Chico Xavier consagra vocação para blockbuster de Daniel Filho


Cenas do filme Chico Xavier de Daniel Filho

Daniel Filho caminha a passos largos rumo a um posto cobiçado no mundo do cinema: o de maior diretor do seu país. Sua obra nunca poderá ser comparada a de Pedro Almodóvar (que ocupa a posição na Espanha) ou Juan Jose Campanella e Lucrécia Martel (que brigam na Argentina), devido à carência de inventividade e tato para lidar com temas difíceis, mas o diretor possui em seu currículo um dado que o distingue: seus filmes vendem milhões de ingressos.

Mesmo que neste caso qualidade e quantidade não se complementem, o fato de arrebanhar uma multidão de pagantes em um país onde não há fidelidade da população para o cinema nacional é algo que merece destaque – e o devido certo respeito.

Cenas do filme Chico Xavier de Daniel FilhoO mais novo longa de Daniel Filho, “Chico Xavier” foi concebido, tratado e lançado como blockbuster. A julgar pela excelente bilheteria em seu final de semana de estréia (superando o recorde anterior de cópias e público obtido por “Se Eu Fosse Você 2″), a biografia do mais conhecido e respeitado médium brasileiro tem tudo para cumprir sua ambição: tornar-se o maior sucesso comercial do cinema brasileiro em 2010.

Diretor, produtores e distribuidora parecem ter direcionado o foco para criar um blockbuster, com forte apelo popular, numa tentativa ousada de bater recordes e atrair um público bastante diversificado, além dos seguidores da doutrina Espírita. Pecaram porém em não dedicar parte desta ambição à criatividade narrativa.

Apesar de possuir movimentos de câmera com direcionamento de gruas bem diferentes de suas obras anteriores e ensaiar um apuro visual mais elaborado no que diz respeito a fotografia, figurinos e direção de arte, “Chico Xavier” mantém a incômoda característica do chamado “padrão Globo de qualidade”. A edição pouco inventiva deixa clara a impressão de que, se não fosse projetado em tela de cinema, a produção poderia ser uma minissérie da emissora carioca. Pesa neste ponto o grande número de estrelas globais em cena.

Longe de gerar polêmica ao abordar os princípios do Espiritismo ou tentar responder perguntas universais (Existe vida após a morte? A psicografia é uma forma de charlatanismo a ser contestada? Os espíritos realmente coexistem conosco no mesmo plano?), o filme foca somente a vida do médium, desde sua busca pelo autoconhecimento quando criança até sua consagração na mídia.

Cenas do filme Chico Xavier de Daniel FilhoO longa abre com uma entrevista histórica que Chico Xavier concedeu ao famoso programa “Pinga Fogo” na extinta TV Tupi. A partir daí, a narrativa repassa em flashbacks momentos da infância e juventude do médium, priorizando seu sofrimento e seu crescimento espiritual.

O roteiro, baseado em livro de Marcel Souto Maior e adaptado por Marcos Bernstein (“Zuzu Angel”), enfatiza a boa alma do biografado, vítima de violência doméstica, abandono, incompreensão e descrença por parte de sua família e comunidade. Por tantas dificuldades que sofreu, fica difícil ao espectador não se aproximar do personagem com olhos lacrimejantes e mente aberta para a aceitação dos elementos mais fantásticos de sua história.

Nelson Xavier, Ângelo Antonio e o novato Matheus Costa foram os escolhidos para (com o perdão do trocadilho) encarnar Chico Xavier no cinema.

O menino Matheus, em primeira observação, parece dar conta do recado. Chega a incitar comoção em algumas cenas, mas com o decorrer do filme percebe-se que algo está faltando em sua interpretação. O medo e a angústia que o personagem carrega (uma criança que vê e conversa com espíritos) não fica nítido em seus olhos – diferente, por exemplo, do indicado ao Oscar Haley Joel Osment que sofria do mesmo mal em “O Sexto Sentido”.

Cenas do filme Chico Xavier de Daniel FilhoÂngelo Antonio, por sua vez, brilha em sua caracterização, conseguindo transpor toda a fragilidade e inocência que fizeram parte do processo de amadurecimento do Chico jovem. Finalmente, pesa a semelhança física do ator Nelson Xavier na composição do personagem, também interpretado de forma magnífica, em sua fase final.

Bem interpretado e dirigido, “Chico Xavier” não chega a ser um filme inspirador, mas é um filme emocionante, bonito e até bem intencionado.

Se por um lado temos uma boa técnica e uma produção esmerada, por outro temos o pecado de uma abordagem folhetinesca do personagem. O drama na sequência do tribunal – onde uma carta psicografada coloca em xeque questões éticas e religiosas entre os personagens de Tony Ramos, Cristiane Torloni e Cássia Kiss – revela aquele momento do filme em que as lágrimas do público terão um papel tão importante quanto as peças publicitárias na mídia.

Daniel Filho sabe que o grande público quer rir, chorar, se emocionar e – principalmente – gostar da sua obra a ponto de recomendá-la no dia seguinte aos amigos. Ele acerta ao dosar elementos diferentes. Como drama e comédia, obtendo resultados satisfatórios para seu público alvo. Pode-se questionar a qualidade de sua obra, mas não se pode questionar sua eficácia comercial.

Leia também a entrevista com o diretor e o elenco no site http://pipocamoderna.mtv.uol.com.br/?p=22256.

Chico Xavier baixa nos cinemas

Assista um vídeo do filme no You Tube http://www.youtube.com/watch?v=VMurr843Dmg.

Escrito por Fabricio Ataíde. Fabriccio come, bebe e respira cinema. Fisioterapeuta por formação, bancário por necessidade, escritor por hobby e cinéfilo por vocação, assiste praticamente a todos os filmes que estreiam em circuito (inclusive os assumidamente ruins), vai estudar cinema (um dia) e dirigir um curta (outro dia). Mora em São Paulo e passa mais tempo nos cinemas da região da Paulista que na sua própria casa.

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