Os canibais estão na sala de jantar


Arnaldo Jabor

Sinceramente, sempre achei o “Jabor” um pé do saco. Um cara elitista que gosta de falar mal de coisas que ele não conhece, principalmente, sobre pobres. Filmes como “Eu te Amo” e “Eu sei que vou te Amar” não passam de uma compilação dos seus desejos sexuais frustrados. Porém, em “Os Canibais…”, muito melhor do que “Sanduíche da realidade”, o autor, comentarista, pinguço e cineasta carioca aborda com uma linguagem peculiar, muito diferente da que vem utilizando nos comentários “encomendados” para a Globo.

Os canibais estão na sala de jantar, livro de Arnaldo JaborOs artigos reunidos nesse livro foram anteriormente publicados no jornal Folha de S. Paulo e são testemunhos de ceticismo, ironia e dor. Dor de ser perseguido pelo Brasil, por uma idéia remota de Brasil, pelo sentimento pungente de ser brasileiro. Jabor descreve os “jovens louros e lindos que já não têm a ingenuidade alienada dos anos 60”, um “encontro” surreal com o Oswald de Andrade em plena Semana de Arte Moderna, fala dos travestis no Rio de Janeiro que não querem ser mulheres, da angustia do João Cabral e da visão errônea que antes o Brasil era melhor.

Se numa parte ele descreve (cena a cena) a morte de três assaltantes na cidade de Matupá que foram baleados e queimados vivos pelos próprios moradores, noutra ele fala sobre “Glauber” e o seu Cinema Novo. E ainda discorre sobre “Nelson Rodrigues”, sobre o problema da literatura brasileira, sobre “Rimbaud”, sobre crise, sobre riqueza e pobreza, sobre a descoberta de muitos países dentro do Brasil, sobre filmes pornôs (massa!), sobre pênis-afro e pussies-afro (bucetas), sobre seca no Nordeste, sobre o “filho da puta do Collor” (nosso presidente mais galã que se cercou de feios), sobre “Médici” e “Geisel”, sobre a “morte do PC”, sobre sórdidas surubas em Brasília, sobre o “Roberto Marinho”, sobre impeachment, sobre o governo militar, sobre a desgraça que é a televisão, sobre viados (ele adora falar de viados), sobre o quadro As meninas de “Velázquez”, sobre “Fidel”, sobre medo da miséria, sobre camisinha em tempo de Aids, sobre os intelectualóides e a governabilidade das esterilizações obrigatórias, sobre a morte dos 111 presos de Carandiru (gostei muito do texto) e sobre políticos que não saem nem f… do poder.

Banquete canibal, de Bruno LopesA última crônica é muito interessante: um diálogo com o próprio Nelson Rodrigues. Em suma: “Os canibais…” é um bom livro, mas eu esperava muito mais de um cara que escreveu isso tudo do que aquela marionete com discurso pronto na tela da Globo. (“Os canibais estão na sala de jantar” de Arnaldo Jabor, crônica, 224 págs. 1993 –  Ed. Siciliano).

Mais informações no site http://literaturaclandestina.spaces.live.com/blog/cns!9EAC2D7CC6FE8DBB!195.entry.

Escrito por Elenilson no site acima.

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