Cinema se faz na raça


Werner Herzog

Cinema verdadeiro é aquele feito por paixão, pelo gosto mesmo, e qualquer diretor de cinema que se preze, deve sempre levar isto em consideração, por isto temos muitas vezes uma obra sempre autoral nos filmes, principalmente junto a figura daquele que dirige um filme, ele da o estilo e o tom que o filme proporciona, e assim é muito notável a grande repercussão sobre os diretores de cinema, e alguns são exemplos de criatividade e estilos que fazem de nós, apreciadores de filmes em geral, ficarmos fascinados pelo ofício dos diretores de cinema.

Alguns exemplos já foram citados e tiveram sua obra comentada aqui, e outro grande entre esses já mencionados, é o diretor alemão Werner Herzog, um dos diretores mais representativos do cinema alemão na atualidade. Do embate social às tragédias cotidianas ou históricas, Herzog é um pronunciador da vida humana em meio ao caos da civilização.

O que poderíamos dizer de um jovem de pais croatas, nascido em Munique na Alemanha em plena guerra mundial, que mudara-se constantemente fugindo da guerra, foi para Áustria, já sem o seu pai que fora para um campo de concentração, volta a Munique e acaba por morar em um apartamento compartilhado.

Herzog significa Duque, nome que foi adotado pelo diretor mais tarde como sendo o seu, nascera Werner Sieptic, autoditada nos estudos sobre cinema, roubou uma câmera de 35 mm da escola de filmes em Munique, ganha uma bolsa para a Universidade e desisti de tudo e se manda para o México, trabalha em rodeios, e depois vira metalúrgico para conseguir dinheiro para realizar seu primeiro filme. Audacioso mesmo antes de virar diretor, Herzog sempre foi emblemático, como em seus filmes, sempre com tramas de pessoas com sonhos impossíveis e talentos obscuros.

Dirigiu inúmeros filmes, para TV e cinema, além de curta-metragens, e de sua vasta obra nasceram alguns clássicos do cinema moderno, alguns sempre em colaboração com seu ator fetiche Klaus Kinski, alemão excêntrico e cheio de extravagâncias, e um dos que compartilharam o apartamento com Herzog quando este voltava para Munique quando era jovem. Os dois sempre tiveram grandes discussões durante as produções, mas suas parcerias sempre funcionaram em tela, como no clássico “Aguirre, a cólera dos Deuses”, primeira parceria de Klaus com Herzog, que resultou em um grande filme sobre as expedições espanholas em procura de El Dorado, a lendária cidade do ouro, um filme que exprime a visualização  dos sentimentos dos personagens em relação ao sonho de conquista e medo em relação ao desconhecido, a ambição e ganância.

Werner HerzogEntre seus filmes mais conhecidos e bem sucedidos, podemos citar também a grande produção que foi o filme “Fitzcarraldo”, já comentado por aqui, onde mais uma vez junto de Klaus Kinski e atores brasileiros como José Lewgoy, Grande Othelo e a participação de Milton Nascimento, constrói uma obra sobre ambição e sonhos impossíveis, tudo com audácia e ousadia, com cenas complicadas em tempo real, como a passagem de um navio sobre uma montanha com instrumentos arcaicos, e a descida de uma correnteza rio abaixo. Ambos os filmes foram filmados em matas amazônicas e no Peru.

Fez uma refilmagem e uma reapresentação do personagem Nosferatu, criado por Friedrich Murnau, baseado no Drácula de Bram Stoker, Herzog faz uma homenagem ao diretor compatriota e uma reinvenção do Conde Orlock, o vampiro desconforme e feio interpretado pelo também desconforme e feio Klaus Kinski.

Entre clássicos consagrados e filmes meramente ótimos, Herzog construiu uma carreira sólida com filmes autorais, seguiram-se com Klaus o total de cinco filmes onde o diretor fala sobre o ator em um documentário feito em 1999. “As pessoas acham que nós mantínhamos uma relação de amor e ódio. Bem, eu não sentia amor por ele, nem o odiava. Nós nos respeitávamos mutuamente, mesmo que tivéssemos cada um planejado assassinar o outro”. Citação presente no documentário “Mein Liebster Feind”, meu melhor inimigo na tradução.

Além dos filmes citados com Klaus, Herzog ainda fez com ele “Cobra Verde” e “Woyzeck”, no primeiro Klaus interpreta um bandido brasileiro conhecido com o nome de Cobra Verde. Entre sua atribulada filmografia extensa, o diretor ainda montou grandes filmes que vão até a atualidade.

O documentário “O Homem-Urso”, se tornou um marco, por se tratar do fato real da vida do ambientalista Timothy Treadwell, que viveu em meio aos ursos, e pelo mesmo foi esquartejado, onde Herzog percorre os passos de sua vida, segundo o filme anuncia um dos amigos de Timothy, possui uma fita que estava na câmera quando ele foi atacado pelo urso, onde há uma gravação de sons, a fita ficou aos cuidados deste amigo que até hoje nunca a ouviu, Herzog escutou e aconselhou este colega de Timothy a nunca ouvir, e sugeriu a destruição da mesma.

