Glauber Rocha e o cinema brasileiro


Glauber Rocha

Glauber Rocha

Introspectiva cultural e subjetividade complexa, ambos exercendo sua função básica no desenvolvimento de um panorama expressivo, dando vigor às dores cotidianas da realidade vivenciada pelos mais miseráveis e a repleta condição do questionamento do homem sobre o homem. Particularidades plurais de diversos contextos que exprimem nossa revelação e curiosidade para com o que é dito novo e com a aceitação das vigências estabelecidas, um ensaio contra nossos sentimentos mais profundos, enterrados, transparentes e errôneos, como se tudo fizesse parte de um grande palco, o palco da vida.

Com uma câmera na mão, temos um real e vaga chance de guardarmos tudo que nos convêm, sendo esta câmera, o olho de quem enxerga o fato de acordo com o ponto de vista daquele que filma, mas com uma idéia na cabeça, essa tarefa pode manipular e exercer as mais variadas formas de se obter a criação de uma arte própria, indefinida e chocante, que nos transporte para dentro de nós mesmos, pois o maior mistério da vida do homem, é ele próprio, e cabe a nós mesmos criarmos mecanismos para nos estudarmos, nossas vidas, nossas histórias, nossas épocas, e nosso mundo.

No Brasil, talvez possamos medir a importância de nossa arte com nomes que expressam sua plenitude. Algo como citarmos a importância da literatura no nome de Machado de Assis ou Jorge Amado, a música com Tom Jobim ou Heitor Villa-Lobos, o teatro com Sérgio Brito ou Paulo Autran e muitos outros, e então poderíamos dizer que no cinema nossa representação mais determinante e marcante seria com o baiano Glauber Rocha.

O marcante retrato ideológico de um cinema verdadeiro, feito quase que na raça, buscando a subjetividade para a realização de algo inovador, e que fugisse do tradicional modo americano de se fazer filmes, ideias estas que elevaram a proposta de Glauber a definir o conceito do Cinema novo, como ficou conhecido, com uma câmera na mão e um turbilhão de ideias na cabeça.

Era quase um militante cinematográfico, realizando seus filmes abaixo do pano negro da ditadura, sendo cassado, preso, oprimido, incompreendido, e sempre genial, e se duvidarmos destes seus adjetivos é só procurarmos relatos de pessoas como os cineastas franceses François Truffaut, Jean-Luc Godard, todos da mesma época, ou o próprio Martin Scorsese, que defendem e confessam suas paixões pelo cinema de Glauber. Fato que na época os próprios cineastas franceses contestaram ao então presidente Castelo Branco, sobre a prisão de Glauber Rocha em 1965.

Influente e contestador, sempre depositou em seus filmes a marca da luta do homem, seja pelo lado da exploração exposta em seu primeiro longa Barravento, ou a crise do sertão brasileiro e a desigualdade entre os donos de terra e os trabalhadores, relatado em “Deus e o Diabo na Terra do Sol” e em “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”, ambos condecorados e premiados, o último como diretor em Cannes, sendo até indicado a palma de ouro, tudo isto fora do Brasil, claro, pois seu reconhecimento era muito mais forte lá fora do que aqui, em sua terra, fato este que ocasionou no recente relançamento de suas obras, serem todas resgatadas fora do Brasil, foram achados rolos de filme em Cuba, França, Portugal, e menos aqui, no Brasil.

“Terra em Transe” foi um de seus maiores triunfos cinematográfico, o levando a trabalhar junto de Paulo Autran, e conservando sua genialidade aos anos para frente, recebe o prêmio da crítica em Cannes, e o prêmio Luis Buñuel na Espanha, e deixa a grande marca do cinema brasileiro, ou melhor, do cinema de Glauber, pois trata-se aqui de um cineasta único, sem igual, e diferente do cinema convencional e comercial que se promovia no Brasil, o que mais tarde gerou as chanchadas e depois as pornochanchadas.

Entre seus trabalhos talvez seu maior personagem já criado seja o Antônio das Mortes, matador de cangaceiro, interpretado pelo falecido ator Maurício do Vale, aonde o figurino deste personagem veio a influenciar os Westerns (faroeste) italianos de Sérgio Leone, sendo o próprio Maurício convidado a participar, fato que recusou.

Particularidades à parte, o cinema de Glauber é um marco da arte brasileira, seus filmes são verdadeiros testamentos da alegoria, indo do folclore aos versos de cordel, até o panorama político e a adversidade do homem, nos deixou em 1981, em um Hospital no Rio de Janeiro, transferido de Lisboa, sendo que residia já 18 meses na cidade de Sintra em Portugal, aonde vinha criando um novo filme em sua cabeça, sendo filmado por seus filhos e ex-esposa, que lançaram recentemente essas imagens como um documentário dos últimos dias de Glauber em terras Lusitanas.

Visto como elemento subversivo pela ditadura se exilou em 1971, da onde nunca voltou totalmente. Em 26 de maio de 2010, foi concedida anistia política a Glauber, processo iniciado por sua filha Paloma Rocha em 2006, e qual receberá a devida indenização, o governo pediu desculpas à mão de Glauber, hoje com 91 anos. Glauber havia sido preso por 18 dias em 1965, quando solto mudou-se para Nova York em 1971.

A importância de seu cinema é enorme, e em nível de comparação, o que dispensamos no caso de Glauber, seria como se ele fosse o nosso Kubrick, seus filmes refletem uma imensidão lírica e contextual sobre nosso país e sobre nossa consciência, seja política, romancista, ou pela arte em geral. Lançado com patrocínio da Petrobrás, temos o resgate de seus filmes para DVD em um Box com 4 de seus filmes mais importantes, “Barravento”, “Terra em Transe”, “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”, e “A idade da terra”.

Todos com uma tonelada de extras e documentos da época de sua realização, e todo um trabalho da cinemateca brasileira no resgate de seus filmes, encontrados em diversos países.

Obra essencial da cultura brasileira, e da cultura cinematográfica

Documentários e Curtas-metragens

  • O pátio – 1959.
  • Maranhão 66 – 1966.
  • História do Brasil – 1974.
  • As armas do Povo – 1974.
  • Di Glauber  – 1976.
  • Jorge Amado no Cinema – 1979.

Longa-metragem:

  • Barravento – 1961.
  • Deus e o Diabo na Terra do Sol – 1963 (indicado a palma de ouro em Cannes).
  • Terra em Transe – 1967 (vencedor prêmio da crítica no Festival de Cannes, e indicado a palma de ouro).
  • O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro – 1968 (melhor diretor em Cannes, indicado a palma de ouro).
  • Cabeças Cortadas – 1970.
  • O Leão de Sete Cabeças – 1971.
  • Câncer – 1972.
  • Claro – 1975.
  • A Idade da Terra – 1980.

Em negrito a essencial obra deste grande cineasta ainda desconhecido por muitos!

Até a próxima semana.

Escrito por Thiago Luis de Souza. Naga é membro Clube do Rock, sendo diretor financeiro e um dos organizadores do Ilhota Rock Festival.

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Uma resposta to “Glauber Rocha e o cinema brasileiro”

  1. Cristini Says:

    Obrigada pelo texto Thiago, é bom não deixar esquecer da história do Glauber e dos cineastas que fizeram o Cinema Novo. Gostaria de saber se tu faz cinema, ou estuda cinema?
    Gostaria, também, de ler um texto teu sobre a biografia do Glauber “A Primavera do Dragão”, escrita pelo Nelson Motta.
    Abraço.
    Cristini

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