A breve história do cinema teen brasileiro



Cidade de Deus

Bicho de Sete Cabeças

Filmes adolescentes eram bem mais comuns na década de 1980, a partir de “Menino do Rio” (Antonio Calmon, 1982). Os cinéfilos e puristas da época até se escandalizaram – quase tanto quanto com a canção homônima de Caetano Veloso – ao deparar com aquele roteiro romântico, totalmente decalcado dos congêneres americanos e voltado para as peripécias amorosas de um surfista. Não bastasse a dita “pornochanchada” para aviltar a temática do cinema brasileiro, agora aparecia esse Antonio Calmon a fazer apologia da alienação juvenil.

Calmon vinha levando uma controvertida carreira de cineasta que, depois de “Eu Matei Lucio Flávio” (1977), começava a ser carimbada como reacionária. O “inventor” do cinema pop nacional foi desbravador do universo teen curiosamente num filme com contexto social, o drama “Nos Embalos de Ipanema” (1978), estrelado pelo mesmo André de Biase de “Menino do Rio” num papel de surfista – só que desta vez envolvido em prostituição.

Aquele era um período no qual somente os filmes eróticos e sensacionalistas costumavam empolgar as bilheterias. Mas o surpreendente sucesso comercial de “Menino do Rio”, em que André de Biase vivia um surfista pobre apaixonado por uma modelo famosa e sofisticada (a saudosa Cláudia Magno), deu origem à série de televisão “Armação Ilimitada”, transmitida pela Rede Globo entre 1985 e 1988, numa prova de que existia um público para aquele tipo de história. Ou seja, diante do queixo caído da turma do cinema, a televisão se apropriava daquele nicho no qual, mais tarde, iria inserir a eterna série “Malhação”, que se estende de 1995 até agora.

Naquela época, ainda era forte a influência hippie tardia, confrontando idealismos, sexo, drogas, rock e política. “O Sonho Não Acabou” (1982), segundo filme do diretor Sérgio Rezende (“Salve Geral”) e plataforma de uma nova juventude dramática (Miguel Falabella, Lauro Corona, Lucélia Santos, Daniel Dantas e Louise Cardoso), retratava a primeira geração nascida em Brasília. Uma Fernanda Torres ainda em flor interpretava a jornalista iniciante Eliane Maciel, que tinha estourado com sua precoce autobiografia, em “Com Licença, Eu Vou à Luta” (Lui Farias, 1986).

Por sua vez, o mais tarde controvertido produtor e diretor do inacabado “Chatô, O Rei do Brasil”, Guilherme Fontes era “Dedé Mamata” (Rodolfo Brandão, 1988). Ele contracenava com Malu Mader, Luis Fernando Guimarães e Marcos Palmeira, na pele de um personagem que se tornaria símbolo da juventude da época e que trocava o marxismo pela droga e outras formas de evasão do mundo concreto: filho de comunistas e neto de anarquistas, ele nem percebe que o país vivia sob regime de exceção, nem quando o pai é preso e desaparece. Seu destino se resume a vender e consumir cocaína.

Tratava-se de uma geração que marca a passagem de um período de politização da juventude urbana de classe média para outro em que a palavra de ordem era o escapismo. Com música de Caetano Veloso, esse filme foi uma das primeiras produções independentes em relação à Embrafilme, uma vez que foi produzido inteiramente com recursos captados por meio da Lei Sarney.

Malu Mader também aparece como namorada do protagonista em “Feliz Ano Velho” (Roberto Gervitz, 1987), adaptação do best-seller também autobiográfico do jovem Marcelo Rubens Paiva − papel que era de Marcos Breda e foi considerado um exemplo gritante dos males que a ditadura fez a toda uma geração. Acidentado nos anos 80, o personagem central rememora a sua trajetória nos anos 70, quando era militante de esquerda. Já em tempo de “abertura lenta e gradativa” do regime militar, a Embrafilme participou com apenas 20% do orçamento.

Como a atriz Malu Mader observou numa entrevista durante o Festival de Gramado daquele ano, onde “Feliz Ano Velho” foi sete vezes premiado, os dois filmes se diferenciam em seus pontos de vista, apesar de se mostrarem semelhantes em termos de forma e temática: jovens que viveram a pré-adolescência nos anos 70, e que agora se acham em busca de novos valores, caminhos e opções. Ambos tentam se expressar por meio de uma linguagem cinematográfica contemporânea, principalmente porque as equipes de criação e produção se achavam na faixa etária dos 20/30 anos.

Ao lado de sexo, drogas e rock – em lugar das antigas passeatas, da esvaziada agitação estudantil e das esquecidas canções de protesto − a nova juventude foi se interessando cada vez mais por diversão e arte. Assim, Débora Bloch era a encantadora “Bete Balanço” (Lael Rodrigues, 1984), que veio de Minas Gerais para o Rio de Janeiro sonhando em se tornar cantora, enquanto destruía corações ao som do Barão Vermelho de Cazuza – este, aliás, um ícone vivo da cultura jovem daquele tempo. O diretor Lael Rodrigues depois fez mais dois filmes com temática e músicas pop: “Rock Estrela” (1986) e “Rádio Pirata” (1987), que foi seu último trabalho, antes de falecer em 1987, aos 38 anos, de insuficiência cardiáca.

Antonio Calmon fez uma continuação mais pop de “Menino do Rio”, “Garota Dourada” (1984) que tinha Andrea Beltrão dividindo a tela com André de Biase (dois dos astros de “Armação Ilimitada”), Cláudia Magno, Guilherme Arantes, Ritchie e Marina Lima. No filme, dois surfistas disputavam a preferência da beldade Bianca Byington. O modesto resultado desse projeto praticamente levou Calmon a encerrar a carreira de cineasta e se concentrar na de redator de televisão. Tomado, porém, como documento de uma época, foi um dos vários filmes que apóiam a seguinte constatação: boa parte dos moços só queria aproveitar o melhor do “aqui e agora”, de preferência levando vantagem em relação aos demais.

