Fitzcarraldo, um filme de ousadias e perfeições


Fitzcarraldo

Fitzcarraldo

Visualmente magistral e uma grande ousadia cinematográfica, um filme deslumbrante e com cenas memoráveis e também de procedências improváveis, um nobre clássico feito pelo diretor alemão Werner Herzog, diretor de outros pequenos clássicos como a readaptação de “Nosferatu” de 1979, “Stroszek”, “O Enigma de Kaspar Hauser”, e os mais recentes “O Sobrevivente” e “Vício Frenético”, em plena mata amazônica, tanto pelo lado do Brasil, e também do Peru.

O filme retrata a empreitada de um empreendedor descendente irlandês em encontrar e explorar um novo caminho pela Amazônia na extração da borracha, seu nome é Brian Sweeney Fitzgerald, e como os nativos não conseguem pronunciar seu nome o chamam de Fitzcarraldo, com o objetivo de enriquecer e montar em plena mata um teatro de ópera a ser mostrada aos nativos. Antes desta sua escolha pela viagem, temos o empreendedor alemão em suas tentativas como fabricante de gelo, e também empreendedor de uma obra de construção de uma ferrovia que passa por dentro da mata, a qual desistiu e deixou inacabada, assim como todos os seus negócios viram empreendimentos do inútil.

Movido por este espírito de conquistar o desejo de trazer a ópera italiana para os povos nativos, conquista os direitos de explorar as terras subindo o rio da Amazônia, com os perigos das tribos indígenas selvagens e contando com a tripulação composta por nativos em sua maioria oriundos do Brasil. Klaus Kinski, ator alemão conhecido por suas excentricidades e perfeccionismos, e uma aparência questionável, encarna o papel do empreendedor, sua empreitada é auxiliada pelo personagem interpretado pelo ator brasileiro José Lewgoy, e financiado pelo personagem da atriz italiana Claudia Cardinale, famosa pela beleza e pelos filmes que fez com o diretor italiano Frederico Fellini.

Alguns pontos curiosos do filme são as participações de Milton Nascimento como um porteiro de teatro, e Grande Othelo, como o encarregado da estação abandonada. O filme demonstra cenas belas com planos aéreas e tomadas longas, e muita ousadia, como na cena em que os personagens transportam o navio por cima de um morro até a outra margem para dar sequência a viagem de exploração, o morro é desmatado e a movimentação do navio fora filmada em tempo real, tudo com artifícios arcaicos, com madeira, troncos, cordas e cabos de aço e ação humana, a cena é impressionante.

Outra parte curiosa é a cena em que o navio é levado pela correnteza onde também a filmagem é feita em tempo real sem efeitos de qualquer parte, nesta empreitada ficaram ao navio apenas seis voluntários da equipe, sendo um deles o próprio diretor, para realizar as filmagens perigosas, dois membros da equipe se machucaram, e um deles quebrou três costelas na empreitada.

Movido pela ganância e o desejo de conquista a qualquer custo, até a desperdiçar vidas humanas, o personagem segue com seus desejos em meio a cenas contagiantes e passagens lindas de arte cinematográfica, o filme rendeu ao diretor o prêmio de direção em Cannes, e ainda foi selecionado a candidato da palma de ouro, Klaus Kinski foi o terceiro ator a ser selecionado para o papel, outro que fora cogitado era Jack Nicholson, que foi dispensado, e Mick Jagger chegou a gravar cenas como o imediato do navio, mas teve que deixar a produção por causa da agendas de show dos Rolling Stones, com estas desavenças, o diretor teve que retomar boa parte das filmagens.

Um filme ousado e liricamente belo é uma empreitada louvável do diretor alemão, que fez deste filme um de seus grandes clássicos. José Lewgoy arrancou elogios do ator alemão Klaus Kinski, temperamental e ignorante em relação a outros atores da época. Em 157 minutos de projeção, somos transportados para algo novo, é um filme diferente do habitual e por isso tem seu mérito nos grandes clássicos do cinema, com direito a cenas teatrais de ópera, planos longos e belos em meio à natureza amazônica e uma orquestra em uma peça de ópera encenada de cima do navio em meio ao rio.

Klaus Kinski atuou em diversos filmes de Herzog, os dois sempre divergiam de algumas ideias e brigavam muito durante as produções, mas sempre chegavam em acordos e o resultado são filmes carregados de emoções e diferenciados do cinema habitual. Filmado em 1982, falado em alemão, fica até hoje como um marco do cinema moderno, e uma grande obra, ousada e eficaz, e magnificamente bela, do tipo de cinema que não é comum presenciar, principalmente hoje em dia, com esta modernização do mundo digital para os filmes, que não é errado, mas quando se habitua em exagero, as obras cinematográficas viram apenas entretenimento barato, esquecendo o embate social e a arte em si, é como compararmos o recente “Senhor dos Anéis”, com suas lutas com milhões de figurantes digitais, onde vemos em filmes como “Ben-Hur” ou “Spartacus”, milhões de atores de verdade, fazendo uma cena magistral, e é o que de fato acontece com “Fitzcarraldo” em suas cenas carregadas de ousadia e perfeição técnica.

Um grande filme que merece seu destaque como uma obra-prima, assim como Herzog, que merece o grande destaque como o grande diretor que é! Klaus Kinski faleceu em 1991, José Lewgoy, brasileiro, morto em 2003, Grande Othelo em 1993 e permanecem vivos Claudia Cardinale ainda bela, e o diretor Herzog ainda em ativa, seu último filme foi Vício Frenético, já comentado aqui no blog e um grande filme também.

Escrito por Thiago Luis de Souza. Naga é membro Clube do Rock, sendo diretor financeiro, um dos organizadores do Ilhota Rock Festival e autor de vários artigos publicados no blog Ilhota Rock sua coluna pode ser acessada pelo link https://ilhotarockfestival.wordpress.com/category/coluna-do-naga/.

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