Heróis da guitarra solam e rugem


Eric Clapton comanda Crossroads Guitar Festival

Imagens em close de cordas, braços e dos dedos calejados dos guitarristas enchiam as telas do Toyota Park, um estádio em Bridgeview, na periferia de Chicago, sábado, no qual o Crossroads Guitar Festival, promovido por Eric Clapton, recebeu duas dúzias de famosos guitarristas para um show de 11 horas de duração para o qual todos os ingressos disponíveis foram arrematados.

Entre os grandes guitarristas que se uniram a Clapton estavam B. B. King, Jeff Beck, John Mayer, Buddy Guy e Vince Gill. Clapton assistiu a todo o show antes de subir ao palco à frente de sua banda, com Beck e Steve Winwood como convidados. Ele também deu uma canja no show de abertura do espetáculo, com o guitarrista Sonny Landreth, especialista em slide guitar da Louisiana, e posteriormente apareceu de novo para tocar com Sheryl Crow.

Foi a terceira maratona Crossroads organizada por Clapton; as duas precedentes aconteceram em Dallas, em 2004; e aqui em Bridgeview, em 2007. Embora os espetáculos sejam beneficiantes, para o Crossroads Center, uma clínica de tratamento de viciados, sem fins lucrativos, fundada por Clapton no Caribe, também servem como comícios em apoio a uma espécie que muitas vezes parece em risco: a dos heróis da guitarra, o tipo de instrumentista capaz de conquistar e manter a atenção de uma audiência com longos solos.

O punk tinha por missão destronar os heróis da guitarra, ao surgir décadas atrás, porque via os solos longos que os caracterizam como exercícios inúteis de ego. E ainda que o punk tenha causado estrago, a espécie sobrevive. Ao longo do dia, os músicos reunidos usaram suas guitarras elétricas para deslumbrar e encantar, para rugir e cantar, para ditar ritmos dançantes e melodias especiais, para dialogar e competir.

O Crossroads foi um evento claramente antiquado. Cada nota, excetuados alguns efeitos de eco, nasceu da mão de um música. E quase todas as bandas receberam convidados em suas apresentações, o que dá a entender que os músicos ainda recuam a fundações comuns oriundas do blues, mesmo depois de décadas de marketing de nicho e fragmentação de gêneros. Não foi um festival de blues ¿Chicago já sedia um deles- mas em larga medida um festival de blues-rock, com Clapton, Beck, ZZ Top, Johnny Winter e Ron Wood (dos Rolling Stones), no passado estudiosos e transformadores do blues e agora tornados ancestrais de novas gerações de músicos.

Os homens que os inspiraram e que continuam a ser seus ídolos, tais como Hubert Sumlin, 78, por muito tempo o guitarrista da banda de Howlin¿ Wolf, costumavam tocar solos lacônicos, provocantes e sutis. O pessoal do blues rock era mais vistoso e menos sutil, e essas qualidades conduziram o gênero a audiências mais amplas. A Robert Cray Band e David Hidalgo e Cesar Rojas, do Los Lobos, mostraram apenas seu lado blues no Crossroads, e se embeberam das mesmas fontes, no blues e no blues rock, ao começar, nos anos 70. Agora, eles mesmos parecem artistas de raiz.

O ritmo do funk, mais quebradiço e cinético, é adotado pelo contingente mais jovem, entre cujos representantes temos Robert Randolph, que toca pedal steel, e os ferozes guitarristas texanos Doyle Bramhall II e Gary Clark Jr. Beck mostrou que acompanhou as tendências, liderando uma banda com um baixista funk e usando tons futuristas de guitarra sintetizada em seus solos, ainda que as lições do blues elétrico ¿as frases lancinantes, a tensão da linha melódica- continuam presentes em seu estilo. (Ele voltou ao blues de raiz em sua canja no show de Clapton.)