De modo generalizado, a adolescência começava a se prolongar assustadoramente e muita gente ultrapassava a marca da maioridade se acomodando na dependência familiar, para preservar o estilo teenager de vida. Nos anos 60, a rapaziada fugia de casa e punha o pé na estrada sem ao menos dizer “mamãe não chore”. Um quarto de século depois, esse rompimento tão radical não seria mais necessário: aquecido desde o final da 2ª Guerra, o conflito de gerações se esfriava rapidamente. Os pais já deixavam as garotas passarem a noite na casa dos namorados, onde era até possível fumar o que bem entendessem. Bastava reduzir o impulso de autonomia e a amplitude dos sonhos para se acostumar com a baixa mesada e manter o ritmo de vida mansa, o mais descompromissada possível.

Evandro Mesquita, por exemplo, encarnava um rapaz que queria ser escritor, mas acabava como traficante em “Não Quero Falar sobre isso Agora” (Mauro Farias, 1991), filme que veio para fechar a década para este gênero de filme sobre e para jovens. O personagem teve que ir à luta ao ser abandonado pela namorada, mas preferiu o anonimato da marginalidade, se dissolvendo como pequeno fornecedor no caos do baixo Leblon.

De modo análogo, a Embrafilme e a Lei Sarney aguardavam o golpe final a ser desferido por Fernando Collor, que levaria o cinema brasileiro a implodir em irreversível entropia. Mesmo premiado com cinco kikitos em Gramado, o filme permaneceu anos na prateleira aguardando exibição, ao lado de outros 20 títulos que quase se perderam na paralisia do mercado, como “Sampaku, O Olho da Ambição”, (José Joffily, 1991), “O Corpo” (José Antônio Garcia, 1991) e “O Fio da Memória” (Eduardo Coutinho, 1991).

A realização de filmes voltou a funcionar depois de 1995, com a Lei do Audiovisual que demorou alguns anos para engatar e, desde o seu início, atrelava a captação de recursos aos incentivos fiscais que garantiam a produção, mas mantinham-na relativamente apartada da competição no mercado exibidor. Nesse período que se convencionou chamar de “retomada”, filmes que falassem da adolescência e também se preocupassem em se comunicar com essa faixa de idade tornaram-se raridades.

De maneira geral, só aparecia nas telas o jovem de um modo ou de outro situado à margem da corrente principal. Como Luis Fernando Ramos, o já falecido menino de rua que foi transformado em ator para o filme de Hector Babenco e foi tema de “Quem Matou Pixote” (José Joffily, 1996), ou a garota que vivia isolada do mundo numa ilha, encarnada por Leandra Leal no poético “A Ostra e o Vento” (Walter Lima Jr, 1997).

Tanto essas figuras quanto as burguesinhas deslumbradas com um ex-guerrilheiro em “Dois Córregos” (Carlos Reichenbach, 1999) ou o rapaz interpretado por Rodrigo Santoro em “Bicho de Sete Cabeças”, que foi parar num hospício por fumar um baseado (Laís Bodanzky, 2001) não foram capazes de despertar o interesse dos espectadores da sua própria idade. Esses filmes visavam, na verdade, o público adulto e, por meios de seus protagonistas, discutiam problemas políticos, sociais e educacionais.

O mesmo acontecia com a “Uma Vida em Segredo” (Suzana Amaral, 2002) e “Vida de Menina” (Helena Solberg, 2003), dois filmes regionais e de época, ou “Cazuza – O Tempo Não Para” (Sandra Werneck, 2004), a biografia de um ídolo pop, e “Anjos do Sol” (Rudi Lagemann, 2006) sobre o drama de meninas do nordeste vendidas como escravas pelos próprios pais.

Daquele período, apenas duas ou três exceções se mostraram divertidas ou cômicas o suficiente para interessar às platéias mais jovens. Nessa categoria incluem-se os filmes iniciais de Jorge Furtado: “Houve uma Vez Dois Verões” (2002), sobre um adolescente que se apaixona na “maior e pior praia do mundo”, e “Meu Tio Matou um Cara” (2004), saborosa comédia narrada e protagonizada pelo menino Darlan Cunha, ainda que em seu primeiro plano a cena tenha sido ocupada por Lázaro Ramos. Já o musical “Antônia – O filme” (Tata Amaral, 2006) teve o ritmo e a empolgação necessários para se tornar série de TV na Rede Globo.

Numa fase mais recente − refletindo o esforço atual pela seriedade no discurso desta cinematografia de patrocinadores e, necessariamente “bem intencionada”, ainda que distante do grande público − personagens centrais menores de idade praticamente só têm feito parte de produções dedicadas à discussão de problemáticas sociais: “De Passagem” e “Os 12 Trabalhos” (Ricardo Elias, 2003 e 2006) “Querô” (Carlos Cortez, 2007), “Última Parada 174” (Bruno Barreto, 2008) e, claro, o emblemático “Cidade de Deus” (Fernando Meirelles, 2002) – sexo, drogas e baile funk.

Até que um rapaz de 20 anos, vendo sua geração ausente das telas, resolveu estrear como roteirista e diretor de cinema. O resultado, “Apenas o Fim” (2009), do estreante Matheus Souza, tornou-se um destaque do último Festival do Rio. Estudante de cinema, Matheus mesclou os melhores elementos da cultura pop da última década, colocando sua geração nas telas e abrindo caminho para a retomada dentro da Retomada.

Por Luciano Ramoshttp://pipocamoderna.virgula.uol.com.br/?p=24692.

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