade, cada vez eu quero estar num centro menor. O meu planejamento de vida é poder ter uma vida cada vez mais simples porque eu tenho certeza que isso vai me fazer cada vez mais feliz. [Mas sem abandonar a tecnologia…] De forma alguma. É a tecnologia que permite fazer exatamente isso. Hoje, a galera que trabalha aqui comigo no meu escritório, poderia trabalhar em casa. Se a gente fizer uma reunião e definir isso é possível fazer esse tipo de coisa hoje. Ou eu ter um funcionário lá de Fortaleza, um lá do Rio Grande do Sul, a tecnologia permite isso. Hoje nós estamos em condição de igualdade, hoje o que determina a diferença desses profissionais é o querer. A questão geográfica ela inexiste.

Diarinho: A única coisa que você faz presencialmente são os workshops?

Altair Hoppe: Ainda. Daqui a pouquinho não vai ser mais. Temos um projeto de fazer isso à distância, na verdade, há dois anos a gente trabalha essa ideia. A partir de 2011 eu acredito que a gente vá começar a viabilizar os cursos à distância. Vamos atingir um número maior de pessoas. Hoje eu faço os cursos só nas capitais, isso restringe um pouco o pessoal do interior, que tem menos capacidade de investimento. Eu fazendo curso à distância na internet, o custo vai ser bem menor, porque eu não vou ter que viajar, não vou ter que alugar estrutura de hotel, coffe-break, etc.

Diarinho: A sua mulher também é fotógrafa. O senhor também faz consultorias a ela?

Altair Hoppe: Na verdade eu não dou conselho, eu dou esporro [risos]. Eu dou mais conselhos na parte estratégica. Eu não interfiro no processo de edição, eu dou minha opinião sobre como, estrategicamente, ela pode desenvolver a carreira. Eu dou esporro como companheiro que busca apoiá-la através da minha experiência de mercado. Eu poderia influenciar meu filho, tornar ele um mini Altair, mas eu não falo nada com ele a respeito de Photoshop. Eu não vou impor meu conceito de mundo pra ele.

Raio-X

  • Nome: Altair Hoppe.
  • Idade: 36 anos.
  • Natural: Presidente Getú­lio/SC.
  • Estado civil: casado com Juliana Hoppe.
  • Filhos: Dois – Alecsander, 12 anos; e Nicholas, 4 anos.
  • Formação: Jornalismo, na Univali.
  • Carreira: Criador da Fo­lha de Ilhota; revista Photos, onde começou como arte-finalista até chegar a sócio; e criador da editora IPhoto.

Chupado do site do jornal Diarinho sem autorização, que pelo Altair, o Ilhota Rock faz qualquer coisa pra ajudá-lo.

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Uma resposta to “O eleitor tá querendo ver o mundo colorido”

  1. Ilhota Rock Festival Says:

    Muito bom a matéria com o Altair feita pelo Diarinho, sobre sua história profissional, suas opiniões e seu trabalho competente.
    Serve de exemplo para todos nós, a forma como se desenvolveu o processo de seu primeiro livro achei muito interessante, as questões sobre sua criação do “Folha de Ilhota”, gostei muito, é uma pena eu não fazer parte da turma nestes tempos em que existiu tal movimentação ai em Ilhota, mas caminhamos também nesta trilha com o blog, que serve para expressarmos nossas opiniões também (embora algmas delas não cheguem a publicação ou ao consenso mútuo, mas…), e embora alguns digam que temos que tratar unicamente de coisas referentes ao evento Ilhota Rock, fazemos de nosso espaço também voz àqueles que querem explanar sobre algo, sobre qualquer coisa na verdade.
    Parabéns ao Altair, tomara que siga seu sucesso sempre, e parabéns a você Dialison, por seguir os passos e fazer o trabalho que se prolonga para nos dar voz ativa assim como o próprio evento, e a todos nós que queremos fazer deste trabalho obras de nossas vidas, um compromisso com nosso desejos e tudo mais.
    Muito bom mesmo a divulgação deste tipo de notícia, como a do Altair, não é uma história como a do Alexander Lieberman, mas desde já serve também como exemplo para todos nós, que desejamos sucesso e compromisso para com nossas atividades culturais e informativas.
    Valeu!
    Opinião de Thiago Naga de Souza.

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