Wall Street em Cannes


Wall Street em Cannes

Oliver Stone tem aproveitado o contexto onde vive. Seu filme anterior, “W.”, biografava a trajetória pessoal e política do então presidente dos EUA, George W. Bush. Em Cannes, ontem, Stone apresentou, fora de competição, outro trabalho inspirado pelo atual momento histórico: “Wall Street 2 – Money Never Sleeps”, continuação de um dos filmes-emblema dos anos 80, “Wall Street” (1987).

Com subtítulo afirmativo “o dinheiro nunca dorme”, o cineasta volta a retratar o universo das bolsas de valores e dos especuladores financeiros, desta vez sob a ótica de jovens que saem das universidades dispostos a se dar bem nesse disputado ambiente econômico.

Num lotado encontro ontem com os jornalistas que estão em Cannes (imediatamente após a igualmente entupida sessão do filme, no Grand Theatre Lumière, pela manhã), uma turma encabeçada por Stone e Michael Douglas – ator tanto do primeiro filme (pelo qual foi premiado com o Oscar) quanto do segundo – falou sobre a concepção do projeto e os motivos que fizeram o diretor voltar ao personagem Gordon Gekko, encarnado por Douglas.

Oliver Stone“Não queria celebrar a cultura da riqueza”, afirmou ele, ao relembrar que chegou a recusar uma proposta do próprio Michael Douglas para um segundo “Wall Street”, isso, em 2006. Apenas dois anos depois veio a crise financeira mundial, mostrando a Stone que os eventos do filme de 1987 haviam ganhado uma nova proporção no século XXI, dando a deixa perfeita para voltar a falar de economia e cobiça.

“Senti a crise como um grande ataque cardíaco”, exaltou. “Parece que nos embebedamos demais (com as seduções do capitalismo) e hoje estamos sem qualquer tipo de regulamentação”, afirmou. Ao seu lado, Josh Brolin, que interpreta no longa um ambíguo e selvagem investidor, complementou: “Não existem limites para a acumulação de capital. Tudo o que se quer é sempre mais”.

Em “Wall Street 2”, o Gekko encarnado por Douglas se assemelha ao Michael Corleone de “O Poderoso Chefão 3”, de Francis Coppola: depois dos crimes e pecados do passado, ele retorna como um tipo regenerado, tentando acertar as pontas com a nova vida – no caso, Gekko sai da prisão depois de oito anos de confinamento. Agora, ele é um escritor que sobrevive de palestras sobre suas experiências na especulação financeira, mas logo é novamente engolfado pelos acontecimentos econômicos.

W.A imagem de “herói” e “vilão” deixa de existir no filme, o que é bastante condizente também com os novos tempos. “A ganância não acaba, e hoje ela é protegida por lei”, disse Michael Douglas, reafirmando o caráter anacrônico de Gordon Gekko nos dias atuais. “Ele foi muito bem escrito no primeiro filme e virou uma espécie de modelo para estudantes de MBA que, hoje, tomaram espaço nas companhias de investimento”.

Oliver Stone tem uma relação pessoal com o tema de “Wall Street”: seu pai foi investidor financeiro, numa época, segundo o diretor, em que tudo funcionava de maneira mais humana e menos mercantilista. “Meu pai sempre foi honesto, na minha visão, acreditando que deveria apenas servir aos clientes. Acho que ele ia revirar no túmulo se soubesse o que seu trabalho se transformou”, disse Stone.

Wall StreetPerguntado sobre futuros projetos, Oliver Stone desmentiu dois e confirmou outros dois. O primeiro desmentido foi o de que estaria preparando mais um “Wall Street”, desta vez sobre a juventude de Gordon Gekko. “Michael Douglas deveria ser mais jovem para isso acontecer”, brincou o diretor, em referência ao ator que encarnou Gekko em dois filmes.

Stone ainda revelou ter desistido do documentário que preparava sobre o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad. Por outro lado, ele garantiu a conclusão de um outro documentário, este sobre sobre o líder venezuelano Hugo Chávez “South of the Border”, e contou ter feito uma longa entrevista com o cubano Fidel Castro, também a ser transformada em filme.

Escrito por Marcelo Miranda. Originalmente publicado em O Tempo.

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