Walter Salles põe o pé na estrada


Walter Salles

Francis Ford Coppola tentou. Gus Van Sant também. Até Walter Salles chegou a achar que tampouco conseguiria tirar o projeto do papel. Ele dizia que precisaria de um “milagre” para que “On the Road” deixasse de ser o filme de seus sonhos para se materializar nos cinemas.

O milagre veio. Mas foi preciso que o diretor brasileiro lhe desse uma ajudinha. Durante os últimos quatro anos, Walter Salles percorreu as mesmas estradas que Jack Kerouac e Neal Cassidy percorreram nos anos 40, em busca da América profunda. As estradas desertas, os trabalhadores rurais, os postos de gasolina no meio do nada e a atmosfera carregada da crise econômica foram estampadas num documentário filmado pelo cineasta, chamado “À Procura de On the Road”.

A empresa francesa MK2 viu uma versão editada do documentário, exibida no final de abril no Festival Internacional de Cinema de San Francisco, e entrou no negócio, garantindo distribuição na Europa para a futura adaptação. Finalmente na quarta, 5 de maio, o diretor conseguiu o financiamento, numa parceria entre o canal digital britânico Film4 e a sua companhia Videofilmes. O filme também será coproduzido pela American Zoetrope, de Francis Ford Coppola, que detém os direitos do livro para o cinema desde 1979 e nunca conseguiu tirar o projeto da gaveta.

“Foram necessários quatro anos de pesquisa e trabalho para o filme se tornar possível, a exemplo do que aconteceu com ‘Diários de Motocicleta’”, disse Salles, aliviado, ao anunciar no fim de semana que o filme seria mesmo feito.

O dinheiro para a produção veio junto da notícia de que Kristen Stewart faria o papel de Marylou, esposa adolescente do personagem Dean Moriarty – na verdade, a versão literária de LuAnne Henderson, que se casou com o muso beat Neal Cassady aos 16 anos. ““Acho que eu posso me exibir um pouquinho contando isso. Estou muito animada. É um grande papel”, disse a atriz, ao tornar sua escalação pública.

Coincidência ou não, a atriz de apenas 19 anos tem viabilizado vários projetos independentes com sua presença – entre eles, filmes abertamente anticomerciais como “Welcome to the Rileys” e o remake de “The Yellow Handkerchief”. Hollywood, o público e até a crítica um pouco contrariada (ela não seria tão boa atriz quanto pensa) simpatizam com a mística da “indie girl” que Kristen se dedicou a criar, aproveitando sua fama repentina na franquia teen mais pop dos últimos anos, a “Saga Crepúsculo” – originalmente, outro filme indie, que simplesmente saiu do controle.

As filmagens de “On the Road” começam em agosto, um mês antes de Kristen se dedicar ao capítulo final da “Saga Crepúsculo”, “Amanhecer”. Segundo Walter Salles, o elenco será o mesmo que ele tinha em mente quando começou a pensar no projeto.

Garrett Hedlund, que estará em “Tron Legacy” e era cotado para viver o Capitão América, fará o papel icônico de Dean Moriarty, o alter-ego de Neal Cassady. E Sam Riley, o Ian Curtis do filme “Control”, dará vida a Sal Paradise, narrador e personificação do escritor Jack Kerouac na trama.

Quanto a Kristen Stewart, Salles disse que a definiu logo depois de ver sua atuação em “Na Natureza Selvagem” (2007), de Sean Penn. Isto é, antes de a atriz estourar na “Saga Crepúsculo”.

“Ela conhece o livro de Kerouac a fundo e permaneceu fiel ao projeto durante todo o tempo em que o filme procurava financiamento”, revelou o diretor, confirmando que sua escalação foi feita há três anos. “A luta para fazer esse filme parece que se arrastou pela eternidade”, resumiu a atriz ao jornal americano USA Today.

Salles reconhece que Kristen é um novo modelo de atriz, que usa sua popularidade para apoiar o cinema independente. Em vez de fazer filmes que lhe oferecem grandes salários, ela prefere investir sua reputação em filmes que lhe falam ao coração.

“Ela poderia estar estrelando projetos com orçamentos muito maiores, mas fez a opção de participar de um filme independente, produzido por uma companhia francesa, pelo que o filme diz. É uma atriz que não recusa o risco, como a personagem incandescente que vai viver em ‘On the Road’”, elogiou. “Nos dias que correm, não é pouco. O mesmo pode ser dito de Garrett Hedlund, um jovem ator que participou do longo processo de casting realizado para o filme e fez um ótimo teste para o personagem de Dean”, ele completa.

Quem ainda não leu “On the Road”, traduzido no Brasil como “Pé na Estrada”, tem uma séria falha em sua formação cultural. O livro, fortemente autobiográfico, foi eleito pela revista “Time” como um dos 100 melhores livros escritos na língua inglesa no século 20. Lançado em 1958, transformou Jack Kerouac em estrela pop literária e abriu caminho para uma geração desapegada, mais livre, contestatória, boêmia, fã de música negra e revolucionária.

Como os eventos do livro foram originalmente escritos em 1951 e retratavam viagens que levaram Kerouac e Cassady pelas estradas americanas na década anterior, é possível dizer que a experiência beat precedeu a contracultura e os hippies em cerca de 20 anos.

O diretor chegou a dizer, no documentário exibido em San Francisco, que para ser feito corretamente a produção precisaria ser filmada em preto e branco, mas não há declaração oficial sobre se este será de fato o caso.

“On the Road” deverá ter locações nos Estados Unidos, no Canadá e no México, onde a viagem acaba. As filmagens começam no dia 1º de agosto, a partir do roteiro escrito por Jose Rivera, parceiro de Salles em “Diários de Motocicleta”. A montagem será feita no Brasil.

Fonte: Pipoca Modernahttp://pipocamoderna.virgula.uol.com.br/?p=27445.

Uma resposta to “Walter Salles põe o pé na estrada”

  1. Thiago L. de Souza (Naga) Says:

    Apenas resta espserar, Salles acertou em cheio ao revitalizar o projeto e sonhos de outros grandes diretores ao adaptar “on the road”, o livro é fantástico, exprime tudo o que viria a ser a geração beat dos anos 60, Neal Cassady que morreu muito cedo e alter ego de Kerouac, autor do livro, fazia parte da geração de desiludidos e caminhantes do mundo.
    Dois livros são essenciais para o entendimento do futuro filme
    o próprio On the Road, de Jack Kerouac
    e O primeiro Terço, de Neal Cassady.
    E para quem não conhece Walter Salles, vide Diários de Motocicleta, Linha de Passe, e Central do Brasil, e sua grande obra Abril Despedaçado.
    A atriz Kristen Stewart demonstrou bom desempenho em a Natureza Selvagem de Sean Penn, onde faz uma filha de Hippies em um acampamento no deserto, filme que conta outra trajetória de um caminhante pelos Estados Unidos, a história de Christopher Mccandless, interpretado por Emilie Hirsch, segundo qual foi inspirado por autores que influenciaram a geração beat.
    Sam Riley, que fez um ótimo trabalho no filme Control, sobre a vida de Ian Curtis, vocalista do Joy Division, é sem dúvida a melhor escolha para o persnagem de Jack Kerouac.
    Bom, esperamos que obra seja feita com vigor ao que o livro representa e que possa ser mostrada a nova geração de hoje como algo totalmente novo.

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