O mais triste dos palhaços


O mais triste dos palhaçosNeste dantesco circo chamado Brasil, eu me vejo como o mais triste de todos os palhaços. Não o genial Calvero, de Chaplin, em Luzes da Ribalta, ou ainda o arlequim enlouquecido que dança dentro de uma pequena caixa de música, mas aquele que já não dança e nem ri quando precisa vestir a máscara e esperar por mais um espetáculo, mesmo sem conhecer o enredo.

A tese da grande antropóloga inglesa Mary Douglas, tatuada a fogo no livro “Pureza e Perigo’” anunciando que “quanto mais puro e inocente, mais sujeito a despudores, pecado e sujeira”, consegue resgatar deste palhaço aquele fio de sorriso há muito escondido em algum lugar qualquer da alma. Seria de alegria ou de puro escárnio?

O mais triste dos palhaçosHá, como sugere Mary Douglas, uma complementaridade entre essas oposições, de tal sorte que quanto mais se salienta um lado mais o seu contrário adquire força.

Nosso sistema de poder vomita seus mandos e constrói sobre linhas trôpegas e tintas deléveis axiomas como “quem faz e vigia o cumprimento das normas não precisa segui-las”.

Sou aposentado de um ex-grande banco – aquele que simplesmente deixou de existir, graças às artimanhas orquestradas por alguns vendilhões da pátria, por trás das cortinas do nosso entendimento e aprovação- e fico entre o esperançoso e o derrotado, com essa alquimia unilateral e humilhante praticada em nosso país.

Onde, enfim, esconderam nossos direitos?

Onde, enfim, enfiaram nossos sonhos?

O mais triste dos palhaçosParafraseando o grande maestro Jobim, “numa sociedade onde tudo tem dono e basta ser filho desta ou daquela família para ter sucesso, os bens já estão divididos”.

Mas como sou apenas mais um cidadão comum, aposentado, sem títulos no nome, fico à espera da esperança.

Sou dono apenas da minha indignação. E filho de pequenos trabalhadores que por simples ingenuidade ou axiomática obrigação durante toda uma vida salientou e deu de comer e beber aos canalhas.

Vergonha, descrença e nojo. Continuam sendo estas as únicas palavras.

Escrito por Ademir Barbosa de Oliveira. Ademir é poeta e escritor da Academia Sanjoanense de Letras.

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