Alexander Libermann, um conceito de vida


Alexander Liberman no programa do Jô

Ao decorrer de nossas vidas, sempre encontramos pessoas e histórias que nos fazem analisar a condição humana e nossas próprias vivências, algo como pensarmos em nossos tempos em relação com fatos históricos estudados, mas quando ouvidos por pessoas que viveram neste devido tempo, sempre somos surpreendidos com relatos e aspectos da vida de cada pessoa, que sempre nos levam a analisarmos a vida de hoje com os aspectos de um certa data histórica. Alexander Libermann, polonês, judeu, taxista de profissão, ex-membro do exército Israelense, residente no Brasil e ex-prisioneiro de vários campos de concentração no período da Segunda Guerra Mundial sobre o domínio nazista na Polônia.

Alexander esteve no programa Jô Soares na terça-feira do dia (27) falando sobre sua história.

Aos nove anos de idade, morando na Polônia, teve seu pai e um tio levados pelo exército nazista onde vem a conhecer depois que foram levados a guilhotina, ambos mortos pelos nazistas por serem judeus. Sua família, composta por sua mãe e mais duas irmãs e um irmão, que se escondem constantemente às invasões no subsolo de um prédio. São capturados e encaminhados a um campo de extermínio, logo quando chegam ficam todos em uma fila aguardando a execução. Já na fila um dos soldados tira uma de suas irmãs do colo da mãe, a joga para cima e dispara um tiro, era um bebê recém nascido ainda.

Depois do horrendo fato, Alexander conta que se negou a morrer naquela fila e deixou todos para trás e fugiu. Na fuga, leva um tiro pelas costas que fica alojada na bacia, consegue escapar e encontra em meio às matas, guerrilheiros poloneses, na maioria judeus e se junta com eles, começa a aprender a manusear armas e ficar de guarda contra a invasão nazista.

Com sendo ainda pequeno e novo, o grupo o manda até a cidade para comprar mantimentos para os guerrilheiros, numa dessas idas até a cidade, soldados ficam de vigia e suspeitam de sua compra, que era em grandes proporções. Os soldados nazistas abordam o jovem garoto perguntando se ele é judeu, Alexander disse que não. Então, os soldados, nazistas, o levam a um quarto e ordenam a tirar sua roupa para obter a prova através da circuncisão, e confirmam a suspeita. Feito isto os soldados encaminham Libermann a um trem com destino aos campos de concentração.

Nos campos de concentrações em que passou, é submetido a trabalhos forçados, com pouca comida, vendo seus amigos e outros presos sendo brutalmente mortos e mal tratados, nas câmaras de gás, nas fornalhas, e nas execuções a tiro. Assim que eram terminados, as execuções nas câmaras e fornalhas, Alexander Libermann comenta que era enviado para dentro com uma alicate para remover dos mortos seus dentes de ouro, fato que ele conta até com certo humor. Certa vez, foi tirar de um corpo e o homem ainda estava vivo, lhe dizendo que podia remover o dente mas que não contasse a ninguém que estava vivo.

Navio ÊxodosAlexander fora enviado a outros campos de concentração, pela Alemanha e Polônia, devido ao fato de ser bom trabalhador, e de atender as ordens nazistas nos campos, foi enviado a um campo onde se fabricavam caminhões e aviões, tanques e canhões. Lá, conhece o trabalho com engenharia, depois é mandado para o famoso campo de Auschwitz, onde fica pouco tempo e apenas presencia mortes e execuções de judeus.

Depois deste longo período, os Soviéticos começam a avançar e os nazistas a deixarem os campos, assim como a perderem a guerra, Libermann é encontrado por soldados soviéticos e levado de avião até Moscou, onde todos ficaram surpreendidos, perguntando-o se “estava vivo”, com sua aparência esquelética, e afirma que sim, que de fato, estava vivo. Em Moscou é apresentado ao próprio Stalin, que também o questiona se está vivo mesmo, Alexander já tinha seus 14 anos, e era uma caveira ambulante, como afirmou na entrevista.

Os soldados o deram roupas quentes para o frio, haviam dado banho, e depois do encontro com Stalin, então chefe da União Soviética, foi levado ao reformatório, lá passa a noite com outros rapazes, alguns também sobreviventes, e a noite usa suas novas roupas como travesseiro. Um dos rapazes o rouba suas roupas durante o sono, e ele procura um jovem mais fraco que ele, e também rouba suas roupas, se veste e sai à procura da cruz vermelha.

Portões de AuschwitzA cruz vermelha o acolhe e sabendo de sua história e sabendo que era polonês, o levam novamente para seu país de origem. Chegando lá, desaba em febre e doenças, com variados tipos de tifos, hoje tuberculose, é encaminhado ao hospital da cidade polonesa e fica lá durante muito tempo. Os médicos, segundo seus relatos, consideravam os doentes de campos de concentração como obrigações de ficarem vivos, e faziam um grande esforço para manter a sobrevivência dos ex-prisioneiros. São enviados antibióticos para testes em pacientes. Os remédios são usados em vário pacientes, onde alguns morrem sem efeito, ao chegar sua vez Alexander Libermann conta que ao ingerir o medicamento, logo levantou e falou que queria “macarrão”.

Melhorou e depois de algum tempo morando em internatos, decide entrar junto com outros jovens para o exército e partiu para Israel, onde veio a morar com outros grupos de judeus. Embarca no Êxodos, o navio ilegal, considerado pelo domínio Inglês, que levava ex-prisioneiros judeus do Holocausto para Israel, todos eles são capturados e enviados a prisões em Israel, depois sai e logo começa a viver no país, entra para o exército e vira instrutor.

