Iniciativas livres e distópicas


Forrest Gump

Forrest Gump

Forrest Gump ousa pensar por si mesmo, mas segue todas as convenções conforme elas lhe são instruídas. Quando, no Vietnam, só quis salvar um amigo, tornou-se herói de guerra – salvou a tropa toda, mas, atrasado, não conseguiu salvar o amigo; ganhou a medalha, mas não foi feliz.

Forrest Gump diz sempre a verdade, quer a verdade, não gosta de mentir. Mas mentiu quando essa mentira lhe foi dita inofensiva; e essa “mentirinha” lhe deu 25 mil dólares. Com esse dinheiro, comprou um barco de pesca no intuito de ficar rico pescando camarões. Mas, é claro, só teve prejuízo. Até que uma fatalidade mudou tudo – fez fortuna depois que todos os outros concorrentes foram destruídos por uma tempestade, isto é, pela natureza, e não pela competição segundo as leis do mercado. Depois, já “gazilionário”, não dá a mínima a acumular mais, pois seus rendimentos foram garantidos por seu ex-superior e agora sócio, Tenente Dan, a quem também salvou. Mas ainda não é feliz, porque, embora saiba o que é o amor, não consegue fazer a mocinha Jenny amá-lo – e não entende por que ela não o ama…

Forrest Gump também não gosta de ser chamado de idiota. “Stupid is as stupid does” é seu bordão ambíguo. Ele não pensa como todos pensam, mas se esforça para tanto. Ele não faz como todos fazem, mas quer fazer; por isso, segue as regras à risca. Forrest quer claras indicações e não se dá bem com subentendidos; quer a transparência, não aceita a opacidade dos códigos. E é único, porque, mesmo seguindo as regras à risca, constrói um pensamento com as suas forças viscerais próprias – deseja pensar como os outros porque precisa pensar por si mesmo. É um pensador único, embora queira pertencer ao comum e não seja exatamente capaz de questionar a ordem normal da vida. Ele pode não estar ciente de suas plenas capacidades, mas não é, por isso, insciente das próprias limitações – ele luta contra elas. Ao fazê-lo, mostra o avesso das regras. Sua atitude é questionadora, embora disso ele mesmo não se dê conta: se seguidas como nos dizem que devem ser, funcionariam as regras como nos dizem que deveriam? Só um idiota acreditaria piamente nas regras, que, todos sabem, foram feitas para serem oportunamente desrespeitadas. Afinal, quem consegue ter sucesso num mundo desses? Se quisermos que as coisas dêem certo, burlemos o sistema – isso precisamente dizem todos os filmes policiais dos EUA há décadas (oras, Máquina Mortífera!).

Mas alguém há de não duvidar. Mesmo não querendo, Forrest Gump é um perfeito idiota, pois acredita piamente nas regras. Ele as concebe clara e distintamente, ainda que sejam opacas. E, assim, mostra que há algo de podre no império da liberdade…

Forrest incomoda. Ele quer descobrir o limite do certo e do errado, ele quer a distinção precisa entre certeza e dúvida e, dessa vez, ele precisa descobri-la por si mesmo, não aceita o que lhe dizem. Forrest, então, corre, conforme sua amada Jenny lhe dissera certa vez. Corre sem saber por que, ou para onde. Corre por correr. Mas, então, as pessoas o seguem.

Eis a distopia: no país cuja Carta Magna se baseia na idéia de que todas as pessoas são igualmente capazes de, reconhecendo racionalmente os seus limites e os dos outros, estabelecerem metas de felicidade individual alcançáveis com seu empenho pessoal, uma multidão de perdidos é liderada numa corrida cega por um idiota que corre sem saber nem qual, nem por quê, nem aonde. E aqueles que deveriam liderar a corrida na verdade atravancam o caminho. Contudo, acabam ficando para trás: os “bullies” que apedrejam o “lerdo” Forrest na infância são implausivelmente deixados na poeira…

A livre-iniciativa é um mito. Ou, ao menos, uma ilusão, conforme o filme (EUA, 1994) de Robert Zemeckis. Na terra das oportunidades, estas não surgem da indústria dos indivíduos, mas do acaso – muitas vezes, um acaso “cretino”. O progresso e a riqueza não vêm de planos racionalmente concebidos, a liberdade não é fruto do empenho pessoal, as oportunidades não existem porque o país as favorece, antes, tudo parece acontecer apesar das pessoas, do sistema, da política. Numa realidade dessas, conseguir o sucesso – bem entendido: não morrer, se possível ficar rico, amar e ser feliz – é um absurdo.

Mas Forrest não gosta de absurdos; ele é um idiota à moda antiga. Outro idiota, mais novo, chamado Kaspar Hauser, desejará o inaudito. Cenas para a próxima coluna.

Cordiais saudações

Escrito por Cassiano Terra Rodrigues, professor de Filosofia na PUC-SP e acredita que os sonhos mais selvagens ainda estão para serem sonhados – cassianoterra@uol.com.br.

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2 Respostas to “Iniciativas livres e distópicas”

  1. d i a l i s o n Says:

    O melhor filme! O melhor ator!

    “minha mãe diz que idiota é quem faz idiotices!”

  2. Ilhota Rock Festival Says:

    Interessante a análise feita sobre o filme, mas ele condiz tudo para uma realidade atual em que vivemos! O que não deixa de ser interessante e de fato curioso.

    Existem várias análises e interpretações feitas sobre este filme e esta difere é bastante das que eu conhecia. O questionamento que o autor sugere é de fato muito propício às pessoas que querem algo mais, e interpretam seja um filme ou um livro, de forma crítica e contraditória. Muito bom mesmo!

    Um detalhe me chamou a atenção. Forrest nunca buscou dinheiro e riqueza na compra do barco de pesca, mas sim satisfazer um desejo do amigo falecido no Vietnam, onde mais um acontecimento por acaso levou ele a conquistar tal riqueza, sendo este acaso comentado em todo o texto.

    Opinião de Thiago Naga, Diretor Financeiro do Clube do Rock.

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