Oliver Stone, o militante de profissão


Oliver StoneNo mundo da tela grande da sala de projeção, o mundo real sempre foi protagonista das empreitadas cinematográficas, assim como protagonistas espelhados em elementos reais e em suas dúvidas, dramas e tramas complexas sobre situações cotidianas e rotineiras. Mas ao especular o mundo como forma de estudo e principalmente pelos fatos históricos que o moldam, o cinema conceitual atinge um nível superior e passa a ser além de um filme comum, um relato sobre sua época e determinante no entendimento sobre ações e fatos históricos inseridos em uma obra.

Dentro deste conceito, o diretor americano Oliver Stone se encaixa perfeitamente, todos os seus filmes têm por trás do contexto, debate social, acuracidade e compromisso histórico, sempre levando seus filmes a serem mais do que meras obras cinematográficas, e sim, documentos repleto de imagens sobre episódios da história, compondo um panorama real. Indo desde a guerra do Vietnam ao mundo especulativo e ganancioso de Wall Street, de presidentes de história conturbada à épico controverso, seus filmes são uma longa jornada pelos acontecimentos da história americana e também mundial.

Stone começou como roteirista, estudou na faculdade de cinema de Nova York, onde teve aulas com um pré grande diretor Martin Scorsese. Escreveu roteiros de filmes que se consagraram como “O Expresso da Meia-Noite” dirigido por Alan Parker onde foi vencedor do Oscar por melhor roteiro, escreveu “Scarface”, dirigido por Brian de Palma, e outros filmes famosos, mas não tão impactantes como estes, “Conan – O Bárbaro” é um exemplo.

Enquanto frequentava a faculdade, pede uma licença e se alista como voluntário da Guerra do Vietnam viveu ali experiências que depois colocaria em muito de seus filmes. Começou dirigindo filmes pequenos, sendo “Salvador” com James Woods uma grande obra de início de carreira, mas foi com “Platoon” seu terceiro longa que se consagrou como um grande diretor, o filme demonstra uma história parecida com a sua, voluntário entra para o exército para ser encaminhado ao Vietnam, protagonizado por Charlie Sheen, Wiiliem Dafoe, Tom Berenger,  e alguns jovens atores como Forest Withaker e Johnny Depp. O filme que era inicialmente para ser protagonizado por Emílio Estevez, irmão de Charlie Sheen, e ambos filhos de Martin Sheen, que também protagonizou um dos maiores filmes de guerra já feitos “Apocalypse Now” de Francis Ford Coppola. Para o filme, Stone convocou um velho sargento da guerra para fazer a formação dos atores, e segundo Charlie Sheen o set de filmagem parecia realmente um acampamento de treinamento do exército.

O filme rendeu Oscar e elogios, mas Stone tinha muito mais a mostrar, em “Wall Street” revela o mundo por trás dos prédios gigantes de Nova York, Charlie Sheen novamente protagoniza um sujeito comum com fortes traços de ganância, e encontra no personagem de Michael Douglas a vertente que procurava, foi um grande filme que rendeu o único Oscar da carreira de Michael Douglas, um filme intimista e bombástico sobre o sistema financeiro americano.

Cena do filme Nascido em 4 de Julho“Nascido em 4 de julho” marca uma mudança no cinema de Stone, um filme totalmente mais denso, sobre a história real de um ex soldado que fica paraplégico ao retornar da guerra, uma história real que rendeu uma atuação convincente de Tom Cruise sendo o filme uma dramatização realista e pouco vista no cinema, tanto antigo quanto atual.

Seguiram outros filmes grandiosos depois, “The Doors”, sobre o músico Jim Morrison, com boa atuação de Val Kilmer no papel principal, e JFK, um de seus filmes mais percussores sobre teorias de conspiração e relevância de fatos sobre o assassinato de John Kennedy. O filme tem várias participações e fortes atuações, com Kevin Costner, Joe Pesci, Gary Oldman como Lee Oswald o assassino, Tommy Lee Jones e participações de Jack Lemmon, John Candy e Donald Schuterland.

Cena do Filme Entre o Céu e a Terra“Entre o céu e a terra” marca sua volta ao tema do Vietnam, sendo que nunca o deixou de lado, pois todos seus filmes se passam na mesma época e dentro do contexto da guerra, sendo neste filme um retrato do modo de vida exagerado dos americanos, fazendo um imenso contraponto com a situação dos vietnamitas, Tommy Lee Jones se apaixona e leva uma vietconge para os EUA, e lá se confronta com o consumismo exagerado e a vasta abundância em comida e comodismo dos americanos, um forte filme com certa desmoralização da forma de vida americana. Este seguido pela realização de um filme diferente da carreira de Stone, “Assassinos por Natureza”, com roteiro de Quentim Tarantino e protagonizado por Woody Harrelson e Juliet Lewis, sobre um casal de assassinos que alcançam a fama por seus crimes, fortes atuações de Tommy Lee Jones e Robert Downey Jr. em filme diferente e dentro dos padrões da psicodelia.

Oliver Stone e Hugo ChavezNovamente volta às histórias presidenciais com “Nixon”, um de seus filmes mais emblemáticos sobre a conturbada temporada do presidente na Casa Branca, grande mérito na atuação de Anthony Hopkins e Ed Harris como Howard Hunt. O filme faz um trajeto na parcialidade entre a história de vida de Richard Nixon e sua obra pública para com os Estados Unidos, além de denunciar as fatalidades de seu governo, Oliver Stone mostra um lado humanizado do caricato presidente, tendo uma tonalidade diferente de “JFK”.