Com o passar dos tempos, decidi revogar mais direitos a seus superintendentes, não consegue e decidi junto de outros amigos, a imigrar até outros países. Escolhem a Venezuela, onde há a revolução de 1958, os proibisse a entrada de imigrantes, então vai ao consulado israelita no Brasil, onde fica, e permanece até hoje no Rio de Janeiro, sobrevivendo ao holocausto para virar carioca.

Alexander LibermanHoje, vivo, participa de encontros judaicos e fala sobre suas experiências de vida em palestras e entrevistas, como foi concedida ao Jô Soares (no programas do Jô da rede Globo). Possui duas filhas em Israel, e uma filha aqui no Brasil, uma garota nova e muito bonita que o acompanhava na platéia do programa.

O que posso dizer sobre tudo isso, em uma opinião pessoal, é que histórias desta magnitude fazem e devem nos fazer pensar sobre nossas próprias atitudes em vida, a falta de humanismo que este senhor presenciou em seus primeiros anos de vida, logo na infância, é de fato uma grande sorte que tenha sobrevivido para nos contar sua história, comovente e curiosa, tanto pela tragédia como pelos aspectos históricos.

Alexander Libermann parece viver bem hoje em dia, assim como merece e ainda dispõem de boa saúde, outro fato interessante que aquela bala que levou aos 9 anos de idade, fora removida só quando chegou aqui no Brasil, já bem adulto, cresceu com a prova viva de sua sobrevivência em suas costas. A bala já não guarda mais, mas sua história é preservada e contada como uma experiência de vida para todos nós, de outra geração que conhecemos somente o que contam os filmes e livros, sendo que muitos nem assim conhecem, e pessoas como Alexander estão ai para nos apresentar sua vida, que de tão interessante, chega a nos ser percussora em usufruirmos de tempos de paz.

Escrito por Thiago Luis de Souza. Naga é membro Clube do Rock, sendo diretor financeiro, um dos organizadores do Ilhota Rock Festival e autor de vários artigos publicados no blog Ilhota Rock sua coluna pode ser acessada pelo link https://ilhotarockfestival.wordpress.com/category/coluna-do-naga/.

5 Respostas to “Alexander Libermann, um conceito de vida”

  1. Oi Dialison,

    Muito boa a sua postagem. Gostaria que o Alexander tivesse algum site, justamente para colocar fotos e descrever mais os detalhes da sua história. Será que tem como entrar em contato com ele?

    Abraços

  2. André Says:

    Olá, Dialison!

    Eu vi a entrevista e conheço o seu Alexandre (como o chamávamos), somente não conhecia sua história até recentemente, quando ele deu uma entrevista para o caderno Revista do jornal O Globo. Morávamos no mesmo prédio por uns vinte anos (ele continua lá. Minha família continua lá. Eu é que sai).

    Gostei tanto da entrevista e da história dele, que fui pesquisar na web e encontrei seu blog, gostei também do texto (fiz aquela correção para que não seja passada uma informação errada. Mas que os dois se parecem … Isso sim!).

    Ah, sou do Rio de Janeiro (capital). E sou mais Blues do que Rock (apesar de gostar também, principalmente os mais próximos à essência musical do Blues, do R’B, do Rockabilly).

    Parabéns pelo blog e pela vontade de divulgar cultura, que se faz necessário e importante, principalmente para um país como o nosso.

    Um grande abraço a você e o Naga.

    PS: Ontem no Jô houve outra excelente entrevista, do vice-presidente José Alencar, outro sobrevivente e guerreiro (por causa da doença), além do seu progresso. Apesar de eu não gostar de suas companhias políticas.

    • Victoria Z. Says:

      Olá, meu nome é Victoria, tenho 19 anos, sou de Balneário Camboriú (SC), como você é conhecido do Alexander Libermann, gostaria de saber se existe uma possibilidade de eu conseguir contato ou até mesmo conhece-lo, pois para mim seria uma grande oportunidade de estar com uma pessoa com uma história de vida inacreditável como essa, tenho interesse de saber mais sobre os detalhes dessa jornada que me encanta a cada palavra…

      Aguardo ansiosa por uma resposta, obrigada.

  3. d i a l i s o n Says:

    Olá André!
    Que bom que você gostou da postagem!
    Realmente emocionante mesmo.
    O curioso é que o autor do texto o Naga, assistiu a entrevista no programa do Jô e eu também a assisti e não moramos na mesma cidade e no dia seguinte ele me manda esse texto baseado na entrevista, somente na entrevista. Memorizou tanto que não esqueceu de uma palavra se quer e eu o mesmo e podemos corrigir juntos.
    Sim, houve alguns erros e vamos corrigi-lo.
    Nós do clube do rock agradecemos pela sua passada pelo blog e a gente não pensa só em rock não, nosso forte é a cultura, em sua mais diversas manifestações.
    Junte-se a nos André e vamos divulgar seu ponto de Vista e senso crítico.
    Agora uma coisa: de onde você é e qual sua origem? Vamos nos conhecer e nos relacionar melhor. Para a gente, quanto mais pessoas poder escrever melhor! Vamos ser amigos!
    As mudanças serão corrigidas!
    Obrigado!

  4. André Says:

    Amigo,

    Essa história é mesmo emocionante e dramática.

    Mas favor conferir se essa em preto e branco não é de outro Alexander Liberman (acho que é de um artista russo, radicado nos EUA, já falecido).

    Incrível é que realmente existe uma semelhança entre os dois, apesar que o outro seria mais velho pela foto.

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