Documentário premiado resgata a revolução dos Dzi Croquettes


Documentário premiado resgata a revolução dos Dzi Croquettes

O documentário “Dzi Croquettes” pode ser considerado, desde já, um grande marco na história do cinema nacional, tanto pela relevância cultural quanto pela paixão com o qual foi concebido. Realizado a toque de caixa, o longa possui uma qualidade espantosa que o distancia de várias produções privilegiadas por leis de incentivo fiscais e patrocínios. Vencedor de vários prêmios (no Festival do Rio, Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e Festival Mix Brasil da Diversidade Sexual), o filme traz à tona a impressionante história do grupo teatral carioca Dzi Croquettes, trupe de artistas que trouxe irreverência, ousadia, muito charme e contracultura aos palcos durante a ditadura militar que regia o Brasil nos anos 70.

Os Dzi Croquettes são apresentados ao público desde a formação até a inevitável dissolução do grupo. Os diretores Tatiana Issa e Raphael Alvarez cobrem a escalada da trupe entre sucessos e fracassos, revelando sua importância histórica para a cultura nacional. Os diversos entrevistados – entre eles Liza Minnelli, Ney Matogrosso, Marília Pêra, Elke Maravilha e Claudia Raia – colocam a platéia a par de todos os problemas, conflitos, alegrias, paixões e, acima de tudo, criatividade que envolvem o grupo. Promovem assim um resgate de lembranças que materializam a idéia do fenômeno na mente da platéia.

Documentário premiado resgata a revolução dos Dzi CroquettesA injustiça cultural do não reconhecimento da trupe por parte do grande público é amenizada com preciosas imagens de suas performances glamourosas e sexualmente revolucionárias. Criado no início da década de 70, o grupo unia números de dança, música, poesia e teatro vivencial em criações coletivas, tendo o deboche e a inversão de papéis masculinos/femininos como carro-chefe das apresentações. Apoiados por coreografias inovadoras e figurinos ousados, o grupo percorria boates no Rio e São Paulo, driblando a rígida censura da época e promovendo a liberdade de expressão sexual em espetáculos memoráveis.

O filme resgata imagens e lembranças que levará até a geração que não conheceu o Dzi Croquettes a sentir saudades. Este sentimento nostálgico (e de certa forma, de perda) é alimentado a cada vídeo apresentado, a cada depoimento inflamado dos entrevistados e, principalmente, à exposição do final quase totalmente trágico dos integrantes do grupo. Da formação original, apenas cinco dos treze integrantes sobreviveram – alguns foram vítimas de brutais assassinatos, outros tantos sucumbiram à Aids.

O documentário é um registro sensível, sincero e pessoal – e este detalhe, revelado ao final do filme, leva o público incondicionalmente às lágrimas. Tatiana e Raphael entregam um atestado de amor e saudade, celebração e luto envoltos em orgulho e indignação. Além do valor inestimável do resgate, “Dzi Croquettes” é uma fonte de inspiração para a geração artística atual.

Escrito por Fabricio Ataíde. Fabriccio come, bebe e respira cinema. Fisioterapeuta por formação, bancário por necessidade, escritor por hobby e cinéfilo por vocação, assiste praticamente a todos os filmes que estreiam em circuito (inclusive os assumidamente ruins), vai estudar cinema (um dia) e dirigir um curta (outro dia). Mora em São Paulo e passa mais tempo nos cinemas da região da Paulista que na sua própria casa.

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