A vida secreta de um mito


The Queen

Livro sobre bastidores do Rock in Rio ´85 e biografia assinada pelo jornalista francês Selim Rauer revelam o estranho caso do líder do Queen, Freddie Mercury, cuja vida se confundia com a própria mitologia em torno da banda.

O punk inglês, desperto no final dos anos 70, era uma metralhadora giratória. Onde a cusparada ácida acertasse, certamente, estaria alguém que a mereceria. No entanto, os ataques nem sempre eram aleatórios. Na música, os punks se insurgiam contra uma instituição que se consolidou nos anos 70: o rock que trocaram a rebeldia primitiva pelo hedonismo; os clubes pelas arenas; a economia de acordes pela suntuosidade de arranjos; o olho no olho do público transmutou-se em distância, em luxo desmedido, limusines, mansões e drogas caras.

Poucas figuras encarnaram tão bem este novo tipo de roqueiro quanto Freddie Mercury (1946 – 1991). Nascido em Zanzibar, com ascendência indiana, ele foi o líder de uma das principais bandas dos anos 1970 e 1980, Queen, que na ambígua referência à realeza trazia algo de luxo e ostentação. E é a figura de Mercury que chama atenção aos riscos de endossar a crítica punk e rejeitar o rock agigantado. À frente do Queen, o cantor operou o milagre de produzir música para as massas, sem trocar um alcance maior pela perda de qualidade.

É a história deste rockstar, ponto exato entre o bom e o mau gosto, entre -alta” e “baixa” cultura, que cobre as páginas de “Freddie Mercury”, do escritor francês Selim Rauer. O livro acompanha a trajetória de Mercury de seu nascimento numa ilhota que hoje faz parte da Tanzânia ao crescimento desmedido do sucesso com sua banda. O ponto final fica um pouco além da morte do cantor, em 1991, em decorrência da Aids, apontando a vaga deixada por sua partida e o desafio que a vida (e o show business) legou ao restante do Queen, os ingleses Brian May (guitarra), Roger Taylor (bateria) e John Deacon (baixo).

Freddie, o Grande

Na orelha da biografia “Fred Mercury”, Selim Rauer transcreve uma frase atribuída ao líder do Queen: “Eu não serei conhecido, eu serei uma lenda…”. As mais de 300 páginas que se seguem são o desabrochar desta máxima, que vai sendo ilustrada em detalhes, ganhando contornos mais nítidos, drama, comédia, tragédia.

O autor procura manter o difícil equilíbrio crítico, aquele que foge da apologia ao biografado, sem cair na obsessão por desfazer o mito. O biografado, para piorar, levou uma vida incomum: as aventuras e desventuras vividas por Freddie Mercury eram tentativas de fazer coincidir o homem e o mito.

“Freddie Mercury”, em certo sentido, é a clássica biografia de astro do rock. É recheada de momentos majestosos e míticos, caso da explosão do sucesso com “Bohemian Rhapsody” (1975, do disco “A Night at the Opera”)e do show do grupo no Rock in Rio de 1985. Não faltam a barra pesada um tanto glamourosa da combinação sexo e drogas. Por outro lado, há o homem em contradição, que tenta manter uma ilha de privacidade para pode respirar. Nela, habitaram seus amores e decepções, e os momentos de fragilidade diante da exigência da glória.

Biografia “Freddie Mercury”

Selim Rauer

R$ 49,90

320 PÁGINAS

2010

PLANETA

TRADUÇÃO: Marly N. Peres

Transformação no Rock in Rio

O publicitário Cid Castro criou a logomarca do Rock in Rio, marco na história da música pop no Brasil (pois estabeleceu a ponte definitiva por onde passariam as grandes bandas gringas). Duas décadas e meia depois da primeira edição do festival, realizada em 1985, ele lança o livro de memórias “Metendo o pé na lama”. Nele reconstitui seu envolvimento com a organização do festival, desde quando este mal passava de uma ideia extravagante até os três dias de barulho, lama e caos na recém-construída Cidade do Rock, no Rio de Janeiro.

E o Queen? O grupo de Freddie Mercury é protagonistas de algumas páginas da obra, mais especificamente quando Cid Castro faz um relato do primeiro dia do festival. O quarteto inglês era uma das maiores atrações do evento. Depois de uma primeira década de existência gloriosa, o Queen vivia um novo momento de auge (comprovado um pouco mais tarde em performances históricas no Wembley Arena e no Live Aid).

A banda já tinha dado às caras por aqui quatro anos antes. Na ocasião, Freddie Mercury havia se confirmado como um dos grandes mestres de cerimônia do rock. No palco, não era apenas a grande estrela, como as magnéticas divas da ópera. Mercury era o maestro que fazia a plateia cantar e provocava ondas no mar de pessoas com apenas com um aceno.

A rainha e o súdito

Em “Metendo o pé na lama”, Cid Castro conta a história da transformação, radical, de Freddie Mercury. O soberano indisposto e cheio de exigências impossíveis terminou a noite assombrado diante do retorno da gigantesca plateia ao espetáculo que comandara com o Queen.

Antes do show, lembra o autor, a produção do Rock in Rio estava em polvorosa. “O motivo era simples: a Rainha da Inglaterra insistia em não se apresentar aos súditos”. O cantor exigia que os corredores ficassem vazios para sua passagem (operação que exigiria a remoção apressada de uma pequena multidão de 300 pessoas, entre equipe técnica, jornalistas e penetras). No fim, o astro foi levado ao palco cercado por seguranças. “Aos poucos, a supremacia inglesa foi massacrada pelo entusiasmo tupiniquim. (…) ´We are the champions´, cantado a uma só voz pela plateia, superava o artista. Essa emoção tocou o intocável Fred”.

MEMÓRIAS “Metendo o pé na lama”

Cid Castro

R$ 39,90

264 PÁGINAS

2010

TINTA NEGRA

Fonte: Dellano Rioshttp://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=755615#.

The Queen

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