Até aqui o diretor marca sua trajetória sobre os vários parâmetros da guerra do Vietnam, os cenários, a diplomacia, os protestos, as consequências e as trajetórias dos rumos que levaram os EUA a conceituarem o Vietnam como uma guerra perdida.

Oliver Stone“Reviravolta” é seu seguinte filme e já caminha em outro tipo de gênero, com Sean Penn e Jennifer Lopez nos papéis principais, o filme não foi tão marcante e também conta com várias participações, filme divergente e experimental do diretor seguido por “Um Domingo Qualquer”, filme sobre um dia no jogo de futebol americano com forte atuação de Al Pacino.

Depois de realizar o problemático “Alexandre”, Stone passa por alguns problemas, e depois retorna com a criação do documentário feito com horas de entrevista com o regente cubano Fidel Castro, o resultado foi um documentário de duas partes, “Comandante” e “Procurando Fidel”, ambos nunca lançados por aqui e nem nos EUA. Fidel é um tabu imenso para todo o mundo, poucos ousam discutir ou afirmar concordâncias com seu governo, Stone sempre foi intimista e conhecendo Fidel pessoalmente afirmou que é uma grande pessoa sensata e sincera, o filme sem dúvida foi bastante criticado, mas obtém seu mérito pela dignidade da obra, sendo Stone dando a oportunidade de Fidel estar comentando sobre sua política, até hoje conturbada e questionada.

Segue-se o pequeno “As torres Gêmeas” sobre dois policiais soterrados entre os escombros do World Trade Center, filme de pouca repercussão, mas que revela uma grande história real vivida por dois policiais de Nova York, um deles interpretado por Nicolas Cage. Filma “W” filme muito esperado aqui no Brasil ainda sobre a trajetória política de George W. Bush filho, de sua juventude conturbada e bem aproveitada até a candidatura contestada, o filme ainda não lançado no Brasil, revela ser uma grande obra, não tão polêmica como “JFK” e “Nixon”, mas desde já vale a curiosidade.

Oliver Stone e FidelOutro documentário agora sobre a Amércia Latina com “Ao Sul da Fronteira”, onde Stone debate sobre as questões dos regentes das Américas tendo como protagonistas Evo Morales da Bolívia e Hugo Chavez da Venezuela.

Oliver Stone identificou o cinema para os aspectos históricos, foi sempre criticado por ser teórico conspirador em seus filmes, mas além de tudo sempre elevou o equilíbrio entre a dramatização e os aspectos históricos que competem a história, reais ou não, contestadores e provocadores. Sempre usando variações de câmeras e técnicas, Stone sempre construiu obras de imenso valor significativo, tanto que recentemente chega seu novo filme sobre o tema de Wall Street, novamente com Michael Douglas em “Wall Street – O Dinheiro Nunca Dorme”, aproveitando para debater sobre a crise econômica da bolsa americana, Stone volta ao tema por razões óbvias, o sistema financeiro americano demonstrou falhas e algo proveitoso para se fazer certa denúncia ou até precaução.

Oliver StoneEntre os diretores americanos Stone fica com a marca de quem faz seu cinema autoral e ao mesmo tempo obra cinematográfica, tendo se dedicado mais aos documentários nos últimos tempos, aguardamos sua volta ao “cinemão” com seu novo filme, é desde já um grande diretor, um militante da profissão.

Filmografia de Oliver Stone

  • Last year in Vietnam (curta) – 1971.
  • Seizure – 1974.
  • Madman of Martinique (curta) – 1979.
  • The Hand (A mão) – 1981.
  • Salvador (Salvador, o martírio de um povo) – 1986.
  • Platoon – 1986.
  • Wall Street (Wall Street Poder e Cobiça) – 1987.
  • Talk Radio – 1988.
  • Born on the fourth of july (Nascido em 4 de julho) – 1989.
  • The Doors – 1991.
  • JFK (JFK a pergunta que não quer calar) – 1991.
  • Heaven and Earth (Entre o céu e a terra) – 1993.
  • Natural Born Killers (Assassinos por natureza) – 1994.
  • Nixon – 1995.
  • U-turn (Reviravolta) – 1997.
  • Any Given Sunday (Um domingo qualquer) – 1999.
  • Comandante (documentário) – 2003.
  • Alexander (Alexandre) – 2004.
  • Looking for Fidel (Procurando Fidel – documentário) – 2004.
  • World Trade Center (As torres gemêas) – 2006.
  • W. – 2008.
  • South of the border (Ao sul da fronteira) – 2009.
  • Wall Street – money never sleeps (Wall Street, o dinheiro nunca dorme) – 2010.

Em negrito seus filmes de maior repercussão. Até a próxima postagem!

Vimos-nos Ilhota Rock Blog.

Escrito por Thiago Luis de Souza. Naga é membro Clube do Rock, sendo diretor financeiro, um dos organizadores do Ilhota Rock Festival e autor de vários artigos publicados no blog Ilhota Rock sua coluna pode ser acessada pelo link https://ilhotarockfestival.wordpress.com/category/coluna-do-naga/.



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