Para muitos dos músicos, o momento histórico mais interessante do espetáculo se relacionava ao final dos anos 60 e começo dos 70. Quando não estavam tocando canções próprias, eles citavam principalmente Jimi Hendrix e Clapton. O grupo Derek Trucks e Susan Tedeschi Band invocou o ritmo pesado da Allman Brothers Band, com seus dois bateristas; Trucks e um convidado, o guitarrista Warren Haynes, são os dois membros do grupo de Allman, que teve de cancelar sua presença porque o líder, Gregg Allman, recebeu um transplante de fígado na semana passada.

Houve longas sequências de solo, colisões entre múltiplas guitarras e colóquios entre gerações. Não havia muitas mulheres liderando bandas ¿ apenas Crow, que tocou canções de seu disco que ainda está por ser lançado, e a guitarrista Susan Tedeschi. Guy, 73, um guitarrista de blues que ninguém deveria desafiar, foi acompanhado por Jonny Lang, 29, e por Wood, 63. Lang acompanhou as notas agudas de Guy e seus picos de velocidade nos solos, com uma expressão digna de um herói da guitarra em seu rosto, mas momentos mais tarde terminou sobrepujado por Guy que solou com o rosto tranquilo e fez a guitarra expressar dor, suspense, orgulho e raiva, mais do que domínio técnico. (Wood, sabiamente, optou por ficar à sombra, acompanhando os dois outros guitarristas com seu estilo experiente e econômico).

Os apreciadores da guitarra decerto admiraram o trabalho de Mayer, cuja banda, um power trio, requer que ele toque ritmo, solo e barulho ao mesmo tempo. Também houve outros guitarristas que devem ter deliciado os aficcionados do instrumento: Landreth; Sumlin, ainda cantando briosamente apesar dos tubos de oxigênio no nariz; o pioneiro do rockabilly James Burton, capaz de reproduzir o som de uma guitarra pedal steel com um instrumento convencional; e Bert Jansch, do grupo britânico de folk progressivo Pentangle, que interpretou canções pensativas e sincopadas, privilegiando o contraponto e o dedilhado no violão acústico.

Gill, um virtuose do country, usou sua banda para acompanhar quatro outros guitarristas: o bluesman Keb¿ Mo¿, o guitarrista de jazz pop Earl Klugh e o guitarrista country Albert Lee, e os acompanhou muito bem em todos esses estilos, respondendo a Keb¿ Mo¿ com blues e a Lee com um estilo bluegrass igualmente veloz. (Gill também dividiu os vocais com Crow em um sucesso de Clapton: Lady Down Sally).

A apresentação de Clapton não entusiasmou muito antes que Beck subisse ao palco, seguido por Winwood, um dos mais coesos solistas do dia, o que levou o anfitrião aos seus melhores esforços. King estava em um dia estranho, com solos longos, falando enquanto a banda tocava, e Clapton parecia desconfortável em sua companhia. Mas, em seus melhores momentos, o veterano do blues ainda se mostrou eficaz e econômico nas improvisações. O indomável Guy, com justiça, liderou a banda em um confuso final improvisado em torno do tema Sweet Home Chicago.

Perto do final do show, Clapton, sorridente, anunciou a possibilidade de outro Crossroads. “Este seria o último, mas não creio que seja”. Ele tinha “outras pessoas a convidar”, disse, e é fato. Há muita gente que ele poderia ter convidado no mundo do blues-rock – Dead Weather, Them Crooked Vultures, Black Keys- e das bandas que privilegiam a guitarra. Clapton poderia facilmente adicionar guitarristas e bandas de fora do território do blues-rock, que amam a guitarra mas a utilizam de outras formas culturais e com outras texturas -Wilco, Sonic Youth, Dirty Projectors e Marnie Stern; o guitarrista slide indiano Debashish Bhattcharya; e o mestre brasileiro da Bossa Nova João Gilberto, que foi anunciado para o festival mas não compareceu; e muitos outros.

Embora os heróis da guitarra possam ser mais escassos hoje, o instrumento persiste.

Fonte: The New York Times. Publicado no portal Terra.

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