Outro filme seu que merece destaque é “Storszek”, sobre um músico com o mesmo nome do título, o filme foi encenado por não atores, e a grande curiosidade dele é que Ian Curtis ex-vocalista da banda Joy Division o assistiu antes de cometer suicídio na casa de sua esposa.

Entre seus mais recentes filmes citamos “O Sobrevivente”, com Christian Bale (O novo Batman), com uma atuação bastante marcante, junto dele Steven Zahn, ator mais conhecidos por comedias onde aqui demonstra uma atuação mais dramática e psicótica, sendo o filme sobre um piloto de Werner Herzogcaça que fica perdido ao Vietnam em meio a guerra e posto a condição de prisioneiro, é a história real de Dieter Dungler, piloto do Vietnam. Seu último filme lançado até então é “Vício Frenético” com Nicolas Cage e Eva Mendes, comentado aqui no blog, e um ótimo filme, sendo selecionado na última Amostra de Cinema de SP.

Werner Herzog possui filmes marcantes, com temáticas interessantes e técnica primorosa, as músicas também em seus filmes são grandes atrativos, desde ópera, clássica e o blues. Na categoria dos grandes cineastas, Herzog tem um espaço seu, e aqui no blog comentamos esta sua importância para o cinema, o verdadeiro cinema.

Filmografia de Werner Herzog

  • Herakles – 1962 (curta-metragem).
  • Jogo na areia (Spiel im sand) – 1964 (curta-metragem).
  • A defesa sem precedentes do forte Deutschkreuz (Die beispiellose verteidigung der festung Deutschkreuz) – 1967 (curta-metragem).
  • Sinais da vida (Lebenszeichen) – 1968.
  • Últimas palavras (Letzte worte) – 1968 (curta-metragem).
  • Medidas contra fanáticos (Massnahmen gegen fanatiker) – 1969 (curta-metragem).
  • Os médicos voadores da África oriental (Die fliegenden ärzte von ostafrika) – 1969 (curta-metragem).
  • · Também os anões começaram pequenos (Auch zwerge haben klein angefangen) – 1970.
  • Fata Morgana – 1971.
  • Futuro impedido (Behinderte zukunft?) – 1971. (TV)
  • Terra do silêncio e da escuridão (Land des schweigens und der dunkelheit) – 1971.
  • Aguirre, a cólera dos deuses (Aguirre, der zorn gottes) – 1972.
  • O enigma de Kaspar Hauser (Jeder für sich und Gott gegen alle) – 1974.
  • O grande êxtase do escultor Steiner (Die grobe ekstase des bildschnitzens Steiner) – 1974 (curta-metragem).
  • Coração de cristal (Herz au glas) – 1976.
  • How much Wood would a woodchuck Chuck – 1976 (curta-metragem).
  • Mit mir will keiner spielen – 1976.
  • Stroszek (Stroszek) – 1977.
  • Warten auf eine unausweichliche katastrophe – 1977 (curta-metragem).
  • O vampiro da noite (Nosferatu: Phantom der nacht) – 1979.
  • Woyzeck (Woyzeck) – 1979.
  • God’s angry man (TV) – 1980.
  • Fitzcarraldo (Fitzcarraldo) – 1982.
  • Der leuchtende Berg (TV) – 1984.
  • Onde sonham as formigas verdes (Wo die grünen ameisen träumen) – 1984.
  • Portrait Werner Herzog – 1986.
  • Cobra verde (Cobra verde) – 1987.
  • Les français vus par – 1988 (TV).
  • Les gauloises – 1988 (curta-metragem).
  • Giovanna d’Arco – 1989 (TV).
  • Jag Mandir: Das excentrische privattheater des maharadscha von udaipur – 1991.
  • No coração da montanha (Cerro Torre: Schrei aus stein) – 1991.
  • Lektionen in finsternis – 1992 (curta-metragem).
  • Glocken aus der tiefe – 1993.
  • Die verwandlung der welt in musik – 1994.
  • Tod für fünf stimmen – 1995.
  • Little dieter needs to fly – 1997.
  • Meu melhor inimigo (Mein liebster feind – Klaus Kinski) – 1999.
  • Julianes Sturz in den Dschungel – 2000 (TV).
  • Invincible – 2001.
  • Pilgrimage – 2001.
  • Ten minutes older: The trumphet – 2002.
  • Wheel of time – 2003.
  • The White diamond – 2004.
  • Além do Azul (The Wild Blue Yonder) – 2005.
  • O Homem-Urso (Grizzly Man) – 2005.
  • O Sobrevivente (Rescue Dawn) 2006.
  • Encounters at the end of the world – 2008.
  • Vício Frenético (Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans) – 2009.

Em negrito os filmes de maior repercussão. Até a próxima.

Escrito por Thiago Luis de Souza. Naga é membro Clube do Rock, sendo diretor financeiro, um dos organizadores do Ilhota Rock Festival e autor de vários artigos publicados no blog Ilhota Rock sua coluna pode ser acessada pelo link https://ilhotarockfestival.wordpress.com/category/coluna-do-naga/.

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